*APENAS DEGUSTAÇÃO*
Beatriz
As lembranças que tenho daquela noite ainda são vívidas na minha memória. Era uma noite comum de inverno; uma chuva fina caía lá fora e fazia um friozinho gostoso. Eu estava sozinha, assistindo a um dorama como de costume, quando a programação foi interrompida por uma ligação de um número conhecido.
— Oi, Gabriel! — atendi, reconhecendo de imediato a ligação do meu melhor amigo.
— Biiiiiaaaaa! — a voz arrastada do outro lado da linha ecoou, e eu revirei os olhos.
— Tá bêbado de novo, Gabriel? Não acredito! — meu tom era de pura reprovação.
— Ela... me... abandonou... — ele falou devagar, alongando as sílabas como se estivesse tentando se lembrar de como pronunciá-las.
— Bia, você pode vir buscar o seu amigo? — a voz de Joe, o dono do bar, se sobrepôs à de Gabriel, que resmungava algo incompreensível. — Tentei entrar em contato com a irmã dele, mas ela não atendeu.
— Está tarde... Gisele deve estar dormindo — suspirei. Só eu mesma para salvar Gabriel dele mesmo. — Estou indo.
Apesar de a mãe de Gabriel não me suportar, desde crianças sempre nos demos muito bem. Não consigo me lembrar quando decidimos que seríamos melhores amigos; só sei que sempre foi assim. Ultimamente, porém, a tristeza dele estava difícil de suportar. Sua namorada, a mulher que ele dizia amar, havia terminado com ele, e Gabriel estava devastado.
Não que Lucinda fosse a melhor pessoa do mundo, mas, se meu melhor amigo dizia amá-la, o mínimo que eu podia fazer era respeitar. Sempre metida, ela vivia implicando comigo. Nunca acreditou que entre mim e Gabriel existisse apenas amizade. Apesar de ter certeza de que eu o amava, achava que ele jamais me olharia da mesma forma. E, para mim, a amizade dele sempre foi suficiente.
Coloquei um casaco e saí.
Quando cheguei ao bar, e não difícil encontra-lo. Gabriel encarava fixamente um copo vazio. Ele levantou a cabeça devagar e, ao me ver, sorriu de forma triste.
— Vem, amigo, eu te levo para casa.
Ele murmurou algo que não consegui entender, mas se deixou guiar. O caminho até seu apartamento foi silencioso, exceto pelo som de nossos passos ecoando pela calçada vazia.
Ao chegarmos, deitei-o no sofá e tirei seus sapatos. Gabriel me encarou com os olhos cheios de tristeza.
— Por que ela me deixou, Bia?
Eu não tinha resposta para aquela pergunta. Para ser sincera, sempre achei que Gabriel merecia alguém muito melhor que Lucinda. Sentei-me ao seu lado e apenas segurei sua mão, apertando-a de leve, tentando oferecer algum conforto.
Foi então que algo inesperado aconteceu.
Gabriel se levantou de repente e me puxou para si. Nossos olhares se encontraram, e sua respiração pesada e entrecortada estava perto demais. Os olhos que sempre foram vivos agora estavam turvos, uma mistura de dor, confusão e desejo. Ele me encarava, e, por um breve instante, não éramos mais apenas melhores amigos. Havia algo ali... algo que sempre existiu, mas que nunca tivemos coragem de admitir.
Sem dizer uma palavra, ele me puxou para mais perto. Nossos rostos ficaram tão próximos que eu podia sentir o calor de sua pele e o cheiro do álcool em seu hálito. Então, aconteceu.
Seus lábios tocaram os meus de forma suave e hesitante, como se buscassem uma resposta que ele não sabia formular. No início, foi um beijo tímido, incerto, mas logo se tornou mais intenso.
Havia urgência e ternura naquele gesto, como se ele estivesse tentando se agarrar a algo que não queria perder. Eu sentia sua dor, sua necessidade de consolo, e, de alguma forma, naquele instante, quis ser o abrigo da tempestade que existia dentro dele. Nossos lábios se moviam em sincronia, carregando anos de amizade... e o início de algo que mudaria nossas vidas para sempre.
Era um beijo cheio de sentimentos não ditos, de promessas que talvez nunca fossem cumpridas. Um beijo que, ao mesmo tempo em que me deixava sem fôlego, também trazia um peso estranho, como se soubéssemos que estávamos cruzando uma linha sem volta.
Aquela noite se transformou em algo que eu jamais imaginei: uma noite de amor, uma conexão que transcendeu anos de amizade.
Quando amanheceu, nossos corpos ainda estavam enrolados um no outro. Eu mal conseguia acreditar no que tinha acontecido. Por um instante, observei meu amigo dormindo e confesso que não sabia o que seria de nós dali em diante. Com esses pensamentos martelando na cabeça, saí da cama devagar, tentando não acordá-lo.
Queria preparar algo para ele. Não sabia o que aconteceria a partir daquele momento, nem queria criar expectativas, mas achei que seria melhor ele acordar e me encontrar na cozinha, e não na cama. Provavelmente seria menos desconfortável para nós dois.
Fui à padaria mais próxima para comprar algumas coisas para o café da manhã. Queria que ele acordasse e encontrasse uma mesa cheia de carinho e cuidado. Mas o encontrei no caminho, enquanto voltava.
— Onde está indo com tanta coisa gostosa? — perguntou, xeretando as sacolas.
Senti meu rosto queimar. Gabriel agia com tanta naturalidade que meu coração apertou. Ou estava fingindo... ou simplesmente não se lembrava do que havia acontecido.
— Estava levando para você — respondi. — Não está com dor de cabeça?
— Um pouco..., mas não me lembro de nada do que aconteceu. Lembro que estava no bar, mas acordei na minha cama... — comentou, confuso.
— Só disso que se lembra? — sondei, tentando esconder o tremor na voz.
— Lembro de você me carregando... Bia! Te dei trabalho outra vez? Me perdoa. Prometo que não vou beber assim de novo.
— Tudo bem, Gabriel. Sou sua melhor amiga, esqueceu? Amigos servem para ajudar uns aos outros.
— Mesmo assim, me perdoa. E preciso ir, estou atrasado para uma reunião. Ano de eleição. Conto com seu voto. — Apontou para mim, sorrindo, antes de sair apressado.
— Você sabe que meu voto é seu! — respondi, observando-o se afastar.
Voltei para casa com o coração cheio de incertezas. O que aquela noite significava para nós? Como ficaria nossa amizade a partir dali? Enquanto preparava o café, só conseguia pensar no sorriso cansado de Gabriel e no fato de que, talvez, tudo o que vivemos tivesse se perdido na névoa do álcool e da dor.
Dois meses depois, para meu desespero, descobri que estava grávida.
Grávida do meu melhor amigo, que sequer se lembrava de que tínhamos passado uma noite juntos.
ČTEŠ
Um Contrato com meu melhor amigo
Romance*APENAS DEGUSTAÇÃO* Ela sempre foi apaixonada por ele! - Eu preciso de uma esposa... e não vejo ninguém melhor para esse papel do que você. Você é a pessoa perfeita. Minha pessoa preferida no mundo inteiro. É minha melhor amiga. Friends to lovers Fa...
