CAPÍTULO 1

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Elouise tinha apenas dez anos e estava em seu quarto com os pais. Todas as noites, depois do jantar, eles se reuniam ali para contar uma história à filha e ajudá-la a adormecer.Era um ritual imutável: uma história curta, um beijo na testa e o apagar da luz.
Naquela noite, porém, o corpo da menina ardia em febre. Mais cedo, esteve no médico com a mãe e agora precisava tomar o remédio antes de dormir.
Enquanto Eleonora terminava de arrumar a cama da filha, Alberto lembrou do medicamento e pediu que a esposa o buscasse. Eleonora, ocupada, pediu para que Alberto que pegasse o remédio em sua bolsa, que estava no quarto do casal.
O quarto estava escuro. Silencioso demais.
Alberto abriu a bolsa com pressa, quando o celular de Eleonora começou a vibrar. Um número desconhecido iluminava a tela. Ele atendeu. A ligação caiu.

Segundos depois, uma mensagem surgiu.

“Adorei passar a manhã com você. Quero te ver de novo. Da próxima vez, sem a sua filha. Precisamos matar a saudade. Beijos. Me retorne quando puder.”

O ar pareceu rarear.

Alberto leu cada palavra com atenção cruel. Não gritou. Não tremeu. Apenas sentiu algo morrer lentamente dentro de si — algo que talvez já estivesse podre havia anos. Guardou o celular no mesmo lugar, como se nada tivesse acontecido, pegou o remédio e voltou ao quarto da filha.
— Você demorou — disse Eleonora, distraída.
— Sua bolsa é um labirinto — respondeu ele, com um meio sorriso ensaiado.
Ela deu o remédio à menina, cobriu-a e apagou a luz. O casal saiu do quarto. A porta se fechou. Elouise dormiu. O mundo dela permaneceu intacto.
Por enquanto.
Naquela noite, Alberto não dormiu. Esperou. O silêncio da casa era absoluto quando ele se levantou e fez a ligação.
Um nome do passado. Uma voz que não fazia perguntas.
Seguiu as instruções.

Desceu até o porão, onde a casa guardava seus segredos entre poeira, ferrugem e coisas esquecidas. Ali, entre objetos quebrados, encontrou o que precisava. Subiu com passos lentos. Calculados.

A banheira foi enchida.
Quando Eleonora percebeu, já era tarde.

Alberto a segurou com força, o braço firme em seu pescoço, a mão tapando qualquer tentativa de som. Não havia raiva em seus olhos — apenas decisão. A seringa entrou na veia, carregada de nada além de ar. O terror veio rápido. O fim, inevitável.
Ele a afogou. Uma vez. Duas. Três. Até que o corpo desistisse.
Quando tudo acabou, Alberto encarou o reflexo distorcido na água. Não se reconheceu. Não tentou.
Ligou novamente.
— Agora faça exatamente o que eu disser — ordenou a voz. — Leve o corpo para a garagem. Estou a caminho.

Minutos depois, passos ecoaram.

— Ora, ora… — disse o homem ao entrar. — Eu sabia que você não sustentaria essa farsa de família perfeita para sempre, Valerossi.

Alberto falou rápido, quase sussurrando:
— Preciso da sua ajuda. Para esconder o corpo. Para fazê-la desaparecer. Eu pago como puder.

Dmitri Kravinov o observou em silêncio, os olhos frios, avaliando não o crime — mas o valor dele.
— Eu já esperava isso — respondeu por fim. — Dinheiro não será necessário. Vamos fazer um acordo.

E naquela garagem, entre sangue invisível e promessas quebradas, um novo inferno começou.

O acordoHikayelerin yaşadığı yer. Şimdi keşfedin