Cinco Anos e o Mesmo Silêncio

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O sol nascia devagar sobre Riomafra, filtrado por uma névoa que cheirava a madeira queimada e ferro enferrujado. Gustavo acordou antes do ronco do gerador principal. Sempre acordava antes. Aos vinte e seis anos, o corpo já não pedia permissão para lembrar das noites mal dormidas. Ele se sentou na beira da cama, pés descalços no piso de madeira fria da casa ao sul da muralha. A casa era simples: paredes de tijolo aparente, janelas reforçadas com grades soldadas, um telhado que gotejava nas chuvas fortes. Perto do rio, o som da água corrente era constante — um ruído que ajudava a abafar os gemidos distantes dos infectados que ainda vagavam além das cercas.

Ele pegou o maço de cigarros na mesa de cabeceira. Acendeu um. A primeira tragada queimou a garganta como sempre. Olhou pela janela: a muralha principal se estendia a oitocentos metros dali, um anel de concreto e sucata que marcava os limites internos do que um dia fora só o sítio da família Schelbauer. Agora, as cercas e muros iam até oito quilômetros da base central — uma área de plantações, galpões, torres de vigia e quartéis improvisados. Os militares que se juntaram depois do resgate de Camile ainda viviam ali, no coração do sítio antigo. Eles chamavam de “quartel-general”. Gustavo chamava de “o que sobrou”.

Felicia ainda dormia ao lado dele. O braço dela sobre o peito dele, respiração ritmada. Cinco anos juntos tinham transformado a tensão inicial em algo mais quieto, mais sólido. Ele não dizia “eu te amo”. Ela não precisava ouvir. Bastava o jeito como ela se mexia para perto quando o silêncio ficava pesado demais.

Gustavo se levantou devagar, vestiu a jaqueta surrada e saiu para a varanda. O ar estava frio. Ele fumou olhando para o norte, onde a muralha principal cortava o horizonte. Thiago já estava lá em cima, consertando uma seção de arame farpado. John patrulhava o perímetro sul com o fuzil pendurado no ombro, resmungando sozinho como sempre. Carla tinha saído antes do amanhecer — provavelmente voltaria com algo para comer, ou com notícias de rastros frescos. Mariana organizava o estoque médico no galpão central. O grupo não era maior que antes. Era só mais experiente em perder.

Ele apagou o cigarro na grade e desceu os degraus. Caminhou até o laboratório improvisado — um porão reforçado sob o antigo celeiro da família. Camile estava lá, como sempre. A cientista que eles tinham arrancado daquela ilha cinco anos atrás. A mulher que poderia ter dado uma vacina de verdade.

Ela estava debruçada sobre uma mesa cheia de amostras, microscópio antigo ao lado de um laptop remendado. Óculos remendados com fita adesiva. Cabelo preso num coque que não via pente há dias. Quando Gustavo entrou, ela nem ergueu os olhos.

“Chegou cedo hoje,” ela disse.

“Não dormi muito.”

Ela finalmente olhou para ele. “Nem eu.”

Gustavo se encostou na parede, braços cruzados. “Como está o Tipo V que pegamos na semana passada?”

Camile apontou para a jaula reforçada no canto. Dentro, um infectado vivo — ou o que restava dele. Pele pendurada em tiras, ossos expostos no antebraço esquerdo, mas os olhos ainda se moviam com inteligência residual. Ele não gemia. Só observava. O Nipah-R tinha mudado. Não regenerava mais o corpo inteiro. Só os neurônios. Só a atividade cerebral. O cérebro ficava acordado enquanto o corpo apodrecia devagar. Tipo R — os clássicos, lentos, em massa — continuavam os mesmos: mortos reanimados, resistentes, previsíveis. Tipo V tinha virado algo grotesco: deformações aceleradas, movimentos espasmódicos que pareciam dor eterna, força bruta sem limite neural. Eles ainda gritavam palavras soltas às vezes. Nomes. Pedidos. E depois silenciavam, como se lembrassem que não havia mais ninguém para responder.

“Ele vai durar mais duas semanas, no máximo,” Camile respondeu. “O vírus mantém a mente viva o suficiente para sofrer. Depois o corpo desiste. Degeneração total. Não é cura. É só... prolongamento.”

Gustavo assentiu. “E a vacina?”

“Supressora. Funciona em portadores latentes por seis meses. Depois o gatilho vem — estresse, ferimento, exposição. Desperta. Mas não cura o que já virou. E os Tipo L... esses ainda são raros. Inteligentes o suficiente para planejar. Mas mesmo eles estão degenerando mais devagar agora. Como se o vírus estivesse aprendendo a preservar o que importa: a cabeça.”

Ela esfregou os olhos. “Cinco anos, Gustavo. Eu tinha esperança na ilha. Quando vocês me tiraram de lá.”

Ele se lembrou. Capítulo 24. “Ilhas, Nomes Grandes e Problemas Antigos”. A ilha não era só um ponto no mapa. Era um laboratório abandonado onde o Nipah-R tinha sido testado em escala. Infectados que não eram só R ou V. Eram “ganados” — mutantes controlados, coordenados, que lembravam rostos, usavam ferramentas, emboscavam como se tivessem ordens. Camile estava presa lá, trabalhando contra a própria vontade. Eles invadiram: Gustavo, Felicia, Leon e Ada.

Leon Kennedy cobrindo a retaguarda com precisão cirúrgica. Ada Wong movendo-se como sombra, atirando sem desperdiçar bala. Felicia e Gustavo no centro, abrindo caminho. Um mutante L quase pegou Felicia pelas costas — Ada atirou primeiro. Gustavo carregou Camile ferida para o helicóptero. No fim, eles saíram vivos. Leon e Ada partiram dali mesmo, do sítio, no helicóptero que trouxeram. Leon apertou a mão de Gustavo. “Se precisar, me chame. Mas não conte com isso.” Ada só deu um sorriso que não chegava aos olhos. “Cuidem da doutora. Ela pode valer mais que todos nós.”

O helicóptero subiu. Sumiu no horizonte. E o silêncio voltou.

Gustavo olhou para Camile agora. “Você nos deu tempo. Isso já é mais do que tínhamos.”

Ela balançou a cabeça. “Tempo para quê? Para ver o vírus aprender a nos matar melhor?”

Antes que ele respondesse, o rádio no canto do porão chiou. Estática. Depois uma voz familiar, rouca, cansada.

“Schelbauer. Se estiver ouvindo... é Leon. Estamos a caminho. O complexo que Camile mencionou na ilha... ainda existe. Eles não pararam. Estão refinando variantes. Ls que degeneram mais devagar. Uma frequência que desperta portadores em massa. Chegamos em dias. Não confie em ninguém que chegar antes de nós.”

Gustavo foi até o rádio. Apertou o botão. “Onde você está?”

“Fronteira norte. Com companhia. Ada manda lembranças. E um aviso: o jogo mudou. Vejo vocês em breve.”

Silêncio.

Gustavo desligou. Camile o encarava.

“Eles voltaram,” ela disse.

“Problemas antigos,” Gustavo respondeu. “Sempre voltam.”

Ele saiu do porão. Subiu até a varanda da casa sul. Felicia estava lá, encostada na grade, olhando o rio. Ela não perguntou. Só esperou.

Gustavo acendeu outro cigarro. Deu uma tragada longa.

“Leon e Ada estão vindo. O complexo ainda está lá. Eles querem ajuda.”

Felicia cruzou os braços. “E você?”

Ele olhou para o horizonte. Para a muralha. Para os oito quilômetros de cercas que um dia foram só terra da família.

“Eu decido. E o resto entende.”

O sol subiu mais um pouco. O silêncio continuou. Mas agora ele tinha um som novo: o ronco distante de um motor se aproximando. Luzes piscando em código antigo.

BSAA.

Cinco anos. E o apocalipse respirou de novo.

Mas dessa vez, ele não veio sozinho.

RESIDENT: Agentes do FimWhere stories live. Discover now