Eu sempre fui da igreja desde pequena.
Daquelas que participavam de tudo. Missa, evento, escala, ensaio. A igreja era quase uma extensão da minha casa.
Minha mãe é ministra da Eucaristia. Sempre foi exemplo. Sempre me ensinou o que era certo, o que era fé, o que era respeito. Cresci ouvindo a verdade e acreditando nela.
Desde criança, também fiz parte do coral. Cantei por anos, até o coral acabar. E quando ele voltou, depois de muito tempo, eu voltei junto. Só que já não era mais criança.
Eu já era adolescente.
E foi aí que tudo começou a mudar.
Na adolescência, tudo ganha outra cor. Outro peso. Outro sentido. Os sentimentos ficam mais altos que a música, e os pensamentos... mais difíceis de controlar. Eu continuava indo à igreja, cantando, ensaiando com roupa normal, ajudando, servindo. Por fora, nada tinha mudado.
Por dentro, tudo.
Teve um dia específico. Não foi algo grande, nem escandaloso. Foi silencioso. Um pensamento. Um olhar que durou mais do que devia. Uma sensação estranha que eu não sabia nomear. Enquanto a música tocava, eu já não pensava só na letra.
Eu pensei em coisas que não combinavam com aquele lugar.
E foi confuso. Porque eu não queria. Eu não planejei. Simplesmente aconteceu. De repente, eu estava ali, no ensaio do coral, e ao mesmo tempo lutando contra pensamentos que pareciam proibidos.
Eu me perguntava se aquilo era pecado ou só crescimento.
Se era falta de fé ou excesso de humanidade.
Comecei a rir sozinha de situações absurdas e, logo depois, sentir culpa por ter rido. Comecei a perceber que dava pra amar a Deus e ainda assim sentir coisas que não cabiam no manual.
A adolescência chegou sem pedir licença. E trouxe perguntas que ninguém ensinou a responder.
Eu continuava servindo. Continuava rezando. Continuava sendo vista como exemplo. Mas dentro de mim, algo tinha virado uma chave.
Eu não tinha deixado de acreditar.
Eu só tinha começado a sentir.
E foi aí que eu entendi:
o caos não começou quando eu cresci dentro dela
Ele começou quando eu fiz coisas dentro dela...
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"O Caminho de Volta"
Non-FictionEssa não é uma história de santidade. É um testemunho. Um relato real sobre fé, escolhas erradas, culpa e silêncio. Sobre cair onde achavam que eu era exemplo. Sobre me afastar achando que tinha perdido tudo. Mas também é sobre graça. Sobre um Deus...
