Não sei quando começou. Nem como. Muito menos quem começou.
Só sei de uma coisa: neste momento, a regra que mantém meu coração batendo é uma só - não confie em ninguém.
Meu nome é Amanda. Antes de tudo isso, eu era apenas uma menina comum que reclamava de acordar cedo para ir à escola. Então, o horizonte começou a queimar. O Cadu diz que foram guerras, bombas nucleares e armas bioquímicas. Eu era nova demais, tinha uns 12 anos, e para mim parecia apenas que o céu tinha decidido cair.
Depois veio a doença. Uma arma que os "adultos" criaram e perderam o controle. Ela era rápida, mortal e seletiva. Matava em seis dias, mas, por algum erro genético que nunca entendi, ela ignorava quem ainda não tinha chegado aos vinte e poucos. Meus pais se foram. Todos os que tinham mais de 26 anos viraram poeira. O mundo não apenas parou; ele apodreceu.
Foi o meu irmão quem me contou tudo isso, no começo. Foi uma loucura. Energia, internet, tudo aos poucos foi parando.
O mundo colapsou.
E eu fiquei.
Eu e meu irmão mais velho. Estamos vivos, numa terra sem esperança, sem lei, sem qualquer vestígio do que já foi normal.
Desde então, somos só nós dois tentando sobreviver. Sete anos se passaram. Hoje, aos 19, meu reflexo em qualquer caco de vidro é o de uma estranha. Tenho o rosto fino, marcado pelo sol constante, e olhos castanhos escuros que parecem grandes demais para o meu rosto cansado. Meu cabelo, que antes batia na cintura, agora está na altura dos ombros, cortado grosseiramente com a faca de caça do meu irmão. Ficou torto, mas cabelo longo é um luxo que não posso ter.
Já faz tanto tempo... minha memória falha. Isso é tudo que consigo lembrar.
Cadu - Carlos Eduardo, meu irmão e meu único exército - tinha 16 anos quando nosso mundo desabou. Hoje é aniversário dele. Ele vai fazer 24 anos. Ele é a montanha que me protege. O cabelo castanho escuro está comprido, a barba por fazer, alto e musculoso. O corpo dele é cheio de cicatrizes, cada uma contando uma história que eu nem sempre quero ouvir. Muitas delas foram para me proteger.
Eu o admiro. Muito. Quero ser forte como ele, um dia.
- Cadu! Olha o que eu tenho pra você! É seu presente de aniversário.
Eu tinha guardado aquilo há um tempo. Um pote de Nutella. Encontrei no dia em que fomos à mercearia. Estava caído, escondido... talvez por isso ninguém tenha pegado.
- Nana... o que é isso?
- É Nutella!
- E onde você achou?
- Já faz um tempo. Eu guardei pra hoje.
Ele ficou em silêncio por um momento.
- Fica pra você.
- Não. A gente divide.
É o único jeito dele aceitar. Ele sempre guarda tudo para si. Dessa vez, aceitou.
E, por um instante, pareceu que o mundo era normal de novo.
Sete anos depois do fim, encontrar algo assim é um luxo.
Estamos escondidos em uma casa pequena, nos fundos de um terreno abandonado. Pra entrar, precisamos passar por um corredor estreito, apertado - fácil de esconder, difícil de encontrar. O espaço é mínimo. Só o suficiente pra nós dois e algumas coisas que conseguimos guardar.
Sabemos desse lugar porque uma senhora morava aqui. Uma das primeiras a morrer por causa da doença. Ela era gentil comigo. Sempre foi. Hoje, só restam lembranças.
Comemos uma vez por dia. Tomamos banho uma vez por semana, num rio perto da cidade. No começo, a água era suja, poluída. Agora é limpa. Quase bonita. Mas é longe. Então usamos garrafas e potes pra trazer água e limpar o básico aqui.
Nos meus dias, uso absorventes feitos de tecido, laváveis. Tem sido apenas eu e meu irmão durante esses anos, queria que o mundo fosse normal, queria ter amigos. Acho que na infância eu até tinha alguns, mas já faz tanto tempo que nem me lembro dos nomes.
Nossos dias são bem monótonos, na sua grande maioria. Ou ficamos em casa, que é mais seguro, ou saímos para explorar e encontrar coisas. Gostaria de sair mais, ir um pouco mais longe às vezes, mas entendo que isso é pela nossa sobrevivência. Afinal, as poucas pessoas que sobreviveram não são confiáveis. Muitas das cicatrizes do Cadu foram causadas por ataques que sofremos nas nossas explorações.
Já faz quase uma semana desde o aniversário do Cadu. Felizmente, estamos indo ao rio hoje - o único lugar distante que visitamos. E eu amo estar naquele lugar.
- Cadu.
- Hum.
- Por que não podemos vir mais vezes aqui? É tão bom!
- Você gosta mesmo daqui, hein? Já ouvi você dizer isso.
Amo quando ele sorri. Odeio quando ele faz essa cara sarcástica.
- Ah, para de ser chato.
Ele solta uma risada. Que cara chato.
Terminamos. Uma pena não poder ficar mais tempo lá. Provavelmente o Cadu também gosta daquele lugar - ele sempre abaixa um pouco a guarda e se deixa sorrir. Sempre percorremos caminhos diferentes para chegar ao rio e para voltar para casa, assim não temos chance de sermos pegos. Hoje vamos pegar o caminho do galpão para voltar.
- Shh...
- O quê...?
Falei num tom mais baixo. Será que ele viu algo?
- Aaaahhh, meu cabelo!! Me larga!!
- Amanda!!!
- Cadu!!!
YOU ARE READING
ME PROTEJA
ActionJá faz 7 anos desde que o mundo acabou... Só restaram escombros e memórias... Amanda e seu irmão sobreviventes, contra um mundo destruído. Irmãos de sangue, órfãos... Sozinhos. E em um lugar onde confiar pode matar... até quem salva você pode ser o...
