Elena construiu uma vida baseada em silêncio, rotina e distância, longe de tudo aquilo que um dia tentou quebrá-la.
Trabalhando em uma biblioteca e evitando qualquer atenção desnecessária, ela acredita que finalmente encontrou paz. Até que o passad...
“Algumas tempestades não começam no céu… começam dentro da gente.”
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A cidade era pequena. Pequena o suficiente para que as pessoas soubessem o nome umas das outras, mas nunca o que realmente acontecia por trás das portas fechadas.
Ali, tudo parecia calmo, bonito, seguro.
Mas eu sei que é mais do que isso, sabia que o perigo nem sempre gritava ele as vezes… falava baixo, tinha uma boa família que o defendia e vizinhos que fingiam não escutar gritos.
O céu já estava pesado quando chegou meu horário de sair da biblioteca. Cinza escuro, carregado, como se segurasse uma tempestade há horas. O vento frio bagunçava as folhas das árvores e fazia as portas dos estabelecimentos baterem de leve. Mas isso nunca foi um problema, eu amo chuva!
Aperto a bolsa contra meu corpo, descendo os poucos degraus com cuidado, já perdi as contas de quantas vezes acabei tropeçando neles.
Rotina, respirar, ir pra casa.
Simples.
Até tudo desmoronar, aquele que nunca tinha escutado um não.
— Você acha mesmo que pode fingir que eu não existo? — Meu corpo parou antes mesmo de decidir parar. Aquela voz firme, que em algum tempo já achou bonita agora só a fazia ter lembranças ruins. Lentamente me virei e o encarei.
Ele estava ali.
Molhado de leve pelas primeiras gotas que começavam a cair, o olhar fixo com aquela intensidade que agora percebo que nunca foi carinho.
Só controle.
Meu estômago afundou e começo a sentir minhas mãos tremendo e suando frio fazendo eu apertar mais a bolsa.
— Eu não tô fingindo — disse, a voz baixa, controlada. — Eu só não quero mais contato.
Ele deu um sorriso torto, frio.
— Você sempre gostou de bancar a difícil.
— Não faz isso, por favor. Você tem que me deixar em paz! — ele fica vermelho de raiva como todas as outras vezes que um grão de areia saía do controle dele.
— Isso o quê? Hum? — ele avançou um passo. — Falar a verdade? Me responde, Elena!
As gotas começaram a cair mais rápido agora.
Uma batendo no braço.
Outra no rosto.
— Eu já falei tudo que tinha pra falar — respondi, tentando manter a calma, mesmo com o coração começando a acelerar a cada passo que ele dava na minha direção — Não tem mais nada pra gente. Nada.
— Pra gente não. Pra você, né? — ele cortou, a voz ficando mais dura. — Porque você decidiu.
— Sim. Eu decidi e não vou voltar atrás mesmo com você me perseguindo pra todo lado. — depois de respirar fundo consegui juntar coragem para responder sem gaguejar, ele tinha que entender.