"Bohemian Rhapsody" toca tão baixo que, por um instante, parece estar vindo de dentro da minha cabeça e não da caixa de som esquecida sobre a escrivaninha.
Sempre achei engraçado como algumas músicas escolhem o momento certo para fazer sentido.
Dobro mais uma blusa.
Depois uma calça.
Depois o moletom cinza que eu usava até nos dias mais quentes. Não porque estivesse com frio, mas porque ele escondia partes de mim que eu preferia fingir que não existiam.
Minha vida inteira está espalhada pelo quarto.
Fotos coladas na parede.
Livros empilhados no chão.
Canecas com canetas que já não escrevem.
O espelho.
Principalmente o espelho.
Desvio os olhos dele como faço há anos.
Meu nome é Annelize Rodrigues Morgan. Tenho dezessete anos. Nasci em Los Angeles, mas me mudei para São Paulo quando tinha seis anos após o término dos meus pais.
Se alguém me perguntasse quem eu sou, provavelmente responderia isso.
Porque são fatos.
E fatos são mais fáceis do que sentimentos.
Quem eu sou de verdade...
Essa resposta nunca consegui encontrar.
Passei anos tentando ser a versão de mim que agradava à minha mãe. A filha que não respondia. Que sorria quando mandavam sorrir. Que aprendia a pedir desculpas mesmo quando não entendia pelo quê.
Depois de um tempo, você para de tentar descobrir quem é.
Só tenta não decepcionar mais ninguém.
Até a si mesma.
Dobro outra camiseta.
Ela cai da minha mão.
Quando me abaixo para pegá-la, meu reflexo aparece no espelho.
Por alguns segundos, fico encarando aquela garota.
Não gosto dela.
Nunca gostei.
Ela parece sempre ocupar espaço demais, falar demais, sentir demais.
Então viro o espelho para a parede.
É mais fácil assim.
Minha mãe diz que a mudança será melhor para todos.
Na verdade, será melhor para ela.
Ela finalmente vai morar com o namorado, construir a vida que sempre quis... uma vida onde eu pareço não caber.
Não houve discussão.
Não houve escolha.
Só uma decisão.
"Você vai morar com o seu pai."
Engraçado.
Meu pai sempre existiu.
Só nunca esteve presente o suficiente para eu saber como é morar com ele.
Após o divórcio, quando meu pai decidiu deixar Los Angeles, eu achei que ele tinha enlouquecido.
Enquanto milhares de pessoas sonham em morar na Califórnia, ele fez exatamente o contrário. Trocou avenidas lotadas, prédios iluminados e o trânsito interminável por uma cidade no norte de Idaho que eu mal conseguia pronunciar o nome: Coeur d'Alene.
A cidade parecia ter saído de um cartão-postal.
Montanhas cercavam o horizonte em todas as direções, enormes florestas cobriam as estradas e um lago tão grande que parecia não ter fim refletia o céu como um espelho. No inverno, a neve tomava conta das ruas e dos telhados. Na primavera, as flores surgiam por todos os lados. No verão, as pessoas passavam os dias no lago, e no outono as árvores pintavam a cidade inteira de tons dourados e avermelhados.
Era bonita. Irritantemente bonita.
Mas isso não significava que eu queria morar ali.
Em Los Angeles, ninguém prestava atenção em ninguém. Eu podia desaparecer no meio de milhões de pessoas. Em Coeur d'Alene, parecia que todo mundo conhecia todo mundo. As ruas eram tranquilas demais. As pessoas eram simpáticas demais. E a cidade inteira parecia pequena demais.
Meu pai chamava aquilo de recomeço.
Eu chamava de exílio.
Não quero deixar para trás a única vida que conheço.
Não quero morar com um homem que ainda parece um desconhecido.
Não quero começar do zero.
Mas, às vezes, a vida não pergunta o que você quer.
Ela simplesmente coloca duas malas aos seus pés e espera que você descubra o resto no caminho.
Fecho o zíper da primeira mala.
O barulho corta o silêncio do quarto.
Pela primeira vez, percebo que algumas despedidas não começam quando você atravessa a porta.
Elas começam quando você entende que nunca mais voltará a ser a mesma pessoa que entrou naquele quarto.
Todo mundo dizia que mudanças eram novos começos. Ninguém nunca contou que, antes de começar alguma coisa, a gente precisava sobreviver ao que estava ficando para trás.
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Oii gente eu sou a bia💕
Antes de tudo, queria agradecer por você ter decidido dar uma chance para essa história.
Essa é a primeira fanfic que eu realmente tenho coragem de publicar. Eu já comecei outras antes, mas nunca consegui levá-las adiante. Dessa vez eu resolvi tentar, mesmo com medo.
Quero deixar uma coisa clara: essa não é uma fanfic focada apenas em romance.
Sim, vai existir um romance, e espero que vocês gostem dele quando chegar a hora. Mas ele não é o centro da história.
O foco é a Annelize.
Os medos dela, as inseguranças, a relação complicada com a mãe, a tentativa de reconstruir a convivência com o pai, a baixa autoestima, a forma como ela enxerga o próprio corpo e a busca por descobrir quem realmente é.
Escrever essa fanfic também é um jeito de organizar meus próprios pensamentos.
Em muitos momentos ela acabou se tornando um refúgio para mim. Então, mais do que uma história, ela carrega muito carinho e muita verdade.
Espero que, de alguma forma, vocês consigam sentir isso enquanto leem.
Se em algum momento essa história fizer alguém se sentir compreendido, já vai ter valido a pena escrevê-la.
Agora, falando um pouquinho sobre a protagonista...
•Annelise Rodrigues Morgan
•Idade: 17 anos.
•Altura: 1,68 m.
•Natural de: Los Angeles, Califórnia.
•Aparência: pele parda, olhos verdes, cabelos castanhos ondulados que chegam até a cintura.
•Físico: pratica exercícios físicos regularmente, então tem um corpo forte e já bem definido.
Apesar da aparência, Annelise quase nunca consegue enxergar a beleza que as outras pessoas veem nela.
A forma como ela se vê foi moldada por anos ouvindo coisas que nenhuma filha deveria ouvir.
E essa será uma das maiores batalhas dela durante a história.
Enfim...
Espero, de coração, que vocês embarquem nessa jornada comigo.
Boa leitura! 🤍
CZYTASZ
Between Mountains and Changes
FanfictionEssa história se trata de aceitação, pertencimento e recomeço.🤍
