Sangue Nao Cai do Céu

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O problema do sangue é que ele sempre conta a verdade.
Não importa se você mente, corre ou finge ser algo melhor. Quando ele escorre, revela tudo. Medo. Raiva. Desejo. Culpa. Principalmente culpa.
Meu nome não importa.
Nomes são só etiquetas para cadáveres futuros.
Mas eles me chamam de Hemogen.
A primeira coisa que senti quando acordei foi dor. Não aquela dor limpa de um soco bem dado. Era algo mais íntimo, como se meu corpo estivesse se lembrando de algo que minha mente ainda não tinha coragem de encarar.
Abri os olhos no chão de um quarto que não parecia meu, mas cheirava como se fosse. Metal, álcool barato, suor seco e sangue antigo. Sempre tem sangue antigo. Ele nunca vai embora de verdade.
Levantei devagar. Regeneração ajuda, claro, mas não faz milagres. Os ossos voltam ao lugar, a carne se fecha… a memória não.
Ela fica.
Ela morde.
No espelho rachado da parede, vi o que sempre vejo. Um homem que parece inteiro demais para alguém tão quebrado. Olhos atentos demais. Um sorriso que não combina com boas intenções. Jaqueta de couro longa pendurada numa cadeira, como se estivesse esperando que eu decidisse se ainda merecia usá-la.
Vesti. Porque monstros também precisam de uniforme.
Meus sentidos estavam ligados no máximo. Audição captando o zumbido distante da cidade, olfato denunciando três pessoas no prédio ao lado, coração batendo num ritmo que não era exatamente humano. Força voltando aos poucos. Não infinita. Nunca infinita. Só o suficiente para dar errado se eu exagerar.
Esse é o meu limite.
Eu sangro.
Eu canso.
Eu quebro.
Só não morro fácil.
A memória veio como um soco atrasado. Um beco. Gritos. Um erro de cálculo. Subestimar alguém sempre custa caro. Às vezes custa pele. Às vezes custa alguém que você prometeu proteger.
Fechei os olhos por um segundo. Promessas são outro tipo de vício.
Lá fora, sirenes. Sempre elas. A trilha sonora da cidade tentando fingir que ainda existe ordem. Ri sozinho. Um riso curto, sem humor suficiente para enganar ninguém.
Não sou herói. Nunca fui.
Mas também não sou o vilão que eles querem.
Sou o que sobra quando o mundo cria algo errado e decide apontar o dedo depois.
Peguei meus anéis, encaixei nos dedos. Caveiras. Ouro. Prata escura. Pequenos lembretes de que tudo termina igual. Conferi as unhas, um pouco longas demais. Detalhes importam quando você luta de perto.
Antes de sair, olhei de novo para o espelho.
— Se for pra continuar — murmurei — vai ser do meu jeito.
Abri a porta. A noite me recebeu como uma velha amante que sabe exatamente onde tocar.
E enquanto descia as escadas, com o corpo pronto e a mente em guerra, uma certeza se firmou como um juramento silencioso:
O jogo não acabou.
Ele só estava começando.
Que o jogo comece.

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