Capítulo 1 - Agora de Antes

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Olhava os montes que passavam rapidamente pela sua íris, sem tempo de focar com precisão nos seus detalhes, de modo a lhes apreciar a beleza. Estava num comboio, sem rumo certo. Não é o meio de transporte que mais aprecia, aquilo deixa-a um pouco enjoada, mas era o melhor transporte que podia utilizar depois da escolha que fizera. Sempre soube que um dia iria tomar aquela decisão, mas adiava-a pela incapacidade que tinha de lidar com o sofrimento que lhe provocaria. Sabia que seria julgada por todos. Não que lhe importasse muito todos os outros, apenas se importava com um julgamento, o pior deles todos, o seu próprio julgamento. A culpa interna de estar a desistir cedo de mais, de não ter tentado tudo o que havia para tentar, de não ter sido nem estar a ser compreensiva o suficiente, a de ser insensível, a de ser igual a ELA.

O som do comboio enviava-a uma realidade paralela. Perdia-se naquele ruído como se estivesse montada num cavalo a trotear para longe do local de partida. Escolheu sair da sua zona de conforto e andar de comboio, era igualmente desconfortável quando fora da ilusão dos cavalos. Era portanto perfeito para a ocasião.

Desceu na penúltima paragem. Dali para a frente seria um jogo aleatório. Não tinha nada planeado, nem por escrito, nem mentalmente, como era habitual devido à sua mente ansiosa. Seria tudo ao acaso, só esperava que lhe trouxesse alguma coisa do que tanto almejava: paz e felicidade.

2 anos depois:

Sentada na sua varanda em pleno mês de Agosto assiste às folhas das árvores a abanarem-se como se a cumprimentá-la naquela tarde calorosa de domingo.

O silêncio ao seu redor invade-lhe o peito e esvazia-lhe a mente por breves segundos. A paz. Seria aquilo a paz? Almejou-a mas será que a encontrou?

Os seus pensamentos são interrompidos por um som estridente ao fundo. Estão a ligar-lhe. Chamadas são algo que não aprecia...mas depende de quem for.

-Flor de espinhos? Como estás?-contém o riso

-Estou bem cabelos brancos! E tu?- aqueles nomes. Ninguém se incomodava com eles-Ligaste-me para saber se estou bem?

-Estou óitma! Não. Quando me vens visitar?

-Quando queres que te visite?

-Amanhã estás disponível? Podemos lanchar juntas na pastelaria do costume!

-Andas a espiar-me?

-Talvez!

-Estás cheia de sorte, estou de folga amanhã. Encontramo-nos às 17h.

Carlota. Foi ela a única que soube o que ela faria. Que deixaria tudo para trás e começaria uma nova vida. Sempre a apoiava na mesma medida que a alertava para os erros. Conheceram-se na escola, num tempo em que a vida parece mais fácil, onde os copos unem metade da gente e os sonhos e objetivos separam a outra metade. Mas Carlota não era de copos, era mais de livros, de família, de trabalho, de namorado, de responsabilidades. Uma ótima influência que não se deve, nem se quer afastar das nossas vidas.

Às 14h do dia seguinte preparava-se para o seu lanche com Carlota com "Seasons" de Greyson Chance a preencher o fundo. Uma preparação que não demoraria muito. É uma mulher simples. Não aprecia a beleza exterior tanto como a inteligência, pelo que aperaltar-se a aborrece. Banho, creme, 4 gostas de perfume, uns brincos, mais alguns acessórios, uma roupa e sapatos apresentáveis, sem grandes luxos e marcas que todos compram, como manda o capitalismo e, termina. Pegou na pequena mala e nas chaves do carro e olhou-se uma última vez ao espelho do aparador perto da porta de casa. Estava bem, podia fazer-se à estrada.

Os encontro com Carlota eram sempre bons, gostava imenso dela sem nenhum porquê além de que apreciava a sua companhia e o seu carácter. Para si, amizade, gostar de alguém, era aquilo. Não era favores, não era pelas saídas de copos e churrascos repetidos, era pelo ser, a alma do outro e o que a sua presença nos faz sentir. A partir disso, todos os momentos seriam um bom tempo de qualidade.

Puseram a conversa em dia, falaram de trivialidades normais, do trabalho, da vida e do mundo.

-Sabes, queria te ver mas não era só isso-uma pausa longa fez lhe estreitecer o olhar em direção a Carlota. Algo estava mal, o assunto tinha mudado repentinamente.

-Aconteceu alguma coisa?

-Sim. Contigo.

-Não estou a entender.

-Já passaram 2 anos. Sinto que continuas perdida.

-Não. Não. Não, vamos falar disso-inquietou-se.

-Tens de falar, sabes que tens!- suspirou e acalmou-se-Ultimamente não falas e eu conheço-te Mariane.

-Talvez algo tenha acontecido.

-E preferiste guardar para ti como sempre!

-Contei à psicóloga se te deixa mais descansada.

-Sim e não. Gostava que desabafasses comigo porque te conheço e vi como passaste por aquelas situações, mas se falas nas consultas pelo menos não te afogas nos pensamentos.

Mariane olhou para o vazio refletindo se devia ou não falar. Sempre foi de falar pouco do que a atormenta mesmo com Carlota e outras amizades mais próximas. Necessita de se mentalizar primeiro e lidar sozinha com o que a assombra para depois o partilhar quando já está massacrada de tanto pensar no assunto. Pensa que vai incomodar, que vai contar as suas fraquezas para alguém as jogar contra ela mais tarde como já acontecera. Confia pouco. Traumas. Enfim, é uma habilidade que se desenvolveu mal, aquela de falar do que sente e do que a emociona.

-O Doutor Fredrico faleceu. Fui ao funeral- Carlota petrificou.

-Porquê? Para quê? Querias te afastar!

-Sim, mas não era dali em concreto e sabes bem. Embora fosse necessário no percurso e talvez melhor. Estou melhor agora sem dúvida. Não quero falar mais disto.

-Como queiras, não te vou obrigar. Mas se estás melhor...não te piores.

O resto do encontro decorreu como no início dele, calmo sem retornar àquele assunto que devia guardar a 7 palmos. Embora tivesse sido Mariane que naquele funeral tivesse desenterrado uma parte daquele passado, teria de o fechar de novo e colocar um calhau por cima. Tinha sido um erro. Mas só ela e Carlota sabiam, então seria fácil de encerrar.

Despediram-se com abraços e o despentear do cabelo habitual. Era irritante mas Carlota podia fazê-lo, Mariane permitia. Dali a um mês, mais coisa menos coisa, voltariam a encontrar-se. Já era assim há mais de 10 anos mesmo com o recomeço, há coisas que são atemporais.

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⏰ Última actualización: Mar 18 ⏰

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