Os meios justificam,

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Prólogo

Existe uma lenda. Em algum lugar da história, com certeza. Em algum país há de existir uma explicação, um conceito, um provérbio ou ao menos uma lembrança de guerra. Algum poeta já registrou isso em um canto esquecido e empoeirado, amarelado, comido por traças ou ratos desesperados. Em algum lugar, um outro alguém provou do mesmo sabor da minha boca: o amargo do fundo, o indeglutível que se enfia entre o invisível que separa os dentes e apodrece por dentro, o que você só percebe machucar quando esburaca tão fundo que seu crânio lateja. Alguém com certeza já se sentiu assim. Se sou dessa forma de nascença, que exista alguém anterior ao meu sangue que possa me compreender e explicar. Alguma característica do DNA ou do trauma geracional que me impulsionou até aqui, alguma linha não-lida do karma que veio parar em mim por acidente, por acaso ou por maldição. Algum Deus em alguma religião distante, desconhecida, isolada que possa atender meu clamor, aceitar meu sacrifício como forma de reconciliação e me oferecer o colo. Há, em algum lugar, pelo menos um resquício de companhia para o meu coração.

Há, também, três meses que não durmo uma noite sequer sem antes passar horas a pensar sobre isso. Talvez um pouco menos, já que nenhuma delas foi desperdiçada calculando os detalhes dessa matemática, mas eu sei que há uma variante e umas exceções que com certeza são justificáveis ou justificativas.

Há e há, mas não houve nada. Chegou perto de haver, mas parou por ali, vítima do tempo, da ausência, do excesso, da necessidade e do exagero. Ao fim, não sei se fui eu a ser vitimado ou se fui eu a vitimar. Os papéis se perderam e não posso nem culpar os ratos porque, entre as coisas que houveram e não houveram, não fiz questão de registrar senão na minha memória. E, a essa altura, preferia perdê-la. Mas jamais preferiria não tê-la tido, a princípio. Que eu vivesse tudo de novo, esquecesse mais uma vez, e continuasse preso nos "quases" pra morrer antes do fim.


I cry at the start of every movie / I guess 'cause I wish I was making things, too / But I'm working for the knife / [ . . . ] / I always thought the choice was mine / And I was right, but I just chose wrong / I start the day lying and end with the truth / That I'm dying for the knife – Mitski, Working for the Knife.





Dia 81 de Inverno

Das muitas formas de se queimar a retina,  Geunwoo havia escolhido duas. Oscilava com os olhos por entre a tela do celular e da televisão quase sem querer, uma fuga inconsciente do conteúdo de ambas. Captava alguns lapsos de momentos do jornal com o mesmo desinteresse com que olhava as fotos na galeria. Um pôr do sol aqui, um acidente de carro ali. Uma selfie de um lado, uma câmera de segurança de outro. O foco distante, nublado; comum. O coreano vivia isso desde antes do diagnóstico de TDAH, mas difícil seria achar qualquer outro rapaz que nasceu na época da "facilitação através de tecnologia" que não tivesse alguns dos mesmos sintomas. Àquela noite, havia resolvido postergar entre mundos como se fosse um atleta que vê a linha de chegada, tem certeza da vitória e começa a correr por pura natureza — ou comodismo, abastecido pela adrenalina ou pelos últimos suspiros dela.

Em algum momento, ele sentiu que todas as vozes dentro e fora de sua cabeça sincronizaram, assim que a foto de uma taça de vinho que havia bebido nos primeiros dias da viagem surgiu diante de seus olhos ao mesmo tempo em que ouviu a âncora do jornal falando sobre como a chuva havia afetado a vinícola mais ao sul. Fosse religioso, haveria dito ser sinal divino; como não era, poderia assumir que o útil havia se unido ao agradável numa tão rara maré de sorte. Ainda com resíduos de preguiça, se levantou da cama, andando até alcançar a garrafa de Vinsanto quase esquecida no canto da frigobar. Tomou direto da boca com algumas doses de coragem, e só então foi abraçar seu notebook.

Se ignorasse a jornalista, poderia fingir estar em casa. Se ignorasse o sabor doce do vinho, ficaria mais parecido ainda. Com a idade, criou o gosto por bebidas que queimassem mais, nunca pelas que desciam como mel depois de passar a tarde no sol. De qualquer forma, a companhia era bem-vinda enquanto abria o arquivo no qual havia trabalhado durante o último mês. Na pasta de projetos não finalizados, junto com aquele antigo currículo de quando ele ainda planejava vender o corpo, a alma e a criatividade em troca de um terno de segunda mão e tempo demais ouvindo sobre os colegas de trabalho – geralmente quando eles nem estavam perto, a depender das senhoras fofoqueiras. Naquele canto, constava tudo. Ou o mínimo para saber o básico dele e arrancar todas as outras características importantes com garras e cifrões.

Nome: Seo Geunwoo. Depois de abandonar aquele currículo, havia se tornado produtor e compositor fantasma, então podia cultivar o talento sem comprometer sua privacidade. Atualmente com vinte e oito anos. Nascido e criado em Daegu, sem nunca visitar lugar que não fosse perto o bastante para reconhecer os caminhos de volta imediatamente caso necessário. Não escreveu lá, mas era autodidata, pai de gato, irmão mais novo e leitor assíduo de filósofos ocidentais que o transformariam em uma red flag ambulante em potencial. Trabalhava bem em grupo (mentira) e vestia a camisa da empresa (mentira). Sem foto, porque alguém na internet disse que era melhor pro RH, mesmo que a que ele havia tirado naquele dia no barco tivesse ficado uma graça. Alguns campos vazios ou curtos, como o de experiências e qualidades.

Antes daquele ano, sequer havia explorado os resultados do curso de inglês que havia feito quando prometeram que seria a língua internacional falada em todos os lugares e que ele nunca precisou usar dentro das quatro paredes de seu apartamento. Agora, estava na Grécia, com o paladar, as vontades e os arrependimentos renovados e moldados entre as praias claras e ruas estreitas. Quando parava para pensar sobre o início de tudo aquilo, se interrompia no mesmo instante. E aí adicionava um pouco mais de piano na faixa que estava produzindo. 




Dia 1 de Outono

Ninguém gosta da pessoa que vira após 18 horas de voo. Geunwoo, que já não era dentre seus próprios fãs o primeiro, não suportava nem mesmo o próprio cheiro. Por sorte, as pessoas no metrô conseguiam roubar seu foco nisso, uma vez que ele odiava o cheiro delas ainda mais. Que coisa bizarra ter que aceitar uma intimidade tão ardente e não consentida ao permitir que o suor alheio esteja constantemente invadindo suas narinas. O preço a se pagar para poupar alguns euros era alto, mas seria recompensado em comida depois. Gyros, vinhos, souvlakis, tudo que no passado inspirava os filósofos. Não havia viajado para se inspirar, mas aceitava o bônus, mesmo quando ele era voltado para escrever mais faixas de ódio para a lata de sardinha compartilhada que chamavam de trem. Ou talvez fosse o jet lag gritando.

O clima estava menos pior do que em Daegu, pelo menos. O som das ondas do mar Egeu, das festas e das ruas que seriam seu lar durante aquela viagem acompanhavam o movimento do Sol se pondo. Fora do metrô, caminhando pelas ruas de Plaka repletas de paralelepípedos irregulares que faziam tremer sua única mala, pôde observar as lojas de souvenirs se fechando e as tavernas se abrindo. Até que chegasse em seu hotel, prendeu o olhar em pelo menos 4 gatos de rua que se enfiavam entre as cadeiras e mesas externas. De certa forma, sentia não pertencer naquele ambiente. Em seu âmago, o cansaço e a fome se digladiavam para ver quem seria o vencedor que daria nome ao seu mau humor.

Chegou em seu quarto de hotel e se desfez imediatamente. A mala largada perto da cortina fina e pálida e a corrida imediata para o banheiro. Quando tirou o celular do modo avião, respondeu as mensagens dos pais e do irmão, sorrindo ao ver a foto que mandaram de sua gata. Era como se tivesse uma fresta por onde assistia a própria vida à distância. Ou como se a fome estivesse confundindo seus sentidos. Respondeu ao guia turístico com quem havia marcado o tour culinário e agradeceu, pela primeira vez, pelo quanto conhecia a si mesmo. Também por conhecer a si, pegou um casaco. As ruas marcavam 12°C e o ponto de encontro era em Monastiraki, junto de pelo menos outras seis pessoas que resolveram se aventurar na Grécia durante a baixa temporada, por algum motivo desconhecido.

Mesmo com todo aquele mau humor, Geunwoo não era um pessimista. Um mero passageiro, talvez, tão suscetível aos efeitos de ter ficado tão perto do céu pela primeira vez e não tê-lo podido tocar como qualquer um dos outros mais acostumados a voar. Não tinha tantas expectativas, então não era facilmente frustrado. Não estava na estatística dos deprimidos desde que saíra da adolescência. Quando sentia fome, ficava minimamente incomodado; quando sentia sono, todo som existente o irritava em dobro. Não havia nada nele que não fosse geracional ou situacional. Sua personalidade era tão baseada nisso como a de qualquer outro que compartilhasse o mesmo signo, ou idade, ou endereço, ou número de pessoas necessárias para o trazer à vida. Ele era tão comum quanto seu vizinho, quanto o casal aparentemente russo que estava conversando alegre no ponto de encontro, quanto o piloto que falou abafado no microfone do avião e ele não entendeu nada. Dolorosamente mundano, mas a dor passava despercebida na maioria dos dias e, nos outros, aceitar que ela era inevitável servia como placebo.

Alguém, no entanto, parecia demais com ele naquele grupo. Aproximando-se, pôde notar o outro coreano, que mexia em seu celular alheio à chegada de um compatriota. Loiro, pernas longas e expressão suave que quase fazia Geunwoo pensar que nele pudesse ter algum segredo diferente dos demais, mas nada que o desviasse do que já planejava fazer ali. Apenas mais um. Bonito, elegante e diferente, mas mais um.

"Opa!" o sotaque forte do homem sênior chamou a atenção de todos. "Todos aqui? Ninguém perdido nos labirintos de Plaka? Bem-vindos ao tour de comidas de Atenas! Eu serei o seu guia, Nikos. Alguns de vocês me conhecem da taverna, ey?" uma risada compartilhada entre alguns membros, que se aproximavam aos poucos, "essa noite, vamos comer bem! Como todas as outras aqui na Grécia! Dizem aqui: comida boa é vida boa, então venham! Vamos começar por aqui!"

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⏰ Cập nhật lần cuối: Feb 10 ⏰

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O que existiu entre os quases e morreu antes do fimNhững tác phẩm khiến độc giả say mê. Hãy khám phá bây giờ