A estrada serpenteava entre colinas cobertas de verde intenso, aquele tipo de paisagem que Claire sempre associara à liberdade: ampla, silenciosa, sem as urgências sufocantes da cidade. Ela dirigia com as janelas abertas, o vento bagunçando os cabelos castanhos, a playlist no shuffle tocando canções às quais mal prestava atenção. A mente estava em outro lugar.
A mãe casou.
Três palavras que ainda soavam estranhas, mesmo meses depois do casamento. Não que Claire se opusesse. Longe disso. Nora merecia ser feliz. Depois de anos sozinha, construindo a própria vida com a força silenciosa que sempre a definiu, merecia alguém que a olhasse como Érico olhava, com adoração genuína, sem reservas.
Mas ainda era… diferente.
A casa apareceu ao fim da curva. Ampla, de pedra clara e madeira escura, cercada por árvores antigas que projetavam sombras dançantes no gramado impecável. Era bonita de um jeito discreto, elegante sem ser ostentosa. Exatamente o estilo dele, pensou Claire, lembrando das poucas videochamadas em que conhecera Érico.
O homem era tudo que sua mãe merecia: refinado, atencioso, com aquela maturidade tranquila de quem já sabia exatamente quem era. Cinquenta e poucos anos bem vividos, cabelos grisalhos perfeitamente cortados, sorriso gentil que iluminava os olhos. Claire gostara dele imediatamente, o que, considerando seu histórico de desconfiança com figuras paternas, era impressionante.
Estacionou na frente da casa, desligou o motor e, por um momento, ficou ali, apenas respirando.
Você consegue. É só um fim de semana. Conhecer melhor o padrasto, relaxar, voltar para Cornell na segunda.
Simples.
Nora apareceu na varanda antes mesmo que Claire saísse do carro, praticamente correndo escada abaixo com energia de adolescente.
— Minha filha! — gritou, os braços já abertos.
Claire riu, genuína, e deixou-se ser envolvida naquele abraço apertado que cheirava a lavanda e bolo recém-assado, o cheiro da infância, da segurança, de casa.
— Oi, mãe.
— Olha você! — Nora se afastou apenas o suficiente para examiná-la, as mãos segurando os ombros da filha. — Está linda. Faculdade está te fazendo bem.
— Ou me matando devagar. Difícil dizer. — Claire sorriu, pegando a mochila do banco de trás.
— Vem, vem! Érico está ansioso para te ver pessoalmente. — Nora a puxou pelo braço, a empolgação palpável. — Ele preparou aquele quarto que tem vista para o lago. Disse que você ia gostar.
A casa por dentro era ainda mais impressionante que por fora. Ampla, cheia de luz natural, com aquele equilíbrio perfeito entre rústico e sofisticado. Madeira e pedra, mas também arte moderna nas paredes, livros por todos os lados, plantas que pareciam genuinamente cuidadas.
Érico apareceu da cozinha, secando as mãos num pano de prato, o sorriso caloroso.
— Claire! Finalmente pessoalmente. — Ele se aproximou, estendendo a mão, mas Nora revirou os olhos.
— Érico, pelo amor de Deus, ela é praticamente sua filha agora. Abraça a menina!
Ele riu, envergonhado, mas encantado, e puxou Claire para um abraço breve e sincero.
— Bem-vinda à nossa casa. Ou melhor, à sua casa também agora.
— Obrigada. — Claire sentiu algo amolecer no peito. — A casa é linda.
— Ah, isso é mérito da sua mãe. Ela que decorou tudo. Eu só pago as contas. — Ele piscou, provocando Nora, que deu um tapa leve no braço dele.
Os três riram, e Claire percebeu algo reconfortante: eles eram felizes. Genuinamente. Aquele tipo de felicidade madura, confortável, sem drama ou urgência. Apenas contentamento.
Ela merece isso, pensou Claire, observando a forma como Érico olhava para Nora, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo.
— Você deve estar cansada da viagem — disse Nora. — Quer descansar? Ou está com fome? Fiz aquele seu bolo favorito.
— Mãe, você não precisava—
— Claro que precisava! É sua primeira visita como parte oficial da família.
Claire sorriu, deixando-se ser mimada, e seguiu a mãe escada acima, enquanto Érico voltava para a cozinha, murmurando algo sobre verificar o jantar.
O quarto era perfeito. Espaçoso, com cama enorme coberta por lençóis brancos impecáveis, uma poltrona de leitura perto da janela e a vista prometida: o lago cintilando ao longe entre as árvores.
— Érico escolheu pessoalmente — disse Nora, ajustando as cortinas. — Disse que você ia gostar da luz natural pela manhã.
— Ele acertou. — Claire largou a mochila, aproximando-se da janela. A vista era de tirar o fôlego. — Vocês realmente encontraram o paraíso aqui.
Nora se juntou a ela, apoiando a cabeça no ombro da filha.
— Encontrei mais que isso. Encontrei paz. — Uma pausa. — Você sabe que ele tem um filho, né?
Claire assentiu.
— Você mencionou. Harry, certo? Advogado em Manhattan.
— Isso. Ele é… — Nora hesitou, buscando palavras. — Impressionante. Muito inteligente, bem-sucedido, mas também reservado. Não vem muito aqui. Sempre ocupado com trabalho.
— Workaholic?
— Dedicado — corrigiu Nora, diplomática. — Mas Érico sente falta dele. Espero que vocês possam se conhecer em algum momento. Seria bom para Érico ver vocês dois se dando bem.
Claire sorriu, sem dar muita importância.
— Claro. Se ele aparecer, vou ser educada e tudo mais.
— Sei que vai. — Nora beijou o topo da cabeça dela. — Bom, vou deixar você descansar um pouco. Jantar às oito?
— Perfeito.
Quando ficou sozinha, Claire se jogou na cama, encarando o teto.
O fim de semana prometia ser tranquilo. Relaxante, até.
Conhecer melhor Érico, passar tempo com a mãe, talvez ler aqueles livros que vinha adiando.
Simples.
Sem complicações.
Sem surpresas.
Ou pelo menos era o que ela pensava.
Porque no dia seguinte, tudo mudaria.
No dia seguinte, Harry chegaria.
E nada, absolutamente nada, seria simples depois disso.
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Silent Flame
RomanceClaire acreditava que aquele fim de semana seria apenas uma visita tranquila à nova casa da mãe - longe da cidade, longe de problemas, longe de sentimentos complicados. Mas algumas presenças não chegam para ficar em silêncio. Entre paisagens serenas...
