Capítulo 1

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Félix estava começando a faculdade e escolher o dormitório pareceu a opção mais prática. Havia uma ansiedade boa em não saber quem seria seu colega de quarto, uma sensação de novidade que ele acolhia com cuidado. Aquela nova fase o deixava genuinamente feliz — era a chance de virar a página, deixar os traumas da escola para trás e, finalmente, encontrar um pouco de paz naquele recomeço que tanto desejava.

Félix sempre foi do tipo certinho. Envolveu-se com pouquíssimas pessoas ao longo da vida e fez questão de manter cada experiência bem guardada, como se sentimentos também precisassem de disciplina. Preferia o silêncio à exposição, o controle ao risco — e tudo o que viveu, viveu sozinho, sem jamais permitir que alguém enxergasse além do que ele escolhia mostrar

Ao chegar ao dormitório, Félix ouviu o som da água correndo no banheiro. A constatação de que seu colega de quarto já havia chegado o deixou animado. Enquanto aguardava, começou a se acomodar no lado ainda vazio do quarto, organizando suas coisas com cuidado, tentando conter a curiosidade sobre quem dividiria aquele espaço com ele a partir dali.

Quando ouviu a porta do banheiro se abrir, o sorriso de Félix desapareceu quase instantaneamente.

De dentro do banheiro, vestindo apenas uma toalha frouxa na cintura, surgiu a última pessoa que ele gostaria de ver — nem pintada de ouro.

Jeongin.

Seu "inimigo" dos tempos de escola. O responsável pelo apelido que Félix odiava. Aquele cuja simples lembrança ainda o fazia estremecer.

— Cherry? — Jeongin disse, surpreso por um segundo antes de um sorriso malicioso se formar em seus lábios. — Não me diga que sentiu tanta minha falta a ponto de me seguir até aqui.

Félix sentiu o corpo travar antes mesmo de conseguir pensar. O ar pareceu pesado demais para entrar nos pulmões, e sua primeira reação foi desviar o olhar, como se encarar Jeongin por mais de um segundo fosse um erro irreversível.

O nome ecoou na cabeça dele como um gatilho antigo. Cherry.

— Não enche, Jeongin — respondeu, a voz mais dura do que pretendia, enquanto fechava a mão ao redor da alça da mochila. — Você é a ultima pessoa do mundo que eu queria estar perto

Ele tentou sustentar a postura firme, mas o coração batia rápido demais, denunciando tudo o que fingia não sentir. Aquela não era uma raiva comum. Era o desconforto de algo mal resolvido, de memórias que ele acreditava enterradas — e que agora estavam ali, bem no meio do quarto.

— Inclusive, eu vou pedir pra me trocarem de quarto — disse, num tom seco, como se a decisão já estivesse tomada.

Jeongin arqueou a sobrancelha, divertimento evidente no olhar.
— Ih, Cherry... sinto te decepcionar, mas os dormitórios estão cheios. — Ele deu de ombros, tranquilo demais. — Peguei a última vaga. Esse quarto é nosso.

— Para com essa merda de apelido. — A voz de Félix saiu baixa, tensa. — Eu achei que tivesse deixado bem claro o quanto odeio que você me chame assim.

O sorriso presunçoso — aquele que Félix mais detestava — voltou a se formar nos lábios de Jeongin, lento, calculado.

— E é exatamente por isso que eu continuo te chamando assim, Cherry. Porque você nunca odiou de verdade. Você só nunca soube lidar com o que sente quando ouve.

Algo dentro de Félix estalou.

Antes que pudesse se conter, ele deu um passo à frente, empurrando Jeongin pelo peito com força suficiente para fazê-lo recuar um meio passo.

— Cala a boca! — a voz saiu alta, trêmula de raiva e algo mais difícil de nomear. — Você não sabe nada sobre mim. Nunca soube.

O coração martelava no peito, os dedos cerrados, o corpo inteiro em alerta. Félix respirava rápido, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo antigo demais.

— Para de fingir que me conhece — completou, os olhos queimando.

Jeongin não recuou.

Nem um passo.

Jeongin baixou o olhar para a mão de Félix ainda pressionada contra seu peito e, lentamente, voltou a encará-lo.

— Viu só? — murmurou, quase calmo demais. — É isso que eu quero dizer quando falo que você sente.

Félix puxou a mão de volta como se tivesse se queimado, o peito subindo e descendo rápido demais.

— Não encosta em mim — disse, mas a ordem saiu fraca, traída pela respiração descompassada.

Jeongin inclinou a cabeça, os olhos atentos, perigosamente atentos.

— Então para de reagir como se eu fosse o problema — respondeu. — Porque não sou eu que te faço perder o controle, Cherry.

O silêncio foi quebrado por um som seco.

A toalha escorregou.

Não foi dramático, nem lento — foi rápido, descuidado, como se o universo tivesse decidido testar até onde Félix aguentava.

Félix virou o rosto no mesmo instante, o estômago revirando, o rosto queimando de raiva e vergonha.

— Caralho... — murmurou, mais irritado consigo mesmo do que com Jeongin.

Jeongin não se mexeu de imediato.

Não pediu desculpa.

Não demonstrou pressa.

Apenas ficou ali, em silêncio, tempo suficiente para notar o corpo de Félix tenso demais para alguém que dizia não se importar.

Quando finalmente puxou a toalha de volta, fez isso com calma deliberada, como quem escolhe cada gesto.

— Fica tranquilo, Cherry — disse, a voz baixa, quase casual. — Se isso te afeta assim, o problema não sou eu.

Félix soltou uma risada curta, sem humor.

— Você se acha muito importante — respondeu, dando de ombros, forçando uma calma que não sentia. — Não é como se eu nunca tivesse visto um

Pegou o celular da cama, as chaves, qualquer coisa que justificasse movimento.

Não olhou pra Jeongin.

Não porque não queria — mas porque sabia exatamente o que aconteceria se olhasse.

— Aproveita o quarto — completou, já abrindo a porta. — É seu por enquanto.

E saiu.

O clique da porta soou mais alto do que deveria.

Sozinho, Jeongin sorriu de canto.

Félix não teria ido embora se não tivesse sido atingido.

CherryWhere stories live. Discover now