esqueci de te esquecer

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Esqueci De
Te Esquecer
Escrito e ilustrado por:
Dominik


Capítulo 1 - Fita.

Numa manhã, o sol da Itália atravessava as frestas de uma persiana, lançando feixes dourados sobre o lençol amassado. Um silêncio desconfortável pairava no quarto, interrompido apenas pelo som sutil da respiração de dois estranhos.
Ela abriu os olhos primeiro. Franziu o cenho, confusa. Não reconhecia o teto acima de si, tampouco o toque do lençol contra a pele. Quando se virou, viu o homem ao seu lado - deitado, cabelos escuros bagunçados, expressão serena.
Ela sentou-se devagar, puxando o lençol até o peito. Seus cabelos ruivos, desgrenhados, caíam sobre os ombros, e os olhos verdes, arregalados, percorriam cada canto do quarto em busca de algo familiar.
- Ei... - murmurou, com hesitação.
O homem acordou com um sobressalto, olhos arregalados, como se tivesse emergido de um pesadelo. Ele a encarou com a mesma estranheza que ela sentia.
- Onde... onde a gente tá? Quem é você?
- Não sei onde estamos. - Ela balançou a cabeça, engolindo em seco. - Meu nome é Isabel... Mas eu não faço ideia de quem é você.
Ele passou a mão no rosto, tentando se concentrar.
- Eu sou o Lorenzo. Mas... eu também não te conheço.
Eles trocaram um olhar longo, carregado de incerteza. Não havia desespero, só uma angústia muda, quase solene, como se soubessem que aquilo não era um simples esquecimento.
Sobre o criado-mudo, repousava uma fita VHS. Havia um post-it colado nela, escrito em letras firmes: "Assista."
- Isso estava ali. Talvez ajude... - disse Isabel, pegando a fita com dedos trêmulos.
Levantaram-se em silêncio. As roupas no chão pareciam ter sido tiradas com pressa. Lorenzo vestiu uma camisa social branca, amarrotada. Isabel achou um vestido claro, leve, que cheirava a maresia.
Na sala, encontraram um antigo videocassete sob uma televisão de tubo. Lorenzo empurrou a fita. A tela chiou por alguns segundos, até surgir a imagem - granulada, desbotada.
Era uma praia. O mar dançava ao fundo. E então, ali estavam eles. Sorrindo. Isabel, com o mesmo cabelo ruivo preso num coque, usava o vestido que agora tinha no corpo. Lorenzo, de terno claro, segurava sua mão com um brilho nos olhos.
"Promete me amar mesmo se um dia eu esquecer seu nome?" - dizia a voz dela na gravação, entre risos.
"Prometo. E você?" - respondeu ele.
"Eu também. Mesmo que tudo apague, eu vou encontrar você de novo."
A fita continuava, mas eles já não viam. Só se olhavam, boquiabertos. O peso daquela revelação os atravessava como um trovão silencioso.
- A gente... é casado? - murmurou Lorenzo.
Isabel levou a mão à boca, tentando conter o choro. Os olhos tremiam.
- Por que eu não lembro de você?
Na fita, os dois se beijavam sob o céu dourado. No sofá, os dois se encaravam - como estranhos que se amaram um dia.
O silêncio se estendeu entre eles por longos segundos, como se as palavras estivessem presas entre a garganta e o coração. Na tela, o vídeo já havia parado. A fita chiava, voltando automaticamente ao início. Mas nenhum dos dois se mexeu.
- Como é possível... - murmurou Isabel, a voz embargada - esquecer algo assim?
Ela se levantou devagar, os olhos ainda fixos na imagem congelada da televisão. Seu rosto sorridente no vídeo parecia pertencer a outra mulher. Uma versão dela que ela não reconhecia, mas que sentia algo... familiar.
- Isso parecia tão certo. Tão verdadeiro - ela disse, virando-se para Lorenzo. - E agora somos dois estranhos dividindo o mesmo teto e um passado que não lembramos.
Lorenzo mantinha-se de pé, os braços cruzados, como se quisesse manter uma distância segura do que sentia.
- Há explicações lógicas pra isso - disse, num tom controlado. - Algum tipo de trauma, intoxicação, algo químico ou induzido... Não é natural esquecer uma pessoa, mas lembrar do próprio nome, da própria língua, hábitos... Isso foi seletivo.
Isabel respirou fundo, olhando em volta pela primeira vez com atenção. O apartamento era simples, aconchegante. Havia livros, alguns quadros, objetos que pareciam escolhidos a dedo - e nenhum retrato dos dois juntos.
- Que horas são? - perguntou ela de repente.
Olhou para o celular sobre o aparador. Estava carregado. Ligou-o. Na tela, uma enxurrada de notificações.
- Isabel? - perguntou Lorenzo, arqueando uma sobrancelha. - Você lembrou de algo?
- Não, eu só... Ainda são sete horas. - Ela deslizou o dedo pela tela. - Tenho uma mensagem... é da minha amiga Sofia. De ontem à noite, eu... eu ia encontrá-la hoje. Ela escreveu: "Espero que ainda esteja de pé! Quero te falar sobre o novo trabalho, vê se não me dá um bolo de novo."
Lorenzo se aproximou, lendo por cima do ombro dela.
- Ela pode saber de algo. Talvez tenha estado com você antes disso acontecer.
Isabel assentiu, mas seus olhos se encheram de dúvidas.
- Lorenzo... e se alguém fez isso com a gente? E se foi... proposital?
Ele olhou para ela, sério. Os olhos escuros frios, como se estivesse processando mil teorias.
- É exatamente o que eu estou pensando. Mas não adianta correr com suposições. Precisamos de fatos. Horários, ligações, rastros. Se Sofia viu algo estranho, pode nos dar uma linha de partida.
- Você fala como um policial...
- Eu sou advogado - respondeu. - E já vi muita coisa sem sentido. Isso aqui parece mais um caso do que um acidente.
Isabel sorriu pela primeira vez. Um sorriso frágil, mas verdadeiro.
- Eu sou artista. Costumo confiar no instinto. No que sinto... E por mais estranho que pareça, mesmo sem te conhecer... tem algo em você que me dá paz.
Lorenzo não respondeu. Mas seu olhar suavizou.
- Podemos descobrir isso. Juntos. Só não podemos deixar as emoções atrapalharem a investigação.
- E se as emoções forem parte da resposta?
Ele hesitou.
- Então que venham... com cautela.
Ela olhou de novo para o celular.
- Vou me encontrar com a Sofia. Talvez ela nos ajude a saber o que houve, ou o que nos foi tirado.
Isabel passou a mão pelos cabelos, ainda atordoada. - Ela é minha melhor amiga. Talvez possa me ajudar a entender o que está acontecendo.
Isabel ajeitou os cabelos ruivos em frente ao espelho da entrada, ainda em silêncio. Lorenzo observava de longe, com as mãos no bolso e o olhar perdido no nada.
- Vai encontrar com ela sozinha? - perguntou, quebrando o silêncio.
- Sim... - respondeu Isabel, pegando a bolsa. - Acho que preciso de um tempo pra digerir isso. E talvez seja melhor assim, ela me conhece, talvez me ajude a lembrar quem eu era antes de tudo.
Lorenzo estava de pé, imóvel, os olhos fixos nela.
- Não acho que seja seguro.
- Você acha que ela me faria mal? - ela retrucou, franzindo a testa.
- Não. Mas nós dois estamos expostos, Isabel. Sem memória, sem saber quem confiar. A fita mostrou que éramos... próximos.
Ela desviou o olhar, apertando os dedos uns contra os outros.
- E o que você quer que eu faça? Fique trancada aqui?
Ele deu um passo à frente, sério, mas com a voz calma.
- Quero que você volte pra cá depois de ver sua amiga. Quero que a gente investigue isso juntos. É o mais prudente.
Isabel o encarou, tentando decifrar se havia algum sentimento por trás daquela lógica.
- E se eu não quiser?
- Não vou te forçar a nada. - ele disse, firme. - A decisão é sua. Mas pense com calma. Dois desconhecidos tentando entender por que esqueceram tudo, talvez não seja tão ruim estarmos no mesmo lado.
Ela mordeu o lábio, pensativa. No fundo, já tinha decidido.
"Tudo bem", pensou, olhando para ele antes de sair. "Vamos descobrir isso juntos."
Ela se virou para ele novamente, hesitante.
- Você vai ficar bem?
- Eu vou aproveitar pra vasculhar a casa, ver se descubro alguma coisa. Se não for voltar, pode me ligar se descobrir algo com sua amiga?
Ela assentiu. Abriu a porta e parou por um segundo antes de sair.
- Lorenzo... mesmo sem te conhecer, obrigada por não me fazer sentir sozinha nisso.
Ele não respondeu de imediato. Apenas a olhou com um misto de distância e cuidado, como alguém que não sabia amar - mas tentava.
- Cuide-se, Isabel.
Assim que ela saiu e o silêncio voltou a tomar conta do lugar, Lorenzo caminhou até a cozinha. Fez um café forte, do jeito que sempre gostou, sem saber exatamente como sabia disso. Sentou-se à mesa. O aroma amargo parecia trazer uma falsa sensação de normalidade.
O celular vibrou.
PAOLO - dizia a tela.
Ele atendeu de imediato.
- Fala.
Do outro lado, uma voz tensa e abafada:
- Finalmente! Onde você tá?
Lorenzo olhou pela janela, como se pudesse encontrar a resposta do lado de fora.
- Tive um imprevisto.
- O chefe tá perguntando por você. Tá atrasado, Lorenzo. Muito. E ele não tá com cara de quem vai aceitar desculpa.
Lorenzo manteve o tom frio.
- Tô indo. Preciso falar com você antes. A sós.
Do outro lado da linha, um breve silêncio.
- Isso é sério?
- Bastante.
Paolo respirou fundo. Sua voz veio mais baixa:
- Te encontro no galpão velho, então. Quinze minutos. Não mais que isso.
A ligação caiu sem despedidas.
Lorenzo largou o celular sobre a mesa. O café agora parecia amargo demais. Seus olhos passearam pela sala novamente - o videocassete, a fita e a ausência total de qualquer lembrança confiável.
Ele terminou o café em um gole só, ignorando o gosto, e seguiu para o quarto. Abriu o guarda-roupa. Precisava se vestir como Lorenzo. - O advogado - mas pensar sobre Lorenzo. - O outro. O homem que nem ele mesmo conhecia mais, o homem que se casou com a bela moça ruiva.

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⏰ Terakhir diperbarui: Jan 21 ⏰

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