Cicatrizes que não aparecem

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POV Lena

Aprendi cedo que rotina é uma forma elegante de sobrevivência.

Acordar antes do sol, escolher roupas neutras, prender o cabelo com precisão cirúrgica. Nada podia estar fora do lugar - não em casa, não na empresa, não dentro de mim. Maxwell ainda dormia quando saí do quarto. Dormia tranquilo, como alguém que nunca precisou medir palavras, gestos ou silêncios. Eu o observei por um segundo a mais do que devia, depois fechei a porta sem fazer ruído.

Na Luthor Medical Group, o prédio de vidro refletia exatamente o que eu era para o mundo: fria, inalcançável, impecável.

- Dra. Luthor, sua agenda está lotada hoje - informou minha assistente assim que atravessei o saguão.

Como se algum dia não estivesse.

A primeira reunião foi interrompida por algo raro: Rose.

Ela entrou correndo na sala, ignorando protocolos, seguranças e olhares assustados. Cabelos escuros presos de qualquer jeito, sorriso aberto demais para aquele ambiente.

- Mamãe!

Meu corpo reagiu antes da mente. Ajoelhei-me, abracei-a forte, sentindo aquele cheiro de infância que não existia em nenhum outro lugar do mundo.

- Veio me fiscalizar? - perguntei, em tom conspiratório.

- Vim ver se você trabalha muito - respondeu séria, antes de rir.

Brinquei com ela por alguns minutos, deixei que sentasse na minha cadeira giratória, que apertasse botões proibidos do meu tablet. Por alguns instantes, o mundo não exigiu nada de mim além de estar ali. Até Maxwell aparecer à porta.

- Rose, querida, não incomode sua mãe - disse ele, com aquele sorriso treinado.

Levantei-me devagar.

- Ela não está incomodando - respondi, fria. - Você está.

O clima mudou na hora.

- Precisamos falar da expedição - Maxwell continuou, já impaciente. - Os investidores querem garantias.

- Os investidores não mandam no meu laboratório - rebati. - Nem você.

Ele se aproximou o suficiente para que só eu ouvisse:

- Não esqueça quem banca seus sonhos, Lena.

Segurei o impulso de responder. Rose nos observava. Isso bastou.

No laboratório, o controle voltava a ser meu.

Minha equipe era cuidadosamente escolhida - cada uma essencial:

* **Samantha Arias**: chefe de segurança científica e logística de campo. Forte, estratégica, responsável por manter todos vivos fora do ambiente controlado.
- Sara Lance: especialista em sobrevivência, rastreamento e combate. Não era cientista, mas garantiria que a equipe voltasse inteira.
- Ava Sharpe: coordenadora operacional e análise de dados. Organizada, meticulosa, garantia que cada decisão tivesse base lógica.
-Lucy Lane: médica-chefe da expedição, responsável por protocolos clínicos e respostas emergenciais.
- James Olsen: documentarista científico e relações institucionais. Escolhido por Maxwell. Eu não confiava nele - nem em Lucy - mas fui obrigada a aceitar.

- Resultados preliminares da orquídea são promissores - disse Ava.

- Ainda não suficientes - respondi. - Quero algo irrefutável.

Meu pai jamais aceitaria menos.

Quando pensei que o dia não poderia exigir mais, minha assistente apareceu novamente.

- Dra. Luthor... a entrevista das 15h.

Fechei os olhos por um segundo.

- Maxwell não vai aparecer, vai?

- Não.

Claro que não.

Caminhei até a sala de entrevistas já irritada, decidida a encerrar aquilo rápido.

Foi quando a vi.

#### **Kara**

O prédio era maior do que eu imaginava.

Respirei fundo no banheiro antes de sair. Cabelo preso, roupa simples, postura firme. Eu não tinha chegado até ali para abaixar a cabeça. Aquela vaga significava tudo.

Na recepção, disseram que o senhor Lord estava ocupado.

Esperei.

Quando a porta se abriu, não foi ele quem entrou.

Era **Lena Luthor**.

Ela parou ao me ver. Eu parei também. Houve um silêncio estranho, pesado, como se algo tivesse sido interrompido no ar. Os olhos dela eram atentos demais. Calculistas. Ainda assim... havia algo ali.

- Dra. Danvers - disse ela, retomando o controle. - Sente-se.

- Pensei que o senhor Lord faria a entrevista - respondi.

Um leve sorriso frio surgiu nos lábios dela.

- Ele delega. Eu resolvo.

Começamos. Perguntas técnicas, diretas. Eu respondi sem rodeios. Quando ela tentou me testar, eu rebati. Não por arrogância - por convicção.

- Aqui dentro, quem manda sou eu - disse ela, finalmente, em tom cortante.

Levantei-me.

- Então acho que não sou a pessoa certa.

Virei para sair.

- Kara Danvers - chamou ela.

Parei.

- Você começa amanhã. Oito da manhã.

Virei lentamente.

- Isso foi... a entrevista?

- Foi um teste - respondeu. - E você passou.

Assenti, sem sorrir. Saí antes que minhas pernas resolvessem falhar.

Do outro lado da porta, Lena ficou parada por alguns segundos a mais do que admitiria.

E sem perceber, duas trajetórias perigosamente solitárias haviam acabado de se cruzar.

Orquídea Sangrenta: O preço da eternidadeStories to obsess over. Discover now