Capitulo1-Tela Rachada

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O sino da porta tocou.

Seungmin nem precisou olhar para saber que era mais um cliente.
A loja de celulares sempre ficava cheia no fim da tarde, e ele já tinha decorado cada som, cada rotina, cada pedido repetido.

— Já vou te atender! — disse, animado, enquanto terminava de alinhar algumas capinhas na prateleira.

Ele gostava daquele trabalho.
Mesmo sendo só um jovem aprendiz, se sentia útil. Gostava de explicar as funções dos aparelhos, ajudar idosos a mexer no WhatsApp, indicar carregadores...

Era simples.
Era confortável.

Quando se virou, viu o cliente parado perto do balcão.

Um garoto alto.
Cabelo escuro.
Roupas simples, mas bem escolhidas.
Expressão neutra, quase fria.

Ele segurava um celular.

— A tela quebrou — disse, colocando o aparelho sobre o balcão.

Seungmin pegou o telefone com cuidado.

— Nossa... caiu de muito alto?

— Talvez.
— Talvez? — Seungmin riu. — Isso aqui parece que brigou com o chão.

O garoto soltou um pequeno sopro de riso pelo nariz.

E foi aí que Seungmin percebeu.

Ele não parecia frio de verdade.
Só parecia... fechado.

Enquanto analisava o aparelho, algo chamou sua atenção.

Um adesivo pequeno, preto, colado atrás da capinha.

Seungmin congelou.

Ele conhecia aquele símbolo.

Era o logo do perfil mais famoso de edits literários da internet.
O criador que fazia vídeos com frases profundas e histórias curtas que sempre viralizavam.

Seungmin seguia há anos.

— Você gosta desse perfil? — perguntou sem pensar.

O garoto inclinou levemente a cabeça.

— Qual deles?

— Esse aqui — Seungmin virou o celular. — O que posta edits com trechos de livros... e escreve aquelas histórias virtuais.

Silêncio.

— Talvez eu conheça — respondeu o garoto.

Seungmin sorriu.

— Ele é incrível. Tipo... sério. Parece que ele escreve exatamente o que a gente sente.

O garoto observou Seungmin por alguns segundos.

Como se estivesse analisando cada palavra.

— Você lê tudo que ele posta?

— Tudo. — Seungmin riu. — Já chorei, já sorri, já fiquei pensando na vida por causa dele.

— Entendi...

O garoto apoiou o cotovelo no balcão.

— E o que você acha que ele é?

— Como assim?

— O criador.

Seungmin pensou um pouco.

— Acho que ele é... solitário.
— Solitário?
— É. — Seungmin deu de ombros. — As histórias dele sempre parecem escritas por alguém que sente demais... mas não fala muito.

O garoto desviou o olhar.

Por um segundo, sua expressão mudou.

Não era fria.
Era... tocada.

— Interessante — murmurou.

Seungmin voltou a sorrir.

— Bom, a troca da tela vai demorar uns dois dias. Pode deixar aqui.

O garoto assentiu.

— Tudo bem.

Ele hesitou antes de sair, como se estivesse pensando em algo.

Então estendeu a mão.

— Minho.

Seungmin apertou, sorrindo como sempre.

— Seungmin.

A mão de Minho era quente.
Firme.
Mas ele demorou um segundo a mais do que o normal pra soltar.

— Você trabalha aqui todos os dias? — perguntou Minho.

— Quase sempre. Por quê?

— Nada. Só curiosidade.

Minho pegou o comprovante e começou a se afastar.

Mas antes de sair, parou perto da porta.

— Seungmin?

— Oi?

— Você disse que ele parece entender as pessoas...

— O criador?

— É.

Minho abriu a porta.

O vento frio da rua entrou na loja.
— Talvez ele só esteja esperando alguém entender ele também.

E saiu.

O sino tocou de novo.

Seungmin ficou parado alguns segundos, sem saber por quê...
mas com o coração batendo estranho.

Ele olhou para o celular quebrado ainda sobre o balcão.

E só então percebeu.

O aparelho estava aberto na galeria.

E na tela rachada...
havia dezenas de arquivos.

Pastas.

Textos.

Capas.

E o nome do perfil famoso escrito no topo.

Seungmin engoliu seco.

— ...não pode ser.

Sem perceber, um sorriso nervoso apareceu em seu rosto.

Talvez aquela história tivesse começado ali.

BOUND TO YOUStories to obsess over. Discover now