Antes de aprender a ter medo, eu aprendi a ouvir.
Não vozes exatamente — não como as pessoas imaginam. Eram ecos. Sensações que surgiam sem aviso, imagens que não me pertenciam, pensamentos que escorriam para dentro da minha mente como se sempre tivessem estado ali.
Meu pai dizia que era só imaginação.
Mas Dick Halloran mentia mal.
Lembro de uma noite específica. Eu devia ter uns onze anos. A casa estava em silêncio, exceto pelo tique-taque insistente do relógio na parede. Eu estava sentada à mesa da cozinha, desenhando coisas que não lembrava de ter visto, quando ele parou atrás de mim.
Ele observou o papel por um longo tempo.
— Onde você viu isso? — perguntou, a voz baixa demais para alguém que não queria ser ouvido.
Dei de ombros.
— Eu não vi. Eu… senti.
O lápis caiu da minha mão. No desenho, haviam várias tendas, com palhaços caminhando, alguns animais, pessoas que faziam truques, mas quem se destacava era um palhaço ruivo.
Meu pai puxou a cadeira e se sentou à minha frente. O uniforme militar ainda estava nele, manchado de poeira e cansaço. Os olhos dele não demonstravam raiva — demonstravam medo.
— Margot — ele disse, com cuidado —, o que você sente… não é normal. E não é seguro.
— Igual a você? — perguntei.
Ele congelou.
Foi a primeira vez que vi Dick Halloran hesitar. Depois, respirou fundo e assentiu lentamente.
— Igual a mim.
— Então por que dói?
— Porque algumas coisas não querem ser percebidas.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos.
— Você precisa aprender a fechar a mente. A não olhar quando sentir vontade. Promete que não vai contar pra ninguém?
Eu prometi.
Mas algumas promessas não duram muito em Derry.
Quando chegamos à cidade, tudo piorou.
Derry parecia… viva. Não de um jeito bom. O ar era pesado, os silêncios longos demais, e eu sentia medo antes mesmo de saber do quê. Os bueiros me causavam náusea. Às vezes, eu passava por uma rua e tinha certeza absoluta de que algo horrível havia acontecido ali — mesmo sem sinal algum.
A primeira vez que senti Ela de verdade, eu estava sozinha.
Chovia. Eu voltava para casa, os tênis encharcados, a cabeça latejando. Quando passei por um bueiro na calçada, algo dentro de mim parou.
O mundo ficou distante.
O som da chuva sumiu.
Então eu vi.
Não com os olhos — com a mente.
Vi uma criança correndo. Vi sangue misturado à água da chuva. Vi gritos presos na garganta. Vi medo puro, cru, delicioso. E, no meio de tudo, senti uma presença antiga.
Olá, Margot.
A voz não soou como som. Soou como pensamento.
Eu tentei correr, mas minhas pernas não obedeceram. O bueiro parecia me observar. Senti uma alegria que não era minha se misturar ao meu pavor.
Você brilha, disse a coisa. Assim como ele.
Meu pai.
As imagens vieram em ondas. Mortes que já tinham acontecido. Mortes que ainda aconteceriam. Derry se alimentando de si mesma, repetidamente, como um ciclo doentio.
E então… o sorriso.
Não era um palhaço.
Era pior.
Era algo que mudava, se moldava, se escondia atrás do que eu mais temia.
Eu sinto você desde que chegou, ela sussurrou. Você me vê.
— Sai da minha cabeça — consegui dizer, em voz alta, as mãos tremendo.
O riso vibrou dentro de mim.
Ainda não.
Quando o transe quebrou, eu estava ajoelhada na calçada, chorando, com o gosto de ferrugem na boca. A chuva havia parado. O bueiro estava fechado. Normal.
Mas eu não era mais.
Naquela noite, liguei para meu pai e ele soube, em poucos minutos, Halloran já estava em Derry. Ele apenas me abraçou forte demais e murmurou contra o meu cabelo:
— Ela também te encontrou, não foi?
Eu não respondi.
Não precisava.
Hoje, entendo que o medo nunca começou naquele verão. Ele sempre esteve comigo, crescendo em silêncio, assim como o dom que herdei.
Sou filha de Dick Halloran.
E eu brilho, assim como ele.
Em Derry, o mal reconhece os seus.
E quando a Coisa sorri para você…
é porque já está perto demais.
. . . [ . 🎈 . ] . . . Nota da Autora
No Outro Plano nasceu do meu amor por IT: A Coisa, mas também da vontade de explorar tudo aquilo que sempre ficou nas entrelinhas: o medo que cresce em silêncio, os dons que machucam, e as marcas que a infância deixa quando ninguém olha com atenção.
A Margot é uma personagem muito especial pra mim. Através dela, quero falar sobre herança, sensibilidade, solidão e sobre como “ver demais” pode ser tanto um dom quanto uma maldição. O vínculo dela com Dick Halloran e com a própria Coisa é algo que vou desenvolver com cuidado, respeitando o universo de IT, mas trazendo uma perspectiva nova.
Essa fanfic não é apenas sobre o terror de Derry. É sobre Margot e seus traumas, laços improváveis e, principalmente, sobre amor — um amor que nasce no meio do caos, da dor e do medo. O romance entre Bill Denbrough e Margot será construído aos poucos, de forma sensível e intensa, assim como tudo nessa história.
Espero que vocês leiam com o coração aberto, prestem atenção nos detalhes e nas sensações, porque aqui, nem tudo é dito em voz alta.
Algumas coisas… só quem brilha consegue ouvir.
Obrigada por darem uma chance a essa história. 🎈🖤
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No outro plano - Bill Denbrough, it a coisa.
FanfictionDerry é uma cidade que se alimenta do silêncio, do medo e daquilo que ninguém ousa nomear. Margot Halloran sempre soube disso. Filha de Dick Halloran, um ex-militar marcado por segredos que atravessam gerações, Margot herdou um dom perigoso: ela ouv...
