milena

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A noite de 24 de dezembro era fria, como todas as outras antes daquela. Eu estava sentada no quintal de casa, acompanhada apenas pela minha irmã mais nova, que não queria ficar sozinha dentro de casa. Ela corria pela estrada em frente à casa, indo de uma ponta a outra, enquanto gargalhava alto e fingia fugir de coisas

— coisas de criança.
O condomínio estava vazio, e poucos carros passavam devido ao horário. Era quase meia-noite. Do outro lado do muro do condomínio, porém, dava para ouvir com clareza as músicas e as conversas altas das pessoas. Estavam em festa, afinal.

A certa altura, distraí-me enquanto olhava para o outro bloco de casas, um pouco distante da minha. Estava escuro. Estranhamente, naquela noite, as luzes dos postes da estrada não estavam acesas. A escuridão engolia todo aquele trecho, começando no portão do condomínio e passando pela estrada em frente à nossa casa. Eu não queria ver até onde ela ia.

— Mana…
Ouvi o grito fino e estridente da minha irmã. Vinha da mesma direção que eu observava.
Congelei, totalmente incrédula com o que tinha ouvido. Levantei-me e olhei em todas as direções, à procura de uma manchinha rosa no meio daquela escuridão.

— Milena — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro.
Não houve resposta.

— Milena! — chamei novamente, desta vez mais alto.

O pânico começava a subir pelo meu corpo, e eu sentia a ponta dos dedos formigar enquanto encarava fixamente a estrada do condomínio. Eu não a vi passar por mim. Ela não estava correndo naquela direção.
Eu não queria verificar aquele trecho da estrada, então fiz o que parecia mais racional: virei-me e fui procurar um pouco mais à frente, no bloco onde ficava a casa de uma amiga dela. Atravessei o pequeno jardim que dividia os dois blocos e parei próximo à estrada.

— Milena, onde estás?
Mais uma vez, não tive resposta.
Pensei que ela tivesse apenas corrido para aquele lado e não estivesse respondendo porque queria brincar. Ela costumava fazer muito aquilo. Mas, naquele dia, eu não conseguia entrar na brincadeira. Algo parecia estranho, fora do lugar.
Girei sobre mim mesma, olhando ao redor mais uma vez, até que ouvi:

— Mana…
Era a voz dela. Eu tinha certeza. E vinha do lado da nossa casa.
Corri, atravessando o jardim novamente, enquanto gritava quase desesperada:

— Milena, vem para aqui!
Ela não veio.
Mas vi uma silhueta infantil correr em direção ao final da rua. Pequena. Leve. Corri atrás sem pensar.

— Volta aqui, Milena, agora mesmo!

Minha voz soou dura, irritada — e então tudo parou.
Ela parou de correr.
E o mundo pareceu parar com ela.

Naquele momento, a sensação de que algo estava errado intensificou-se ainda mais. Só então dei conta do silêncio que esmagava todo o condomínio.
Nenhuma música. Nenhuma conversa. Nem mesmo o som distante da festa além do muro. Nada. Como se alguém tivesse fechado uma porta invisível ao nosso redor.

Havia apenas silêncio. E o silêncio não era algo comum por ali.

Ela virou-se devagar e caminhou  na minha direção, com uma postura cabisbaixa, mantendo as mãozinhas à frente do corpo.
Aquilo deixou-me um pouco mais calma. Pensei que ela apenas quisesse brincar.

— Anda, Milena. Vem para aqui.
Insisti mais uma vez. Ela continuou a caminhar, até que a luz distante do lado de fora de casa me deu um pequeno vislumbre da sua silhueta e do pijama roxo, soltinho.

— Vamos para casa. E não voltes a fugir assim, está bem?

Ela não respondeu.

Dei-lhe as costas e comecei a caminhar de volta para casa, certa de que ela viria atrás. Ela sempre vinha.

Mas, quando me virei, ela estava parada no mesmo sítio onde a deixara.

Irritei-me.

— Milena, vem já aqui!
Gritei. Ela não se mexeu.
Foi então que prestei atenção no que ela vestia: um pijama roxo.

Eu lembrava-me perfeitamente de tê-la vestido com um pijama rosa, um pouco mais grosso por causa da temperatura.
Meu coração acelerou. Senti a pulsação nos ouvidos, e tudo à minha volta tornou-se ainda mais silencioso.

Dei um passo para trás, incrédula diante do que via. Tentei afastar-me, mas ela avançava sempre que eu recuava.
O zumbido nos meus ouvidos ficou mais alto. Eu não queria desviar os olhos — não sabia o que aconteceria se o fizesse.

Parei, estática, no mesmo lugar, e silenciosamente sussurrei:
— Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo. Tua vara e Teu cajado me consolam. Senhor, protege-me, salva-me, defende-me…

Antes que eu terminasse, senti algo colidir contra a parte de trás das minhas pernas. Ainda em choque, soltei um grito e afastei-me rapidamente.

— Mana…
Voltei a mim ao ouvir o chamado baixinho da minha irmã à minha frente. Ela estava ali, de pijama rosa, olhando para mim como se esperasse uma explicação.
Quando ergui o olhar novamente para a estrada…
Ela tinha desaparecido. Como se nunca tivesse estado lá.

— Onde estavas? — perguntei à criança agarrada às minhas pernas, totalmente alheia à tensão que eu sentia.

— Lá atrás — respondeu, esticando os braços, pedindo colo.
Peguei-a no colo e apertei-a contra mim, como se precisasse ter certeza de que tudo aquilo não passara de uma alucinação.

— Não ouviste quando te chamei? — perguntei baixinho no ouvido dela.

— Ouvi.

— Então por que não vieste?
Ela apoiou a cabeça no meu ombro.

— Porque tu estavas lá, mana…
Meu sangue gelou.

— Lá onde?
Ela sussurrou, quase triste:

— A falar com ela.

— Ela… quem?
Milena levantou o rosto lentamente.

— Mana…
E apontou para a estrada escura.













                                       F.

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⏰ Última atualização: Dec 25, 2025 ⏰

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