O Trono de Cinzas

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A primeira manhã do reinado de Scar raiou pálida e doentia. Não havia o calor vibrante do sol de Mufasa, nem o orvalho que cintilava como diamantes na grama alta. Em vez disso, o céu era uma chapa de estanho, e a luz que filtrava era fria e indiferente. A savana, que antes exibia um tapete de cores vivas, já começava a se tingir de tons de ocre e cinza, como se a própria terra estivesse murchando sob o peso da nova coroa.

Para Sarabi, a noite não trouxera descanso, apenas um torpor pesado, assombrado por memórias de um rugido majestoso e de uma pequena pata que se encaixava perfeitamente na sua. Ela se agarrava á dor como a última prova de que Mufasa e Simba haviam existido, pois o vazio que deixaram era tão vasto que ameaçava engoli-la por inteiro.

Ela se levantou, seus movimentos rígidos. A dor não era apenas da alma; era física, instalada em seus músculos como um veneno lento. Da entrada da caverna principal da Pedra do Rei, ela observou o cenário abaixo. A visão era um golpe frio. As Hienas, antes relegadas ás terras sombrias, agora espalhavam descaradamente pelas campinas. Não mais se escondiam; elas caçavam á luz do dia, e suas risadas estridentes e nervosas ecoavam como vidro quebrado, um som profano que substituía o canto matinal dos pássaros.

A harmonia do Ciclo da Vida, o pilar da filosofia de Mufasa, parecia uma canção esquecida. O cheiro de morte e decomposição, antes raro, pairava no ar. Perto do olho d'água, um local sagrado para a vida, jazia a carcaça de um gnu, deixada para aprodecer, um sacrilégio que Mufasa jamais teria permitido.

Eu fiz a escolha certa? A dúvida era um espinho em seu coração. Aceitar Scar como rei e a si mesma como sua rainha era um ato de traição à memória de seu marido e filho. Mas o que seria daquelas que dependiam dela? Um ato de desafio aberto resultaria em mais sangue, mais fome. Sua presença era um escudo, por mais fino que fosse, entre seu bando e a tirania total."Um novo dia, uma nova era, minha rainha." A voz de Scar, untuosa e cheia de uma satisfação mal contida, soou atrás dela. Ele se aproximou, sua juba escura contrastando com a palidez da manhã, a cicatriz sobre o olho parecendo mais profunda e cruel. "Espero que tenha descansado. Há muito a ser feito. Nossas... aliadas estão ansiosas."Sarabi não se virou imediatamente. Seus olhos permaneceram fixos no gnu morto. "O que você fez?", ela perguntou, a voz baixa e controlada, mas vibrando com uma fúria gelada que ela mal conseguia conter."Eu estabeleci a nova ordem", respondeu Scar, circulando-a como um abutre. Ele parou ao lado dela, o hálito quente e desagradável. "As hienas são nossas aliadas. Elas garantem a lealdade do reino. Em troca, elas comem. É simples. Uma troca justa.""Elas destroem. Elas não respeitam o equilíbrio", retrucou Sarabi, finalmente virando o rosto para ele. Seus olhos âmbar, antes quentes e cheios de vida, agora eram como brasas em meio a cinzas. A dignidade que ela vestia era mais pesada que qualquer coroa. "Você prometeu liderança, Scar. Não anarquia. O Ciclo da Vida não é um banquete para ser saqueado."Um brilho perigoso passou pelos olhos verdes de Scar. Ele se inclinou, a proximidade forçada era uma ameaça silenciosa. "Eu sou o rei! E minha rainha faria bem em lembrar-se de seu lugar. Seu papel é garantir que as leoas cumpram seu dever. As caçadas devem ser maiores. Meus aliados têm fome. E a lealdade delas é mais importante para a minha estabilidade do que a sua moralidade ultrapassada."Era a primeira prova, o primeiro teste de sua frágil autoridade. Sarabi sentiu o peso dos olhares das outras leoas, que observavam a troca a uma distância respeitosa. Ela respirou fundo, reunindo a força que vinha de gerações de rainhas antes dela."As leoas caçarão o suficiente para sustentar o bando. Não para alimentar a ganância de forasteiros", declarou ela, a voz firme e ressonante. "Somos um bando, Scar, não um banquete. Esse é o nosso caminho. E como rainha, é meu dever garantir que ele seja honrado. Se você deseja que as hienas comam, você as alimentará com o que você caçar. O que é nosso, é para o nosso povo."Ela não gritou, não ameaçou. Sua força estava em sua calma inabalável, em sua recusa em se curvar completamente. Por um instante, a surpresa no rosto de Scar foi visível. Ele esperava submissão, talvez lágrimas. Não esperava a mesma dignidade régia que sempre invejara em seu irmão, agora vinda dela. Ele estreitou os olhos, um rosnado baixo subindo por seu peito, mas então, um sorriso lento e cruel curvou seus lábios."Como quiser, minha rainha", ele sibilou, a ênfase na posse sendo quase um insulto. "Mas lembre-se, a fome é uma conselheira impaciente. E quando ela sussurrar nos ouvidos de suas leoas, elas se voltarão contra você." Ele se afastou, descendo a Pedra do Rei com um ar de quem acabara de plantar uma semente de discórdia.Sarafina, sua amiga mais antiga e mãe de Nala, aproximou-se, o rosto marcado pela preocupação. "Sarabi, isso é perigoso. Desafiá-lo assim... ele pode se voltar contra você.""Não desafiá-lo é mais perigoso", respondeu Sarabi, tocando o focinho de Sarafina. Ela olhou para as outras leoas. Viu Zira, com um brilho fanático de admiração por Scar, e viu a maioria, cujos rostos eram uma mistura de medo e uma faísca de esperança recém-acesa. "Ele pode usar a coroa, mas o coração das Terras do Reino ainda bate em nós. Enquanto eu estiver aqui, esse coração não vai parar. Nós vamos caçar. Nós vamos sobreviver. E nós vamos resistir. Não com garras e dentes, mas com a força que ele não pode entender. A força de um povo unido e a memória de quem realmente éramos."Seu olhar voltou-se para a savana desolada. O crepúsculo havia chegado, mas Sarabi se recusava a deixar a noite cair completamente. Ela seria a lua na escuridão, um reflexo pálido, mas constante, da luz que um dia reinara. E esperaria pela alvorada, não importava quanto tempo demorasse. A resistência silenciosa havia começado.

O Crepúsculo Da RainhaStories to obsess over. Discover now