DIANTE DAS MUDANÇAS

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Há algo de interessante no fator vida que me distrai diariamente. Muitos foram os momentos em que senti que poderia superá-la. Para mim, a vida nunca foi algo a almejar; sempre foi algo a transcender, a ser superado com tamanha maestria que me faria excepcionalmente melhor do que tudo que eu já pude vislumbrar. O fácil foi a ilusão da superação; o fácil foi a sensação de despropósito após a conquista. O difícil, no entanto, foi viver depois disso.

A história começou em um momento crucial, como qualquer outra. Não um daqueles momentos que resumem toda uma vida, mas um que serviu como ponto de partida para todo o resto que viria a seguir. Um dia, eu estava em minha singela casa — outrora lar de outros antes de me mudar para lá. Não muito tempo depois dessa mudança, deparei-me com o meu primeiro propósito.

Meus pais eram dois seres amorosos que nunca me deixaram faltar o necessário. À medida que o tempo passava, apresentei-lhes muitas faces. Já fui arredio, briguento, arrogante, amoroso. Já tive rosto de criança, rosto de adulto e, por muitas vezes, ambos os rostos entrelaçados em corpo e alma, conforme a necessidade cotidiana exigia.

Sempre fui maravilhado com a mudança. Sempre caí dentro de mim como em queda livre, com o objetivo único de me ver transformar. Por isso, já me vi mudar muitas vezes. E naquele mesmo dia, mudei-me novamente. Eu deixaria para trás não só a minha casa recente, mas tudo o que havia tido até aquele momento.

Diante deste propósito ardente de mudar, acabei por me esquecer de algo crucial: não só que eu me via em queda, mas que um dia eu tocaria o chão. Talvez não com a delicadeza que furtava o meu pensamento ingênuo daquele momento, mas com a brutalidade de atravessar meu anteparo, de afundar-me no solo e cobrir-me daquela terra para realizar meu velório.

Tal perspectiva só veio dias antes de partir, quando a mudança veio dos céus.

Tal perspectiva só veio dias antes de partir, quando a mudança veio dos céus

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Lembro-me do cheiro daquela manhã. O ar já me dizia coisas, muito antes de eu descobrir meu maior segredo. Ele me dizia sobre meus amores, a espuma que sentia meus ossos se transformar quando, diante da beleza, eu me acariciava do desejo, ainda inocente naqueles momentos. Falava-me sobre minha mãe, a visão que muitas vezes tinha daquela mulher que sempre estava ali, apesar de eu muitas vezes esquecer de estar lá com ela também. Contava-me sobre meu pai, sobre suas viagens, bem menos emocionantes do que aquelas que ele insistia em me contar. Só hoje entendo que não eram mentiras, mas apenas dizeres de sonhos, para me dar a oportunidade de sonhar e de utopizar o mundo — algo que eu desejaria mais do que nunca neste momento, mas que naquele tempo sequer me passava pela cabeça.

O vento, contudo, esqueceu de me dizer para aproveitar aquilo. As mudanças chegariam rápido, e tudo o que me restaria seria o desprazer de pensar que nem sempre elas foram realmente boas. Foi neste mesmo dia que eu perdi minha casa, meu pai, minha vida, e descobri algo que me traria sofrimento.

Não o sofrer que me recusei a entender simultaneamente a estes acontecimentos, mas a dor do agora, que em retrospecto só me trouxe a amargura do arrependimento. Amargura necessária, é claro, pois sem ela, como aceitar meu segundo propósito, meu terceiro e, por fim, meu despropósito?

Nunca confundiria despropósito com nenhum propósito. Era apenas a confirmação de que eu tinha menos propósito do que a maioria que conheci, e talvez isso tenha me feito quem eu sou.

Foi no dia em que perdi tudo que o meu ponto de partida se formou. Foi quando descobri que as barreiras espaciais podiam dobrar-se à minha vontade, e que eu poderia usar essa magia para ir para onde quisesse...

Deste dia em diante, detalho nestes escritos, até agora, no fim de minha vida, os nove pontos cruciais que me formaram... Em meus mais singelos relatos de um mísero mago que descobriu A VIAJEM.

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⏰ Last updated: Dec 12, 2025 ⏰

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