ℭ𝔞𝔭𝔦́𝔱𝔲𝔩𝔬 ℑ - 𝔒 ℭ𝔬́𝔡𝔦𝔠𝔢 𝔠𝔞𝔯𝔪𝔢𝔰𝔦𝔪

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𝔒xford, 1815

A manhã nascera cinzenta sobre Oxford como um pensamento mal resolvido. As nuvens baixas pareciam pressionar as torres góticas, e o frio de março infiltrava-se pelas pedras antigas dos colégios como uma memória que se recusava a ser esquecida. O sino de Christ Church havia acabado de marcar a décima hora quando Charles Alastair Cavendish atravessou o pátio interno com passos longos e tensos, a capa escura ondulando atrás de si, o rosto rígido demais para seus vinte e um anos.

A discussão ainda ecoava em seus ouvidos.

— Você se esquece de quem é — dissera o pai, a voz grave, carregada do peso de gerações. — Cavendish não se esconde em bibliotecas enquanto o país se recompõe.

Charles lembrava-se de cada detalhe do escritório paterno naquela manhã: o cheiro de madeira encerada, as cortinas pesadas de veludo vinho filtrando a luz pálida, os retratos de ancestrais que o observavam como juízes silenciosos. O pai permanecera de pé, imponente em sua casaca perfeitamente cortada, enquanto ele, sentado, sentira-se menor do que jamais admitiria.

— Não é se esconder — respondera Charles, com uma calma que lhe custara o controle das mãos. — É estudar. É compreender. O mundo mudou, pai. Waterloo mudou tudo.

A menção à batalha — ainda recente, ainda sangrando na memória coletiva — fora o estopim. Lorde Cavendish estreitara os olhos, como se o próprio nome de Napoleão fosse uma afronta pessoal.

— Justamente por isso você deve assumir seu lugar. Política. Administração. A Câmara dos Lordes. Não traduções de textos latinos e divagações filosóficas.

Charles se levantara então, a cadeira rangendo no assoalho polido.

— Oxford não é uma divagação. É onde eu respiro.

O silêncio que se seguiu fora mais cruel que qualquer grito. E, por fim, a sentença:

— Enquanto viver sob meu teto, você fará o que é esperado.

Agora, afastando-se daquele teto, Charles sentia o peito apertado por algo que misturava raiva, culpa e uma tristeza funda. Oxford sempre fora seu refúgio. Desde o primeiro dia em que chegara, ainda adolescente, maravilhara-se com as bibliotecas silenciosas, os corredores que cheiravam a pergaminho antigo, o peso do conhecimento acumulado ao longo dos séculos.

Ele usava uma casaca de lã azul-escura, já um pouco gasta nos cotovelos, um colete cinza claro abotoado até o topo, camisa de linho impecavelmente branca e uma gravata simples, amarrada com menos rigor do que o esperado para um jovem de sua posição. As botas de couro ecoavam no chão de pedra enquanto atravessava o pátio, ignorando os olhares curiosos de outros estudantes, todos homens, todos moldados pela mesma expectativa social.

A biblioteca era seu destino. Sempre fora.

Ao empurrar a pesada porta de carvalho da Biblioteca Bodleian, foi envolvido por um silêncio quase sagrado. O ar era frio e seco, impregnado do aroma de livros antigos, couro e poeira. A luz entrava filtrada pelas altas janelas, criando feixes dourados que dançavam sobre as mesas de madeira escura.

Charles respirou fundo.

Ali, pelo menos, o tempo parecia obedecer a outras leis.

Caminhou entre as estantes altas, passando os dedos pelas lombadas gastas, lendo títulos em latim, grego, francês. Parou, como sempre fazia, na ala menos frequentada um corredor estreito onde os livros pareciam esquecidos até mesmo pelos bibliotecários.

Foi então que o viu.

O livro destoava de tudo ao redor.

Era vermelho.

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Códice CarmesimCerita yang bikin terobses. Temukan sekarang