O som da porta de uma geladeira sendo aberta ecoa na noite, tremendo pela força usada. Ela parecia ser antiga, mesmo não aparentando estar desgastada. Mas talvez fosse a impressão que passava em meio ao local que permanecia: um apartamento velho e soturno, que trazia um certo ar melancólico, e para todo canto que se olhasse denunciava sua idade. Suas paredes, podres e úmidas, eram descascadas como veias expostas, e os móveis marcados pelo desgaste e descuido. Sob o chão, o assoalho esperneava ao ser pisado, como se houvesse dor a ser sentida. Era como um organismo vivo, mas que carregava algum tipo de tumor.
Em contraste, a inquilina era uma jovem moça, na casa dos seus vinte e poucos anos. Usava roupas leves, uma camiseta esportiva sem manga e um short de malha, pois era verão e o calor da noite a deixava inquieta. Seu rosto denunciava um cansaço de não uma ou duas, mas incontáveis noites sem um sono tranquilo. Daquela geladeira que resistiu ao ser aberta, havia pego uma cerveja barata, a única que restava, e bebia em pequenos goles enquanto andava pela casa, visivelmente em busca de alguma coisa.
Em meio a uma esfera de lençóis e roupas sujas jogadas no chão, a inquilina pegava calças e apalpava seus bolsos. Achava papéis de promoções e cupons amassados, junto com moedas de troco de compras esquecidas, mas aquilo não chamava sua atenção. Ela continuou apalpando, até parecer ter encontrado o que buscava: um maço de cigarros, agora amassados e meio úmidos.
A esse ponto, trazia na mão uma garrafa vazia, que deixou cair entre as roupas espalhadas, e o som abafado da queda perdeu-se no silêncio profundo daquela noite. Pegou então um cigarro e o balançou no ar, tentando expulsar a água que o encharcava. Levou-o aos lábios e, ao lembrar-se de que o isqueiro já não tinha mais gás, dirigiu-se ao fogão. Entre panelas sujas e baratas afugentadas com o fogo que subia, a inquilina não esboçava nenhuma reação; estando apenas hipnotizada pelas chamas que consumiam a ponta daquele fino papel.
A luz do fogo se destacava na escuridão, marcando sua presença naquele mundo silencioso, deixando um rastro que acompanhava seus passos até a varanda. De lá, ela observava a rua vazia: calma, introspectiva, desprovida da pressa matinal de passos e carros. O ambiente era agora dominado pelos sons de insetos que se chocavam e zumbiam ao redor dos postes de luz, enquanto uma brisa leve agitava galhos e roupas penduradas nos varais.
Junto ao maço de cigarros, ela apanhou o celular, e a tela acesa denunciava os últimos vinte por cento de vida. Era quase novo, mas carregava o aspecto de algo que já vivera demais. O vidro trincado dificultava o toque, e a parte superior, morta, recusava-se a responder. A carcaça, quebrada, feriria facilmente a mão de quem a segurasse por tempo demais. Como ressalva, a câmera permanecia intacta.
Com o celular em mãos, a inquilina fitava o relógio: quase três da manhã. Movendo o indicador, ela indicava querer apertar o botão lateral para deixá-lo em modo stand-by. Um gesto simples, porém interrompido por uma força invisível que deteve o toque, obrigando-a a encarar o papel de parede. Era uma foto de casal, mas não era possível ver o rosto de nenhum dos dois, visto estar coberto por linhas trêmulas e coloridas, que cintilavam como se tentassem querer a revelar. Havia algo de poético nisso, pensou, mas sabia que era um pensamento tolo. Poético isso, poético aquilo. No fundo sabia ser apenas um consolo cruel; uma falsa esperança e uma maneira de dar sentido ao que já se arrastava apenas por costume. Todavia, um consolo.
Ainda contemplando à noite, a inquilina olhava de relance para todas as coisas em seu campo de visão, e em particular para a entrada do seu prédio. Não havia nada de novo naquela ação, e a esse ponto talvez fosse apenas um ritual vazio e desprovido de sentido. Mas aquilo fazia com que seus anseios fossem renovados em busca de uma resposta. "Nunca acredite em nuncas", ela diria, então assim fazia.
Não havia nada de especial naquela noite, e esse era essencialmente o problema. Algo precisava mudar, mas a inquilina sabia que pensar assim era vago demais para levar a qualquer lugar. Ainda assim, poderia ao menos fazer o que lhe parecia possível. De volta à sala, apoiou o celular sobre a mesa tomada por entulhos - cinzeiros, maços, garrafas vazias. Sentou-se no sofá e iniciou uma gravação. Precisava conversar com alguém, e naturalmente só tinha a si mesma.
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Lista de Compras
Short StoryDurante uma madrugada sufocante, uma jovem vagueia por um apartamento em ruínas enquanto tenta montar uma simples lista de compras. Entre cigarros, gravações interrompidas e memórias que insistem em voltar, o cotidiano banal se mistura a uma ausênci...
