08/05/1884
08:08
Interior de Januária
Eu não dormi a última noite.
E, de alguma forma, isso não importava mais.
Eu não me importava em dormir mais.
Não depois de ontem.
Porque se eu dormisse...
Aquilo poderia voltar.
A manhã chegou muito rápido, talvez mais rápido do que eu tivesse pensando. Uma noite não é tão longa assim, deve ser por isso que as pessoas acordam cansadas mesmo dormindo. Meu corpo estava leve, estranho, parecia vazio de alma, mas cheio de carne. Havia um som constante em minha mente... Demorei alguns segundos pra perceber que esse som não vinha de fora. É nesses momentos que nome e sobrenome não pesam nada, riqueza e pobreza, certo ou errado, não importa.
"Ridículo." Pensei
Me levantei da cama, não tomei cuidado algum, me olhei no espelho: olhos fundos, cabelo desajeitado...
"Linda..." Murmurei
Apenas ajeitei o cabelo, o mais simples possível, tanto que algumas pontinhas ficaram soltas.
"Quero ser enterrada assim no velório, sem embelezamento falso." Pensei, enquanto passava a mão pelo cabelo
Abri a porta e desci as escadas. Mamãe já estava na mesa, eram só nós duas mesmo.
"Bom dia, mamãe."
"Bom dia, Amélia. Amélia...? Que rosto é esse?!" Minha mãe perguntou espantada
"Não dormi. Não consegui." Respondi suavemente
Não tinha intenção de mentir, pelo menos não para minha mãe.
"Foi outra crise, meu bem?" Ela perguntou
"Não sei... Talvez..."
"Vou te fazer um cházinho de camomila na hora de dormir, você vai ver como funciona."
Mamãe era muito preocupada comigo. Ela sempre me dolava com tudo que podia. Doces, chás, presentes caros, livros... Meu quarto, na minha casa de verdade, não aqui na roça, era enorme e repleto de coisas caras que outras meninas sequer sonhavam em ter. Era tal que até a mamãe reconhecia isso as vezes.
"Filha, que cara é essa? Parece sem alma." Ela disse baixinho
"Sim, mamãe... Você finalmente percebeu que estou sem alma..." Pensei
Pensei em dizer aquilo por um segundo, mas... Era errado. E feio.
"Pareço?"
"Parece."
Eu me sentei e ela colocou leite com café para mim.
"Beba um pouquinho, princesa. Faz bem." Disse me entregando a caneca
A caneca estava pesada de mais para eu levantar, mas ainda assim... Consegui segurar com as duas mãos.
"Misericórdia! Você está fraca e mais pálida que o normal, Amélia!"
"Temos que avisar o doutor para vir pra cá imediatamente!"
"Mamãe, não. Menos, por favor. Está perdendo os modos por uma noite de sono mal dormida. Está tudo bem. Se eu sentir algum desconforto, nós mesmas vamos até o doutor daqui." Respondi um pouco mais firme do que gostaria
Mamãe abaixou a cabeça... Aquilo me partiu, mas era o que precisava ser dito.
"Amélia, eu só me preocupo com você, você é minha princesa."
YOU ARE READING
Maria de Andrade
RomanceAmélia não dormiu naquela noite. Pela manhã, algo dentro dela continuava acordado. Um som. Não vinha da casa, nem do mundo lá fora; vinha de dentro. E por mais que tentasse ignorar, ele a puxava. Para fora. Para o silêncio. Para um lugar onde a água...
