O som dos pneus da van brilhante raspando no asfalto furado ecoou pela rua estreita. Agnes agarrou o braço de Felix, seus olhos arregalados ao observar as casas baixas, as varandas cheias de panelas e crianças correndo pela calçada sem chuteira.
— Fê, a gente realmente tá no lugar certo? — sussurrou ela, mexendo no laço do seu vestido branco.
Felix ajustou os óculos na ponta do nariz, seu cachecol bege despencando sobre o casaco de lã. Ele olhou para o celular, verificando o endereço pela décima vez.
— O aplicativo diz que é aqui mesmo. A lojinha de artesanato da tia Mi-young... Dizem que tem peças únicas. — Sua voz era calma, mas seus dedos estavam trêmulos ao abrir a porta da van.
Enquanto os dois desciam, o barulho de uma música alta vinha de uma esquina. Changbin ajustava a caixa de som sobre um carrinho de mão, enquanto Hyunjin arrumava algumas pulseiras e pingentes em um pano estendido no chão. Ao ver os dois garotos de roupas cuidadosas chegando, Changbin franziu a testa, passando a mão pelo cabelo cacheado e grudado no rosto pelo suor.
— Cuidado aí, Hyunjin... Parecem perdidos — comentou ele, baixando o volume da música um pouco.
Agnes parou de repente, seus olhos grudando no display de jóias. Mas foi quando olhou para Changbin que sentiu uma pontada no estômago — ali, naquele canto da periferia, com o sol batendo forte no seu rosto marcado, ele parecia mais real do que qualquer coisa que ela já havia visto...
Felix já estava entregue aos quitutes coloridos da lojinha, colocando pulseiras de miçangas, porta-chaves em formato de gato e até um tapete pequeno com flores bordadas no carrinho.
— Agnes, olha só esse porta-jóias! Ele tem formato de lua! — exclamou ele, seus olhos brilhando por entre os óculos.
Ela sorriu suavemente, ajustando o cachecol do irmão que estava descolando novamente.
— É muito fofo, Fê. Mas vamos não exagerar não, mãe já vai ficar louca se a van voltar cheia de coisas novas — avisou, mas sem tirar o tom carinhoso. Os seus olhos varriam constantemente o ambiente: as pessoas que passavam na rua, os barulhos vindos da esquina, tudo sob seu cuidado.
Ao sair um pouco para dar espaço para outra cliente dentro da loja, seus olhos acabaram cruzando com os de Changbin, que estava observando o par de irmãos com uma expressão misturada de desconfiança e curiosidade. Ele deu de ombros, piscando devagar, como se estivesse desafiando ela a olhar para baixo primeiro.
Mas Agnes não desviou o olhar. Seu rosto permaneceu sério, firme, mesmo que dentro dela sentisse aquela mesma pontada estranha. Quando ele deu um leve sorrisinho de canto, ela só franziu a testa e virou para dentro da loja, indo ajudar Felix a organizar as coisas no carrinho.
— Vamos pagar logo, irmão. Acho que vai chover — disse ela, mas seus olhos voltaram rapidamente para a esquina, só para ver que Changbin já estava de volta a arrumar suas mercadorias, agora com Hyunjin ao seu lado, que parecia ter acabado de chegar com algo embrulhado em papel preto...
Hyunjin chegou caminhando devagar, segurando um pacote embrulhado e olhando ao redor com cuidado. Mas quando seus olhos caíram em Felix, que estava sorrindo enquanto arrumava um par de brincos no carrinho, ele parou no meio do caminho — o pacote quase escorregando das mãos.
Ele já havia visto gente "de fora" por ali, mas nunca ninguém com aquele brilho nos olhos, com cabelos claros que pareciam brilhar mesmo na sombra. A forma como Felix tratava cada peça com tanto carinho, como se fossem preciosidades, deixou Hyunjin completamente paralisado.
Changbin percebeu a demora do amigo e olhou na mesma direção, revirando os olhos baixinho.
— Ei, volte à realidade aí. O que você acha que está fazendo? — sussurrou, cutucando o ombro dele.
Hyunjin piscou algumas vezes, finalmente conseguindo desviar o olhar e chegar até o carrinho. Ele colocou o pacote de lado, mas seus olhos voltavam sozinhos para Felix, que agora estava conversando com a dona da loja, gesticulando com as mãos de forma delicada.
— Nada... só achei que ele parecia familiar — mentiu ele, começando a arrumar as pulseiras que haviam caído. Mas seu rosto estava um pouco mais avermelhado, e ele mal conseguia se concentrar no que estava fazendo.
Dentro da loja, Agnes tinha visto a troca de olhares. Ela apertou o braço de Felix levemente, chamando a atenção dele.
— Vamos pagar mesmo, Fê. Eu não gosto muito dessa vibe por aqui — disse ela, ainda observando os dois garotos na esquina. Felix acenou com a cabeça, mas antes de virar, seus olhos cruzaram brevemente com os de Hyunjin — e ele sentiu uma estranha sensação de calor subindo pelo pescoço...
