Cacos e Medo

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– Você é uma inútil! – meu pai está gritando, ele nunca para de gritar. – Eu deveria ter largado você a anos atrás – Berra de novo para minha mãe.

– Me desculpe, Auguste... eu não quis – se desculpa ela.

Minha mãe se abaixa para juntar os cacos, do copo, que meu pai arremessou do outro lado da cozinha.

Corro para ajudá-la. Ela me olha com um pedido de desculpa nos olhos, assim como em todas as outras vezes.

– Eu quero a droga do meu café.

Minha mãe se levanta rapidamente para servir meu pai e me deixa sozinha juntando os cacos.

Lágrimas se acumulam em meus olhos, mas recuso a soltá-las.

Acordei com os gritos do meu pai, permaneci no quarto até ele se acalmar, mas então ouvi o barulho do copo sendo arremessado e se partindo.

O medo me atingiu imaginando que ele poderia ter arremessado em minha mãe.

Mas não foi nela que ele jogou, mas no chão.

Minha mãe, Teresa, sempre tentou agradá-lo, mas nunca foi o suficiente.

Ou a comida estava quente demais, ou fria demais, ou muita comida ou pouca comida, demorou muito, foi rápido demais.

Nada era o suficiente para ele.

E era assim todos os dias.

Jogo o último caco na lata vazia e a jogo no lixo.

Vejo minha mãe já sentada na mesa com meu pai, puxo uma cadeira e me sento também. O silêncio se prolonga na mesa. Meu pai não diz nada e minha mãe está com de cabeça baixa, submissa aos comandos do marido.

Espero mais um pouco, espero um comentário, um resmungo, um olhar de desgosto, mas nada vem.

Ergo a minha mão em direção a uma fatia de pão, tudo o que me permito comer naquela manhã.

– Até quando terei que sustentar você? – questiona ele sem sequer levantar o olhar para mim.

Tenho vontade de responder, de dizer que ele não me sustenta, eu pago as minhas contas, trabalho para isso. Mas não digo, não tenho coragem.

O medo me controla. O medo dele.

Respiro fundo uma última vez, sem me permitir soltar qualquer som.

Devolvo o pão de volta para o cesto.

– Tenho que trabalhar – digo levantando da cadeira.

É uma mentira, hoje é sábado, não trabalho aos sábados, mas preciso sair, não posso mais ficar nessa casa.

Olho para meu pai e seus olhos encontram os meus, olhos escuros demais.

Auguste tem traços duros, quase rígidos. O meu carrega as linhas suaves de Teresa, meus olhos claros eram os dela. E talvez por esse motivo ele nunca olhava para mim por muito tempo.

Nesse pouco tempo que nossos olhos se cruzaram um medo cruzou meus ossos.

Ele sabe que é uma mentira.

Seguro a respiração, esperando que ele grite...

Mas nada acontece.

Ele apenas volta a olhar para o copo de café em suas mãos. Ele não se importa.

E isso me deixa ainda mais apavorada.

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