Antes das Luzes

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Era uma manhã tipicamente nublada em São Paulo.

O céu carregava aquele cinza homogêneo que parecia se estender até onde a vista alcançava, e ainda assim alguns feixes tímidos de luz conseguiam atravessar o estreito espaço deixado entre a parede e a cortina. A longa janela de vidro emoldurava o quarto amplo, silencioso, quase solene, enquanto a dona daquele espaço dormia com uma tranquilidade enganosa.

Eduarda Fragoso respirava devagar, os lábios entreabertos deixando escapar pequenos suspiros, como se o corpo ainda não tivesse decidido voltar por completo ao mundo desperto. Havia algo de sereno naquela cena, uma calma suspensa que ignorava completamente o fato de que, em exatos dezoito segundos, o alarme iria tocar.

Quando o som estridente finalmente rompeu o silêncio, ela se mexeu de imediato, a mão surgindo debaixo do edredom para alcançar o relógio sem nem abrir os olhos. O visor marcava seis da manhã. Cedo demais para qualquer pessoa minimamente sensata, cedo o suficiente para fazer com que ela soltasse um resmungo baixo antes de desligar o alarme.

Ainda deitada, Eduarda se espreguiçou com preguiça, esticando o corpo inteiro sob o edredom macio, como se quisesse extrair mais alguns segundos daquele conforto caro demais para ser ignorado. Era o tipo de cama que fazia promessas silenciosas de permanência. Promessas que ela, invariavelmente, quebrava todas as manhãs.

Sem cerimônia, levantou-se nua e atravessou o quarto em direção ao banheiro. A ducha veio rápida, eficiente, quase automática. Dez minutos depois, ela já estava vestida com roupas de corrida, o cabelo ruivo preso em um rabo de cavalo alto e o relógio no pulso, pronto para registrar cada quilômetro do dia.

Desceu as escadas da mansão localizada no Jardim Europa com passos firmes e silenciosos. A porta do quarto do pai ainda estava fechada, como esperado. A casa, àquela hora, parecia existir apenas para ela.

Na cozinha, Rosana já a aguardava com o smoothie cuidadosamente preparado.

— Bom dia — Eduarda disse, pegando o copo e levando-o aos lábios.

Tomou três goles rápidos, suficientes apenas para enganar o estômago, antes de se virar em direção à porta.

— Menina, você nunca toma isso inteiro — reclamou Rosana, cruzando os braços, num misto de censura e carinho.

Eduarda sorriu, daquele jeito desarmado que sempre funcionava.

— Prometo que eu tomo quando voltar! Sério!

As duas riram, como faziam quase todos os dias.

Pouco depois, Eduarda já estava no banco de trás do carro, ajustando o Apple Watch enquanto o motorista seguia em direção ao Parque do Ibirapuera. A cidade já estava a mil por hora, mas talvez silenciosa demais para quem a conhecia de verdade, numa manhã de domingo.

Assim que desceu do carro, sentiu o ar fresco da manhã bater no rosto. Deu uma última conferida no relógio e começou a correr. O corpo respondeu rápido, como sempre. Quinze minutos se passaram sem esforço, até que ela diminuiu o ritmo para comprar uma água em um dos quiosques.

Foi nesse instante que percebeu os olhares.

Mesmo cedo, mesmo sem maquiagem, mesmo vestida de forma simples, havia sempre alguém que reconhecia. Um casal se aproximou, hesitante, como se precisasse confirmar o que já sabia.

— Desculpe, mas... você não é a Juquinha?

Eduarda riu, um riso aberto, quase automático.

— Sou eu mesma.

Eduarda Fragoso vinha de uma família de artistas tradicionais, daquelas que faziam parte do imaginário cultural da alta sociedade paulistana.

Fora do ScriptWhere stories live. Discover now