Carol pov.
O silêncio sempre foi meu maior luxo, não aquele confortável, quase gentil, mas o silêncio absoluto, cirúrgico, que eu controlava do mesmo jeito que controlava um conselho administrativo inteiro. Eu sabia exatamente quando ele começava e quando terminava. Durante anos, ele foi só meu.
Até Sofia aprender a cantar.
Às seis e quarenta da manhã, a casa vibrava, não era alarme, não era telefone corporativo, não era nenhuma crise financeira internacional. Era Ana Castela, ou melhor, era minha filha de três anos cantando Ana Castela com a convicção de quem lota um estádio e não a cozinha de uma mansão pensada para executivos que odeiam barulho.
Abri os olhos devagar, passei a mão pelo cabelo curto, ainda bagunçado do sono, sentindo o peso do corpo reclamar quando me sentei na cama. As tatuagens nos braços e no peito, histórias que quase ninguém conhecia, se moviam junto comigo. Encarei o teto por um segundo, os olhos verdes fixos, respirando fundo.
Trinta anos, dona do maior banco do país, derrubada por uma criança de três.
— Bom dia, Ana Castela de novo — murmurei, antes de levantar.
Segui o som até a cozinha, Sofia estava em cima de uma banqueta, vestindo um vestido com franjas exageradas, botas de borracha e segurando uma escova de cabelo como se fosse um microfone. Cantava com uma entrega que eu nunca vi em nenhuma reunião de diretoria, olhei para Ella a babá da Sofia e sorri.
— Eu não tô nem aí pro que vão falar de mim! — gritou.
— Sofia — falei, apoiando-me na bancada, cruzando os braços. — São seis e quarenta da manhã. Isso fere várias leis trabalhistas.
Ela se virou imediatamente, os olhos brilhando.
— Mamãe, você acordou, eu sou a Ana Castela e você é o público
— Eu preferia ser a pessoa que corta o som — respondi.
Não funcionou, sorri mesmo assim.
Observei minha filha por mais tempo do que deveria, três anos, pequena demais para carregar o mundo, grande o suficiente para ter virado o meu de cabeça pra baixo. Lembrei do dia em que lutei por ela, da conversa fria com a mãe biológica, da decisão solitária, do medo que engoli sem dividir com ninguém, a modelo italiana não quis ser mãe. Eu quis, pela primeira vez na vida, escolhi algo sem calcular riscos.
— Canta comigo, mamãe — Sofia pediu.
— Não. O mercado financeiro não sobreviveria — respondi, servindo café.
Foi quando ouvi passos arrastados no corredor.
— Pelo amor de Deus... — Isa apareceu na porta da cozinha, cabelo preso de qualquer jeito, moletom largo, cara de quem foi arrancada do sono à força. — A Ana Castela ainda não lançou uma versão instrumental?
— Tia Isa — Sofia pulou da banqueta e correu até ela. — Eu estou treinando pro navio
Fechei os olhos.
— Não começa — avisei.
Isa Salles, vinte e quatro anos, seis a menos que eu e leve como eu nunca fui. Os mesmos olhos verdes, mas sem o peso de decisões bilionárias nas costas. Sofia a adorava, claro que adorava.
— Que navio? — Isa perguntou, já se abaixando para ouvir a sobrinha com atenção total.
Sofia pegou o tablet e mostrou o vídeo, cores demais, alegria demais, cedo demais.
YOU ARE READING
A banqueira - Ana Castela (G!P)
FanfictionCarol Salles sempre controlou tudo: o maior banco do país, decisões bilionárias e o silêncio absoluto de seu escritório envidraçado. Intersexual, poderosa e acostumada a nunca depender de ninguém, ela jamais imaginou que sua maior revolução viria no...
