O beco

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A rua estava tão escura que parecia ter sido pintada com tinta preta barata. O poste de luz mais próximo piscava como se estivesse prestes a morrer de tédio, e o único som era o zumbido distante de um ônibus que nunca chegava. Enid Sinclair esperava no ponto, balançando o corpo de leve ao som de uma música imaginária, o vestido amarelo florido rodopiando toda vez que ela girava. Chinelo rosa de plástico batia no chão molhado da chuva que tinha parado há pouco. Ela cheirava a baunilha e chiclete de morango. Uma porra de um arco-íris ambulante.
Wednesday Addams observava de dentro da sombra de um beco, encostada na parede úmida. Top preto colado no corpo, calça jeans preta justa, máscara preta cobrindo a metade inferior do rosto, tênis cinza sujos de terra. Os olhos escuros brilhavam como dois buracos que engoliam a luz. Ela apertava o cabo da faca dentro do bolso, sentindo o metal frio contra os dedos. Tudo estava perfeito. O plano era simples: sequestrar a loira irritantemente alegre, levá-la para algum lugar isolado, e passar a noite fazendo-a implorar por misericórdia. Só por diversão. Só porque podia.
Ela saiu da sombra devagar, passos silenciosos. Enid nem percebeu de primeira. Quando finalmente virou o rosto e viu a figura toda de preto se aproximando, só inclinou a cabeça, curiosa.
— Uau... você tá fantasiada de assaltante emo ou é só o look de terça-feira? — perguntou, sorrindo com aqueles dentes brancos demais.
Wednesday parou a um metro dela. Puxou a faca do bolso num movimento rápido e pressionou a lâmina contra o pescoço da loira, só o suficiente para intimidar. A voz saiu baixa, rouca por causa da máscara:
— Cale a boca. Você vem comigo. Agora.
Enid piscou. Depois... riu. Um risinho leve, quase encantado.
— Ai, que fofo. Você trouxe acessórios e tudo? — Ela olhou para a faca como se fosse um presente. — Posso tocar?
Wednesday franziu a testa por baixo da máscara. Isso não estava no roteiro.
Antes que pudesse responder, Enid ergueu a mão devagar e, em vez de recuar, passou a ponta do dedo na lâmina. Não cortou. Só roçou. Depois levou o dedo à boca e lambeu, olhando diretamente nos olhos da outra.
— Hum... gosto de metal. Tem um gostinho de "eu sou perigosa". Gosto disso em você.
Wednesday sentiu algo estranho subir pela espinha. Não era excitação. Era... desconforto. Ela era a psicopata aqui. Ela que deveria estar no controle. A loira deveria estar tremendo, chorando, implorando. Não... flertando?
— Você é surda ou só burra? — rosnou Wednesday, trocando a faca pela pistola que carregava na cintura. Encostou o cano frio na bochecha de Enid. — Eu disse pra calar a boca e vir comigo.
Enid não se mexeu. Só virou o rosto de leve, encostando os lábios na ponta do cano. Lambeu. Devagar. Olhos azuis brilhando com algo que definitivamente não era medo.
— Você tem um gosto melhor que a faca — murmurou, sorrindo por cima do metal. — E eu adoro quando alguém tenta me assustar. Fica sexy pra caralho.
Wednesday puxou a arma de volta como se tivesse levado um choque. O coração dela — aquele órgão inútil que ela jurava não sentir nada — deu uma batida errada. Ela odiava isso. Odiava pra porra.
— Qual é o seu problema? — sibilou, a voz saindo mais baixa do que pretendia. — Eu te sequestrei. Eu sou perigosa. Eu mato gente por diversão.
Enid deu de ombros, o vestido amarelo balançando com o movimento.
— E eu acho isso incrivelmente atraente. Tipo... você é tipo um vilão de filme, mas com cheiro de chuva e madeira queimada. — Ela deu um passo mais perto, invadindo o espaço pessoal de Wednesday sem o menor pudor. — Meu nome é Enid, aliás. E você? Posso te chamar de "minha futura esposa sombria"?
Wednesday ficou parada, pistola ainda na mão, faca na outra. Pela primeira vez na vida, não sabia o que fazer. A loira não estava desconfortável. Estava... leve. Sorridente. Flertando como se estivesse num encontro ruim que tinha virado bom.
O ônibus passou ao longe, luzes amarelas cortando a escuridão, mas nenhuma das duas olhou para ele.
Enid inclinou a cabeça, o cabelo colorido caindo no ombro.
— Então... pra onde você vai me levar, serial killer gostosa? Porque eu tô super dentro. Só não me mata antes do segundo encontro, tá? Quero ver se você beija tão bem quanto ameaça.
Wednesday engoliu em seco por baixo da máscara. O desconforto virando algo quente, irritante, que ela não queria nomear.
— Você é completamente insana — murmurou.
Enid sorriu ainda mais largo.
— Olha quem fala, amor.
E foi aí que Wednesday Addams, a rainha do sadismo, percebeu que talvez, só talvez, tivesse sequestrado a pessoa errada.
Ou a pessoa exatamente certa.

Flertando com a morteWhere stories live. Discover now