Antes da Chuva

2 1 0
                                        

Paris, 2017
A luz azulada do aparelho preenchia a sala em tons pálidos. Na tela, o apresentador encerrava mais um bloco com o entusiasmo mecânico de sempre:

– Televisão: "E vamos para mais um episódio sobre natureza selvagem! Nos vemos em 30 minutos. Até logo!"

Lewis, afundado no sofá, sentiu o silêncio da sala pesar assim que a trilha sonora diminuiu. Quase por instinto, sua mão tateou o estofado em busca do celular.
[14:24]
– SMS – Grupo: Os cientistas 🧠
– Oliver: Eai pessoal!!!! Vamos ao clube de ciências hoje? Depois podemos comer uma pizza, o Lewis paga dessa vez 😅.
– Clarice: Usando celular em sala de aula, Oliver? Mas o que importa, eu vooouu hahaha!
– Marina: Vamos. E eu não vou pagar nada, nem pensem em me pedir.
– Você: Foi mal pessoal, vou ter que fazer um negócio depois da aula.
– Oliver: Poxa Lewis, você nunca consegue 😓.

— Eu devia ter ido... Bem, mas acho que prefiro continuar vendo TV.

Na verdade, não havia "negócio" nenhum. No inventário de sua mente, a montanha de episódios acumulados parecia um compromisso inadiável, uma barreira invisível que o mantinha ancorado ali. O tempo em Paris flui de um jeito estranho quando não se olha para a janela.

– Televisão: "Muito bem, telespectadores! Em breve teremos a Dança dos Agentes. Vejo vocês em 30 minutos. Até logo!"

Lewis piscou, despertando de um transe hipnótico. Olhou o visor do celular novamente: 18:47. O sol já havia se despedido. Ao redor, o cenário era de um naufrágio doméstico: luzes apagadas, janelas escancaradas para o frescor da noite e uma pequena mesa de apoio atravancada por pratos e copos sujos.

— Bom, depois eu leio as mensagens. Preciso de água antes... acho que não bebo nada há cinco horas.

Seus pés arrastaram-se até a cozinha. Na porta da geladeira, um post-it brilhava sob a luz interna:

"Filho querido, saí para jantar com minhas amigas. Não esqueça de comer e beber água. Com amor, Mamãe."

Lewis esboçou um leve sorriso. Ele raramente a ouvia, ou talvez a memória simplesmente falhasse no caminho entre o ouvido e a ação.

— Ok, mãe. Tente falar algo que eu não saiba da próxima vez — ironizou suavemente, pegando uma garrafa gelada. — Pelo menos tem água aqui. E esse iogurte deve salvar minha noite.

De volta ao sofá, o ritual se repetiu. O polegar deslizou pela tela, lendo o que havia perdido enquanto mergulhava no abismo da programação de TV.
– SMS – Grupo: Os Cientistas 🧠
– Clarice: Obrigada pessoal, hoje foi muuuito divertidooo!
– Oliver: Foi bem legal, mas parece que a gente tá virando um trio, sei lá 😓.
– Marina: O preguiçoso do Lewis nunca sai com a gente. Desconfio que ele tem outros amigos.
– Oliver: Mas o que vocês acharam do professor César? Ele disse que ia ajudar a gente no nosso projeto de fazer um robô 🤖.
– Marina: Velho chato.
– Clarice: Ele é bom demais! Acho que ele vai ser a peça-chave do nosso projeto! Não fala assim, Marina.
– Você: Legal.
– Marina: Seu idiota, você nunca sai com a gente.
– Você: Foi mal pessoal, vou tentar na próxima.
– Clarice: Poxa.
– Oliver: Tudo bem, Lewis 👍.

Uma nova notificação surgiu no topo da tela, vinda de outro remetente:
– SMS – Grupo: Oitavo Ano B
"Prezados alunos, amanhã teremos apenas meio período de aulas. Atenciosamente, Direção da Escola Brulee."

— Finalmente vou ter mais tempo para ver TV — pensou ele, tentando se convencer de que aquilo era uma vitória.

Mas, no fundo, uma pontada de dúvida o cutucava: Será que eu devia ter ido?
Lewis levantou-se para cumprir as obrigações mínimas. Lavou a louça com movimentos automáticos, tomou um banho morno e vestiu um pijama limpo. Ao cruzar o corredor para retornar ao seu posto no sofá, seus olhos evitaram a estante de madeira no canto.
A "Estante dos Livros Mágicos", como ele a batizara aos seis anos.

— Eu não leio um livro há uns cinco anos... — confessou para o vazio. — Nem sinto falta.

Era mentira. Ele sentia vontade de ler todos os dias, mas era como se houvesse uma algema em seu pulso, uma corrente larga, frouxa o suficiente para ele escapar se tentasse, mas ele não fazia o menor esforço. Não machucava, então ele apenas aceitava o peso.

Miau!
Um vulto peludo passou por entre suas pernas, quase o fazendo tropeçar.

— Ah, oi Café. Eu já coloquei sua ração... — Lewis parou, vendo a tigela vazia. — Tsc. Não briga comigo, eu esqueci.

Ele serviu o gato e correu para o sofá. O brilho da TV era seu porto seguro.

– Televisão: "Vem aaaaí: Papo Quântico! Nos vemos em breve. Até logo!"
Lewis acomodou o travesseiro. Os olhos começaram a pesar enquanto as vozes da TV discutiam universos paralelos e átomos. Quando o susto finalmente o despertou, a sala estava imersa em um silêncio absoluto, exceto pelo chiado baixo de um canal sem sinal.
Ele olhou para o relógio na parede. 05:00 da manhã.

You've reached the end of published parts.

⏰ Last updated: Feb 28 ⏰

Add this story to your Library to get notified about new parts!

Quando Chove em Paris Stories to obsess over. Discover now