Eu tinha entre oito e dez anos quando tomei a decisão de morar com a minha mãe.
Naquela idade, não parecia uma decisão grande.
Parecia só vontade.
Eu queria estar com ela.
Queria sentir que fazia parte da vida dela.
Queria ter uma mãe presente do meu jeito, do jeito que eu imaginava que seria.
Ninguém me explicou que algumas escolhas, quando feitas cedo demais, não são realmente escolhas.
São desejos.
E desejos não vêm com aviso.
Na minha cabeça, era simples: morar com a minha mãe ia fazer tudo ficar melhor.
Ia aproximar, ia preencher um vazio que eu nem sabia explicar direito.
Eu não pensei no depois.
Eu não pensei no que poderia dar errado.
Eu só pensei no que eu sentia falta.
E eu fui.
No começo, parecia que tinha dado certo.
Mas a verdade é que eu não tinha maturidade pra entender o que estava acontecendo ao meu redor.
Tinha coisas que eu via... mas não entendia.
Tinha comportamentos que eu aceitava... porque não sabia que não eram normais.
Minha mãe sumia.
Às vezes por horas.
Às vezes por dias.
E depois voltava como se nada tivesse acontecido.
Como se fosse comum.
Como se não precisasse explicar.
Eu perguntava, mas não insistia.
Porque criança aprende rápido quando a resposta não vem.
Então eu aceitava.
Aceitava o silêncio.
Aceitava a ausência.
Aceitava o que eu não entendia.
Meu irmão, Gabriel, já enxergava diferente.
Ele é três anos mais velho que eu, e dava pra ver que ele percebia coisas que eu ainda não conseguia ver.
Mas ele também não falava muito.
E, mesmo sem entender, eu sentia que tinha algo errado.
Só não sabia o quê.
Mesmo assim, eu continuava acreditando que aquela tinha sido a decisão certa.
Porque, no fundo, eu só queria que fosse.
Eu precisava que fosse.
Mas hoje eu entendo uma coisa que naquela época eu não tinha como entender:
Eu não escolhi sabendo.
Eu escolhi sentindo.
E isso...
mudou tudo.
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Duas Mochilas
Non-FictionEssa não é uma história sobre escolha. É sobre o que acontece quando uma criança precisa viver com as consequências de algo que nunca teve maturidade pra decidir. Em Duas Mochilas, Lívia conta, sem filtros, como foi crescer em um ambiente marcado po...
