Hawkins, 1987.
A umidade parecia se infiltrar nas paredes da casa dos Wheeler, trazendo consigo aquele cheiro de mofo e madeira velha que Will Byers associaria para sempre ao porão. Mas o verdadeiro desconforto não vinha do ambiente, e sim do vácuo emocional que se abria toda vez que Mike Wheeler ria.
Will estava sentado no sofá marrom desbotado, com os joelhos encolhidos contra o peito. No centro da mesa, o tabuleiro de D&D estava montado, mas a campanha estava estagnada. Mike e Eleven estavam em um canto, dividindo um par de fones de ouvido do walkman, rindo de algo que só eles podiam ouvir.
Will olhou para o seu caderno de desenhos, aberto em uma página em branco. Ele tentou traçar o contorno de um castelo, mas sua mão tremia levemente. Ele se sentia um fantasma. Um resíduo de uma infância que Mike parecia ansioso em deixar para trás. Aos 17 anos, Will ainda se sentia o "garoto desaparecido", mas desta vez, ninguém estava organizando grupos de busca.
— Eu acho que vou para casa — murmurou Will. Sua voz mal cortou a música que saía dos fones de Mike.
Mike levantou os olhos, confuso por um segundo, como se estivesse processando quem estava falando. — O quê? Mas a gente ia tentar a sala do trono hoje, Will.
— Eu estou cansado, Mike. E tenho muita lição — mentiu Will, fechando o caderno com um estalo seco.
— Tá bom, cara. A gente se vê amanhã na escola? — Mike já estava voltando a atenção para Eleven antes mesmo de Will terminar de levantar.
— É... amanhã.
Will subiu as escadas sentindo um peso nos ombros que parecia físico. Ele saiu pela porta da frente e parou no topo da varanda, respirando o ar gelado que queimava seus pulmões. Ele não tinha bicicleta; Jonathan tinha ficado de buscá-lo após o turno no jornal, mas ainda faltava uma hora.
Foi então que ele viu a BMW 733i estacionada. Steve Harrington estava lá dentro, com a luz interna do carro acesa, batendo uma caneta contra o volante enquanto lia um calhamaço de papéis grampeados. Steve tinha 20 anos agora e, para Will, ele parecia viver em um planeta completamente diferente. Um planeta onde as pessoas eram seguras, bonitas e sabiam para onde estavam indo.
Steve levantou os olhos e viu Will parado na varanda, parecendo pequeno sob a luz amarela do poste. Ele baixou o vidro.
— O Jonathan vai atrasar, Byers. O pneu daquela lata de velha dele furou perto do jornal — gritou Steve. — Entra aí. Eu te levo.
Will hesitou. Ele e Steve nunca foram exatamente próximos. Eram apenas satélites que orbitavam o mesmo grupo. Mas o frio estava ficando insuportável. Ele desceu os degraus e entrou no carro, que cheirava a couro e a um perfume amadeirado que Will não soube identificar.
O silêncio no carro era denso. Steve deu a partida e começou a dirigir devagar pelas ruas escuras de Hawkins. Ele notou que Will mantinha o caderno de desenhos apertado contra o peito, quase como uma armadura.
— Noite difícil com o grupo? — Steve perguntou, tentando quebrar o gelo.
— O de sempre — Will respondeu, olhando pela janela. — Eles cresceram. Eu acho que eu fiquei para trás.
Steve soltou uma risada curta, sem muito humor. — Eu sei como é. Eu passei o meu último ano de escola sendo o "rei" de nada, assistindo a Nancy e o seu irmão se tornarem... bem, o que eles são. Dói ver a pessoa que a gente gosta seguir em frente enquanto a gente está preso no mesmo lugar, não é?
Will gelou. Ele se virou para Steve, o coração batendo rápido. — Do que você está falando?
— Qual é, Will? Eu sou um idiota, mas não sou cego. Eu vejo como você olha para o Wheeler. E vejo como ele olha para a Eleven. É uma droga de se assistir, eu sei.
Will sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, a humilhação de ser descoberto por Steve Harrington sendo maior do que a própria dor. — Você não entende.
— Eu entendo de rejeição, garoto. Acredite em mim — Steve estacionou o carro em frente à casa dos Byers, mas não destravou as portas. Ele apontou para o caderno. — O que tem aí? Monstros de novo?
— Não. Só... rabiscos.
— Deixa eu ver.
— Não! — Will recuou, mas Steve foi mais rápido, puxando o caderno de leve.
Will tentou segurar, mas uma folha solta caiu no chão do carro. Steve a pegou. Não era um monstro. Era um esboço rápido de uma figura humana, um estudo de mãos e rostos que mostrava um talento técnico que Steve não esperava encontrar em um garoto de Hawkins.
— Caramba, Will... isso é... — Steve franziu a testa, analisando o traço. — Por que você está escondendo isso? Isso aqui é nível profissional. Você quer fazer o quê? Design? Belas artes?
— Eu não sei. Minha mãe acha que é só um hobby. E o Mike diz que eu deveria focar em coisas mais "úteis" para a nossa campanha.
Steve bufou, devolvendo o desenho com uma expressão de desdém.
— O Wheeler não sabe de nada. Ele é um moleque. Escuta, eu estou na faculdade de Direito agora. É um inferno de leitura e papelada. Mas eu vejo os caras das artes no campus. Eles são diferentes. Eles têm uma vida que a gente nem imagina aqui em Hawkins.
Will olhou para os próprios dedos sujos de grafite.
— Eu nunca vou sair daqui, Steve.
— Vai sim. Se você quiser, você vai. — Steve destravou as portas. — Olha, eu vou estar na biblioteca da cidade amanhã à tarde revisando uns casos. Se você quiser um lugar onde o Wheeler não vá te amolar e onde você possa desenhar ou estudar de verdade... eu estarei lá.
Will saiu do carro, confuso. Ele esperava que Steve fizesse uma piada, ou que contasse para o Jonathan, mas Steve apenas acenou e arrancou com o carro.
Naquela noite, Will não conseguiu dormir. Ele olhou para o próprio reflexo no espelho: o cabelo de tigela, as roupas largas que o faziam parecer uma criança, os olhos cansados de quem chorava escondido. Ele se sentia patético.
Mas, pela primeira vez, alguém não tinha olhado para ele com pena. Steve Harrington tinha olhado para o desenho dele e visto algo que valia a pena.
Foi um começo minúsculo, quase imperceptível. Will ainda amava Mike com cada fibra do seu ser, e o pensamento de Mike beijando Eleven ainda o fazia querer sumir da terra. Mas, enquanto guardava o caderno na mochila para o dia seguinte, ele pensou na biblioteca. Pensou em Steve, o cara que também tinha sido deixado para trás, e sentiu uma pontada de algo que ele não sentia há muito tempo.
Não era esperança. Ainda não. Era apenas curiosidade.
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O ESPECTRO DAS CORES
FanfictionHawkins, 1987. Will Byers completou 17 anos e sente que é um fantasma em sua própria vida. Enquanto Mike e Eleven vivem o ápice de seu romance, Will se afunda na melancolia de um amor não correspondido e na sensação de estar estagnado no tempo. Tudo...
