𝘤𝘩𝘢𝘱𝘵𝘦𝘳 𝟣

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Com o vento, os cachos ruivos da jovem Ofélia voavam desordenados, atravessando sua visão. Às vezes, sentia-se como uma górgona — como se carregasse cobras inquietas no lugar dos cabelos.

Caminhava passo após passo pelo caminho coberto de folhas secas, carregando uma cesta com roupas suas e de sua família para lavar no lago próximo, muito famoso no pequeno vilarejo.

O vento batia contra seu peito, atravessando o tecido fino que cobria seu corpo e fazendo sua saia se agitar sem controle. A estrada de barro tingia seus calçados de um laranja escuro.

Mas nada disso importava. Sua mente estava longe demais.

Pensamentos densos e persistentes se acumulavam como neblina. Um vendaval interno de medo, ansiedade, palavras não ditas — e raiva. Raiva de si mesma.

Como  aceitou seguir esse caminho?
O que tinha na cabeça? poderia ter negado.
poderia ter recuado.

A mesma voz que perguntava respondia em silêncio:

Isso é simplesmente fascinante.
Não há como voltar atrás.
Não estou fazendo nada de errado... pelo menos aos olhos sinceros.

Por que as pessoas eram tão cruéis e intolerantes?
Era uma pergunta sem resposta quando percebeu que havia chegado ao seu destino.

O lago.

A água era verde — um verde lodoso. Folhas das árvores próximas boiavam na superfície, sendo as únicas a ousar chamar aquele lugar de lar. Nenhuma alma se atrevia a se instalar sob aquela água aparentemente pura. Os cardumes de peixes que tentaram sobreviver ali jamais duravam muito: no máximo alguns dias, nunca chegando a completar uma semana.

Era um mistério.
Mas Ofélia não se importava.

Ajoelhou-se às margens do lago, sem vontade — apenas por obrigação — e começou a molhar os tecidos de cores diversas. Estava aflita. Esfregava as peças com força excessiva, amassando o pano entre os punhos tensos.

Incerta, apertou os olhos esmeralda quando as lágrimas ameaçaram cair. Sabia qual seria seu fim se descobrissem a verdade: acabaria queimada viva ao revelarem que a pequena Ofélia, de apenas dezesseis anos, era uma bruxa.

Ela não fazia nada de errado. Apenas... vivia de forma diferente. Pensava diferente.
Em algum momento eles descobriram. E ela sentia — a revelação estava próxima. Mais próxima do que gostaria.

As ondas formadas pelo movimento brusco de seus braços tornavam-se cada vez mais intensas, espelhando o redemoinho dentro de si. E se seus pais descobrissem? Como reagiriam? Iriam entregá-la? Ou a protegem por ser sua filha? improvável.

Perdida em pensamentos, Ofélia não ouviu quando um suspiro baixo ecoou pela floresta silenciosa.

Então veio o assobio. Era contínuo. Calmo.

A garota se levantou lentamente, soltando a camisa que lavava sobre a água verde. Olhou ao redor e passou a mão pela saia, limpando as folhas grudadas no tecido.

Relutante, começou a caminhar ao redor do lago, procurando a origem daquele som quase encantador. Com os olhos semicerrados e as sobrancelhas franzidas em concentração, percebeu que da floresta vinham apenas sons comuns: árvores balançando, folhas caindo, alguns pássaros cantando.

Mas o assobio... Não era como o canto de um pássaro.

Era mais forte. Mais limpo. Humano demais.

E então entendeu.

O som não vinha da floresta.
Vinha do lago.

Ofélia se aproximou das margens. Quanto mais perto chegava, mais intenso o som se tornava. Um arrepio percorreu sua espinha quando percebeu que a água já ondulava na altura de seus joelhos.

O contraste entre seu corpo quente e a água gelada a fez estremecer. A saia molhada boiava na superfície, e as pedras sob seus sapatos de couro fino eram desconfortáveis. Algo em seu coração implorava para que voltasse para casa. Para que nunca mais se aproximasse daquele lago.

Mas nada disso importava.

O assobio agora parecia ser produzido diretamente contra seu ouvido.
Ofélia baixou o olhar para a água e jurou ter visto a silhueta ondulante de uma mulher — que logo desapareceu.

Por um breve instante, a razão tentou se impor. Questionou o que estava fazendo. Mas seu corpo já não obedecia.

Caminhou até o meio do lago, o nível da água subindo até o umbigo. As palavras em sua mente se embaralhavam, tornando-se moinhos sem sentido. Não sentia mais nada.

O mundo silenciou.

O som das árvores cessou. O canto dos pássaros se calou. Tudo se curvou diante do assobio desconhecido.

Soava como um chamado.
Como se dissesse: venha, mergulhe, não tenha medo de descobrir o que se esconde sob as águas.

Sem forças para resistir, Ofélia começou a se abaixar. Pupilas dilatadas. Lábios entreabertos. Respiração curta. A mente apagada.

A água já tocava seu queixo quando uma voz firme e aveludada cortou a hipnose junto com o vento.

— Ofélia!

Ela despertou do transe ao ouvir a voz da irmã mais velha se aproximando. Confusa, balançou a cabeça, tentando organizar os pensamentos desconexos.

Começou a recuar, voltando para fora do lago. Mas não deu tempo.

Olívia já havia chegado.

                                                                           ♢-------------♢

O Lago das Almas começou como um exercício de escrita... e acabou crescendo mais do que eu imaginava.

Essa é uma história sobre perdas, silêncios e coisas que não conseguimos salvar — mesmo quando amamos muito. Sobre família, culpa e heranças que não pedimos para carregar.

Se você decidir entrar nesse lago comigo, saiba: algumas águas são frias, algumas verdades doem... mas toda leitura aqui foi escrita com cuidado.

Seja muito bem-vindo(a).

O LAGO DAS ALMASStories to obsess over. Discover now