A noite em Forks era densa, como sempre - céu carregado, chuva fina, o som constante das folhas molhadas sendo agitadas pelo vento. Mas havia algo diferente no ar. Algo elétrico.
Kate Denali sentiu antes mesmo de ver.
Ela caminhava entre as árvores com leveza sobrenatural, os olhos dourados atentos, o corpo tenso. Não era ameaça... era outra coisa. Uma presença que despertava curiosidade - e, de forma estranha, expectativa.
Então ela a viu.
Lizzie Swan.
Encostada em uma caminhonete antiga, sob a luz fraca de um poste, como se aquele cenário cinza tivesse sido feito só pra destacar sua existência. O cabelo negro, longo e perfeitamente liso, caía como uma cortina brilhante. Os olhos verdes observavam a noite com uma calma que não combinava com humanos comuns.
E aquela roupa - jaqueta de couro ajustada, botas de cano alto - dava a ela um ar de confiança quase desafiador.
Kate se aproximou sem fazer som.
- Você não deveria estar aqui sozinha - disse ela, surgindo das sombras.
Lizzie virou o rosto lentamente, sem susto.
- Engraçado... eu tava pensando a mesma coisa de você.
Kate arqueou uma sobrancelha, intrigada.
Normalmente, humanos tremiam. Recuavam. Seus corações disparavam. Mas o de Lizzie... estava firme. Ritmado. Quase... controlado demais.
- Você não parece com medo - Kate comentou.
Lizzie deu um meio sorriso.
- Eu aprendi que medo nem sempre ajuda.
Havia algo nela. Algo que Kate não conseguia explicar - e isso era raro.
Ela se aproximou mais um passo, analisando.
- Swan... você é irmã da Isabella, certo?
- Irmã mais velha - Lizzie respondeu. - E você é...?
- Kate.
Silêncio.
O tipo de silêncio que não era vazio - era carregado.
Kate tentou sentir mais. Interpretar. Mas havia um bloqueio. Uma ausência estranha. Como se a mente de Lizzie fosse... intocável.
- Interessante - Kate murmurou.
- O quê?
- Você.
Lizzie cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça.
- Isso costuma ser uma cantada... ou um aviso?
Kate sorriu, um sorriso lento, perigoso.
- Ainda estou decidindo.
Um trovão ecoou ao longe.
Por um segundo, o olhar de Lizzie brilhou - não de medo, mas de algo mais profundo. Curiosidade. Fascínio.
- Então decide logo - ela disse. - Eu não gosto de coisas pela metade.
Kate se aproximou ainda mais. Agora estavam a poucos centímetros.
- Você não tem ideia do que está pedindo.
- Talvez eu tenha.
E então, num impulso - algo que Kate raramente permitia - ela estendeu a mão e tocou o pulso de Lizzie.
A eletricidade percorreu o contato.
Mas não foi unilateral.
Lizzie não recuou.
Pelo contrário... ela segurou a mão de Kate.
E naquele instante, algo mudou.
Kate sentiu - não dor, não medo - mas uma conexão estranha, profunda, como se Lizzie não pudesse ser invadida... mas pudesse escolher deixar alguém entrar.
E ela estava escolhendo.
Os olhos verdes encontraram os dourados.
- Ainda acha que eu devia ter medo? - Lizzie sussurrou.
Kate respirou fundo, mesmo sem precisar.
- Não.
Uma pausa.
- Acho que sou eu quem deveria.
Lizzie sorriu de novo - dessa vez mais suave, mais íntimo.
- Tarde demais pra isso.
A chuva começou a cair mais forte, envolvendo as duas, mas nenhuma se moveu.
Porque naquele momento... nenhuma queria ir embora.
E pela primeira vez em muito tempo, Kate Denali encontrou algo que nem sua natureza conseguia prever.
Alguém que ela não podia ler.
Mas, talvez... alguém que ela finalmente queria entender.
