Primeira neve

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Harry não iria para casa nas férias. O problema era que ele nem sabia direito onde “casa” ficava. Era o dono do Grimmauld Place, mas passar o Natal sozinho ali parecia deprimente demais. Ele tinha sido convidado para ficar com os Weasley e quase aceitou — quase mesmo —, mas nada estava igual desde que ele e Gina tinham terminado.

Ainda assim, o verdadeiro motivo para ficar em Hogwarts era Severus Snape.

Era idiota. Muito, muito idiota. Mas Harry queria usar o feriado para se aproximar dele. Era o oitavo ano, poucos meses depois da guerra, e tudo entre eles estava… estranho. Snape não era mais hostil. Na verdade, às vezes era quase educado. O que era perturbador por si só.

Depois da Batalha Final, Snape deixara o cargo de diretor e voltara a dar aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. Slughorn continuava em Poções — o que era bom —, mas, de vez em quando, Harry se pegava sentindo falta de ver Snape nas masmorras. Uma completa inversão do passado.

Já fazia um dia que os alunos tinham ido embora para as férias, e Harry recebera uma carta de Hermione naquela manhã. Ela dissera que estava preocupada com ele por ficar sozinho.
Você merece estar com amigos depois de tudo o que passamos no ano passado.
Harry respondera dizendo que queria um tempo sozinho para estudar — o que provavelmente só a deixara ainda mais aflita.

Agora, ele caminhava pelos terrenos de Hogwarts, os pés afundando na primeira neve do ano. Tudo parecia mais silencioso quando nevava. Branco, calmo, silencioso. Aquela quietude fazia Harry se sentir seguro, como se o mundo estivesse em pausa.

Quando se aproximou da borda da Floresta Proibida, avistou outra figura andando pela neve. Um homem alto, envolto em vestes pretas longas, com um cachecol verde grosso enrolado no pescoço. Na cabeça, um par estranho de óculos de proteção.

— Potter — disse Severus Snape ao se aproximar.

Harry parou.
— Bom dia, senhor.

A boca de Snape se curvou levemente. Era curioso como ele parecia quase se segurar para não sorrir sempre que Harry falava com respeito agora — e Harry sempre falava.

— O que você está fazendo tão perto da floresta ?

— Não sei ao certo, senhor. Só estava andando um pouco.

Snape soltou um som curto, entre um bufar e um suspiro, e olhou para os terrenos cobertos de neve. A luz fraca atravessava as nuvens pesadas, marcando as linhas do rosto dele, o tom castanho dos olhos. A ponta do nariz estava avermelhada por causa do frio.

Ele ajustou o cachecol, e a lã escorregou o suficiente para expor parte do pescoço marcado por cicatrizes. Harry desviou o olhar por instinto — e depois voltou a olhar. Sentiu um calor estranho no peito. Imaginou, sem querer, como seria tocar aquelas marcas com cuidado.

Quando percebeu, Snape o observava também. Os olhares se encontraram, e aquilo foi desconfortável de um jeito diferente. Harry estava acostumado à tensão e à raiva entre eles — não àquele silêncio carregado, quase íntimo.

— Por que ficou em Hogwarts nas férias, Potter ? — perguntou Snape. — Seus amigos finalmente perceberam o quão idiota você é ?

O tom era ácido, mas cansado, como se ele dissesse aquilo por hábito, não por maldade.

Harry riu baixo.
Eu fiquei por sua causa, pensou, mas não era louco o bastante para dizer isso em voz alta.

——Meus amigos sempre souberam quão idiota eu sou — respondeu. — Acho que já se acostumaram. Fiquei porque queria estudar com mais calma.

— Bolas.

Harry arregalou os olhos e riu.
— Linguagem, senhor.

Snape o lançou um olhar de lado, o canto da boca se movendo como se ele estivesse à beira de um sorriso.
— Estamos completamente sozinhos, Potter. Eu posso dizer quantas besteira eu quiser.

Eles caminharam de volta para o castelo, lado a lado, próximos demais para serem apenas conhecidos. Os ombros quase se tocavam. Snape mantinha o olhar fixo no chão.

— E esses óculos ? — perguntou Harry. — Para que servem ?

— Eu estava na floresta recolhendo ingredientes para Poções. Eles detectam resíduos mágicos em plantas.

— Isso não deveria ser trabalho do Slughorn ?

— Slughorn não deveria se enfiar na floresta nessa idade.

— É… gentil da sua parte ajudar.

— Não é gentileza — disse Snape. — É apenas o que precisa ser feito

— Certo — murmurou Harry, embora discordasse. — E você já terminou ?

— Não. Vou ter de voltar amanhã. Algumas plantas só podem ser colhidas em horários específicos.

Harry hesitou por um instante.
— Posso ir com você ?

Snape parou de andar.
— Como é ?

— Posso ajudar — disse Harry rapidamente. — É só me dizer quando.

— Por quê ? — A confusão na voz de Snape era real.

Harry deu de ombros, sentindo o
rosto esquentar.
— Não sei. Acho que só… quero ficar perto de você.

O silêncio se estendeu. Um rubor subiu pelo pescoço de Snape, e ele encarou Harry como se estivesse decidindo entre explodir ou fingir que não ouvira.

— Você só vai atrapalhar — rosnou.

— Por favor — insistiu Harry. — Deixa eu ajudar.

— Esta bem! — Snape retrucou, virando-se bruscamente e se afastando, as vestes pretas balançando enquanto ele se afastava pela neve.

Nevou com Severus Where stories live. Discover now