O ar da noite em São Paulo estava denso, quente, cheio de uma expectativa que parecia vibrar no asfalto. Ao meu lado, no banco do passageiro, Pam ajustava o decote de seu vestido vermelho, um tecido que aderia a cada curva do corpo que eu conhecia tão bem. Seus cabelos pretos sobre os ombros, brilhavam sob as luzes da avenida Moema. Uma brisa entrava pela janela, fazendo uma mecha de cabelo dançar perto de sua boca, aquela boca carnuda que eu poderia descrever com os olhos fechados.
"Nervosa?", perguntei, meu barulho suave no silêncio confortável do carro. Ela virou o rosto, um sorriso brincando em seus lábios, um sorriso que era promessa e desafio.
"Com você? Nunca." A mão dela encontrou a minha sobre a alavanca de câmbio. Seus dedos, quentes e firmes, entrelaçaram-se nos meus.
"Animada. Curiosa." Seus olhos, escuros e profundos, tinham o brilho da aventura, do proibido que se tornava permitido. "Você tem certeza que quer isso? Nós... estamos bem assim."
"Nós estamos ótimos", respondi, apertando sua mão. "Mas ótimo não significa que não possa ter... um algo mais... expansivo. Uma nova fantasia." A ideia tinha surgido semanas antes, em uma daquelas noites de vinho e segredos sussurrados. Agora, a fantasia ganhava asfalto sob nossos pneus. "Só se divertir, amor. Sem pressão, sem regras. Apenas... observação. E quem sabe, né?"
"Quem sabe...", ela ecoou, o olhar perdido pela janela, pelas vitrines iluminadas e os casais que caminhavam na calçada. "E se... e se eu gostar mais do que eu deveria?"
A pergunta pairou no ar, densa e cheia de significados. "Então eu vou gostar de ver você gostando", disse eu, e a honestidade na minha voz me surpreendeu. A ideia dela com outro homem, ou com outra mulher, poderia ter gerado ciúmes em outra versão de mim. Mas nesta versão, nesta noite, a ideia apenas gerava um calor no meu peito, uma antecipação que se misturava com o desejo que eu já sentia por ela.
A rua que procurávamos era silenciosa, residencial, um contraste gritante com a avenida movimentada a poucos metros. O carro parou em frente a um portão de ferro, discreto, sem nenhuma placa, sem nenhuma indicação do que se escondia atrás dos muros altos. Apenas uma pequena luz vermelha acima de uma campainha. Um homem de terno preto e cara séria se aproximou da janela do meu lado.
"Convidados?", ele perguntou, a voz baixa e sem emoção. Mostrei a confirmação no meu celular. Ele fez um gesto com a cabeça, o portão rangeu ao se abrir.
"Boa noite", disse ele, e foi tudo.
O carro desceu por uma rampa, entrando em um subsolo bem iluminado. Havia vagas de estacionamento marcadas, várias vazias. Desliguei o motor. O silêncio era súbito, quase sólido. Olhei para Pamela. Seu peito subia e descia em um ritmo mais acelerado. Ela olhou para mim, e o brilho em seus olhos agora era de pura adrenalina.
"Então é isso", ela sussurrou, mais para si mesma do que para mim.
"É isso", concordei. "Ainda dá tempo de irmos embora. Pegamos uma cerveja e voltamos para casa."
Pamela riu, um som baixo e vibrante. E abriu a porta do carro. "Você sabe muito bem que não vamos embora. Não agora."
A porta do elevador se abriu diretamente para um hall de entrada. O ar lá dentro era diferente. Mais quente, mais denso, perfumado por um aroma indefinível que misturava incenso, velas, e algo mais... algo como o cheiro da pele e do desejo. A iluminação era baixa, fornecida por dezenas de velas posicionadas em nichos nas paredes e em suportes no chão. A música ambiente era uma pulsação suave, um ritmo eletrônico que não convidava à dança, mas ao movimento, ao balanço lento.
Uma recepcionista, elegantemente vestida com um belo, decotado e curto vestido preto, nos recebeu com um sorriso profissional. "Boa noite. Bem-vindos." Ela pediu nossos documentos, guardou junto com nossos celulares em um armário com chaves, fez um rápido cadastro no tablet que trazia, nos entregou dois copos de vinho tinto, e nos explicou o básico. "Os cômodos são todos abertos, sinta-se à vontade para circular. O único cômodo com regras é o 'Sala do Silêncio'. Lá, as regras estão na porta. Tudo é por consenso. Um 'não' é um 'não', sem explicações. Apenas aproveitem a noite."
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UMA NOITE MUDA TUDO
RomanceUm casal decide transformar uma antiga fantasia em realidade. O que começa como curiosidade, vira uma noite intensa de descobertas, confiança e desejos que jamais imaginaram explorar juntos...
