O SUSSURRO

2 0 0
                                        

O bar estava cheio demais.
Alto demais.
Quente demais.
Errado demais.
Charlie mantinha as mãos apertadas no colo, os dedos entrelaçados com força, enquanto fingia prestar atenção na conversa dos homens à mesa. Risadas altas, copos batendo, olhares que demoravam mais do que deveriam.
Ela odiava aquele lugar.
— Endireita essa postura — a voz de Jhonatan veio baixa, perto do ouvido dela, carregada de impaciência.
Charlie engoliu seco e ajeitou as costas imediatamente.
— Desculpa…
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— Eu não pedi desculpa. Pedi pra você parar de parecer uma coitada.
O maxilar dela travou.
Ela não respondeu.
Já tinha aprendido.
Um dos homens do outro lado da mesa a observava.
Sem disfarçar.
Charlie desviou o olhar, o estômago revirando.
— Essa aí é sua? — ele perguntou, dando um gole na bebida.
Jhonatan passou o braço pelo encosto da cadeira dela, como se fosse dono.
— É.
Charlie sentiu o peso daquela palavra.
Não como algo bonito.
Como uma sentença.
— Bonita… — o homem continuou, analisando ela sem vergonha nenhuma — tem cara de ser quietinha.
Jhonatan riu.
— Você nem imagina.
Os dedos dela se fecharam mais forte.
Algo estava errado.
Muito errado.
— E aí… — o homem inclinou o corpo pra frente — você falou com eles?
Silêncio.
Por um segundo.
Mas foi o suficiente.
Charlie percebeu.
— Já tá quase resolvido — Jhonatan respondeu, girando o copo entre os dedos — só questão de tempo.
O coração dela acelerou.
— Resolvido o quê? — ela perguntou, antes de conseguir se segurar.
Os dois homens olharam pra ela.
Jhonatan não gostou.
Nunca gostava.
— Ninguém falou com você — ele disse, frio.
Charlie baixou o olhar, mas já era tarde.
A dúvida já tinha se instalado.
O medo também.
— Relaxa — o outro homem disse, sorrindo de lado — é coisa boa pra você.
O ar ficou pesado.
Charlie sentiu.
No fundo do peito.
Aquele instinto que nunca falhava.
— Que tipo de coisa? — ela insistiu, a voz mais baixa agora.
Jhonatan virou o rosto lentamente pra ela.
E sorriu.
Mas não era um sorriso bonito.
Nunca era.
— Você anda fazendo muita pergunta ultimamente.
O silêncio se estendeu.
E então ele se inclinou mais perto.
Tão perto que ela sentiu o cheiro de álcool.
— Mas já que quer saber…
O coração dela parou.
— Você vai valer alguma coisa finalmente.
O mundo dela… travou.
— O quê…?
Ele revirou os olhos.
— Não se faz de burra, Charlie.
O outro homem riu.
— Eles pagam bem por garota assim.
Não.
Não.
Não.
O som ao redor desapareceu.
As risadas.
A música.
Tudo.
Só aquela frase ecoando.
Eles pagam bem por garota assim.
O corpo dela gelou.
As mãos começaram a tremer.
Respirar ficou difícil.
— Você não pode estar falando sério… — a voz dela saiu falha.
Jhonatan a encarou.
Frio.
— Eu nunca falo brincando.
Foi nesse momento…
que algo dentro dela quebrou.
Não era medo.
Era decisão.
Charlie levantou rápido demais, a cadeira arrastando no chão.
— Eu preciso ir ao banheiro — disse, sem olhar pra ninguém.
— Senta — Jhonatan ordenou.
Ela não sentou.
Pela primeira vez…
ela não obedeceu.
E foi isso que salvou a vida dela.
Ela virou e saiu.
Primeiro andando.
Depois rápido.
Depois correndo.
— Volta aqui, Charlie!
A voz dele veio atrás.
Forte. Irritada.
Perigosa.
Ela não olhou pra trás.
Não dessa vez.
O ar queimava nos pulmões enquanto ela atravessava a rua, o coração disparado, os pensamentos confusos.
Ele ia encontrá-la.
Ele sempre encontrava.
Mas não hoje.
Não depois do que ela ouviu.
Vendida.
A palavra parecia perseguir cada passo.
Ela tropeçou, quase caindo, e olhou ao redor desesperada.
Luz.
Uma porta.
Sem pensar…
ela entrou.

You've reached the end of published parts.

⏰ Last updated: Apr 14 ⏰

Add this story to your Library to get notified about new parts!

WHISPER Where stories live. Discover now