Raízes e Distâncias

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Portuguesa, Isabela aprendera cedo o significado da palavra distância. Distância do país onde nascera, das ruas de calçada que mal lembrava, do sotaque que ainda surgia quando estava cansada, e até de algumas pessoas que só existiam agora em fotografias antigas guardadas numa gaveta da cómoda. Vivia nos Estados Unidos desde criança, tempo suficiente para se sentir parte daquele lugar, mas nunca o bastante para esquecer que não começara ali.

Naquela manhã, o despertador tocou às seis e vinte, como fazia todos os dias úteis. Isabela estendeu a mão, desligou-o no primeiro toque e ficou alguns segundos a olhar para o teto do quarto. O silêncio antes do dia começar era o único momento em que se permitia não pensar em listas, horários ou responsabilidades.

O quarto era pequeno, mas organizado. A secretária encostada à janela estava coberta de livros, cadernos e folhas com anotações.

Havia post-its colados na parede, alguns com fórmulas, outros com frases motivacionais escritas à mão. Num canto, um mapa dos Estados Unidos com pequenas marcações, noutro, uma fotografia antiga da família ainda em Portugal.

Levantou-se, vestiu-se rapidamente e prendeu o cabelo num rabo de cavalo. O espelho devolveu-lhe o reflexo de uma rapariga de quinze anos com olhos atentos e uma expressão séria demais para a idade. Não porque fosse triste mas porque aprendera cedo a ser cuidadosa.

Na cozinha, a mãe já estava acordada. O café fervia no fogão, e o cheiro espalhava-se pelo pequeno apartamento.

— Bom dia, Isa — disse ela, sem tirar os olhos da panela.

— Bom dia, mãe.

Isabela pegou numa caneca lascada e sentou-se à mesa. Não falavam muito de manhã. Ambas sabiam que o dia seria longo. A mãe trabalhava em dois turnos, Isabela tinha escola, tarefas, estudo. Era uma rotina silenciosa, mas não fria. Havia um entendimento mútuo que dispensava palavras.

— Hoje começas o décimo ano, não é? — perguntou a mãe, por fim.

— Sim. — Isabela assentiu.

A mãe sorriu de leve. Não disse "tenho orgulho em ti", mas Isabela ouviu isso mesmo assim. Antes de sair, colocou algumas notas dobradas na mochila.

Não perguntou se era suficiente para o almoço, aprendera a não fazer perguntas que pudessem gerar respostas desconfortáveis.

O caminho até à escola era sempre igual. As mesmas ruas, as mesmas casas, os mesmos carros estacionados. Mas, naquele dia, tudo parecia um pouco diferente. O décimo ano não era apenas mais um ano. Era o início de algo maior, mesmo que ainda distante.

Na escola, os corredores fervilhavam de vozes. Estudantes reencontravam-se depois do verão, comparavam horários, reclamavam das aulas difíceis que estavam por vir. Isabela caminhava entre eles observando, mais do que falando. Nunca fora invisível, mas também nunca fizera esforço para ser o centro das atenções.

Encontrou Maya, a sua melhor amiga perto dos cacifos.

— Finalmente! Achei que tinhas desaparecido — disse a amiga, rindo.

— Estava só... a pensar.

— Isso não é novidade — respondeu Maya, com carinho.

Sentaram-se juntas na primeira aula. O professor falou sobre expectativas, responsabilidades, sobre como aquele ano seria exigente. Isabela anotou tudo. Não por medo, mas por respeito. Sabia que cada detalhe importava.

Ao longo do dia, percebeu que o décimo ano não perdoaria distrações.

As matérias eram mais densas, os professores mais diretos, as exigências mais altas. Em vez de se sentir intimidada, Isabela sentiu algo diferente: foco.

Tudo o que ainda não souStories to obsess over. Discover now