Kiluanje acordava sempre antes do sol, não por querer, mas porque a vida não lhe dava o luxo de dormir até tarde. O telhado de chapa deixava entrar o som dos primeiros candongueiros e o choro abafado da mãe, que tentava engolir a dor enquanto aquecia a água do banho. Ele fingia não ouvir, mas cada suspiro dela lhe cortava a pele como lâmina fina. Ser homem em Angola, dizia o pai antes de desaparecer, é aprender a sangrar em silêncio. Kiluanje aprendeu cedo que chorar era fraqueza, e que o orgulho masculino não enche panela. Mas também aprendeu que, às vezes, o orgulho é a última coisa que resta quando tudo o resto já se perdeu. A casa era pequena, o estômago, vazio, e o coração, cansado.
As paredes suavam humidade e os irmãos pequenos dormiam encostados uns nos outros como pássaros feridos. A mãe já não sorria, apenas trabalhava exausta, como se a vida lhe tivesse roubado o verbo “descansar”.
Uma vez, ele ouviu-a dizer ao vizinho: — “Se não fossem essas crianças, eu já teria acabado com tudo.” Aquelas palavras ficaram a ecoar na mente dele como um tambor distante. Desde esse dia, Kiluanje passou a carregar uma culpa muda, a culpa de existir, de não conseguir aliviar o peso daquela mulher que lhe deu tudo.
A rua ensinou-lhe rápido: quem é honesto, morre cedo. Ver os amigos prosperarem no errado corroía-lhe a alma. Via rapazes da sua idade a conduzirem carros, a vestirem roupas caras, e sentia uma inveja amarga, daquelas que o próprio coração tenta negar mas o corpo reconhece. E, nas noites longas, perguntava-se: “Será que a dignidade paga renda?” Freud dizia que o homem é movido por pulsões, desejos reprimidos que o empurram para a sobrevivência. Kiluanje percebia isso não nos livros, mas nas filas intermináveis dos autocarros da cidade capital, onde cada empurrão era uma lição sobre a natureza humana. “A escassez transforma a moral em luxo”, pensava. E quanto mais o tempo passava, mais via as pessoas a deixarem de ser pessoas. Ele mesmo começou a sentir a alma a descascar. Mentiu uma vez, e a culpa doeu. Mentiu de novo, e a culpa doeu menos. Na terceira, já nem doeu, simplesmente alimentou o vazio.
A fotografia era a única coisa que lhe restava. Através da lente, ele tentava ver beleza onde a vida só lhe mostrava cinzas. Mas a câmara era emprestada, o tripé, velho, e o estúdio, uma sala com uma cortina a servir de fundo. Ainda assim, quando o obturador clicava, sentia-se vivo.
Um dia, recebeu uma chamada. Era um homem do evento “Kizomba Roots”. Precisavam de um fotógrafo profissional. — “Tem todo o equipamento necessário?” — perguntou a voz. E ele, sem pensar, respondeu: — “Tenho sim.” A mentira saiu fácil, leve, quase natural. Mas à noite, deitado, o peito doía. Era como se a alma lhe tivesse saído do corpo por uns instantes. A teoria da dissonância cognitiva ecoava na cabeça, quando o comportamento contradiz a crença, nasce o conflito interno. E ele estava em guerra consigo mesmo.
No dia seguinte, vestiu a melhor camisa, limpou a câmara remendada e partiu. O evento era luxuoso, mulheres perfumadas, homens de fato, gargalhadas caras. Ele sentia-se pequeno, mas ao olhar pelo visor, tudo fazia sentido. Fotografar era o seu refúgio; a lente era o único lugar onde ele ainda podia ser honesto. Trabalhou o dia todo, captou sorrisos, gestos, luzes, como se cada clique fosse um pedido de desculpa à vida. Quando entregou o resultado, todos elogiaram. “Fotógrafo de talento!”, diziam. Mas o elogio doía, soava falso dentro dele, como uma roupa que não lhe servia.
Na hora do pagamento, o silêncio pesou. Ele olhou o envelope e sentiu o coração bater com força. As palavras escaparam-se:
— “Senhor… nada do que usei é meu. A câmara é emprestada, as luzes são velhas do meu vizinho. Só o olhar é meu. E a vontade… de levar um dinheiro pra casa, desculpe por ter mentido.”
O homem ficou quieto. Depois, estendeu o envelope e disse:
— “O que é teu está aqui dentro. O resto, a vida resolve.”
Kiluanje saiu dali com o dinheiro nas mãos, mas o coração leve. A mentira tinha custado caro, mas a verdade devolvera-lhe um pedaço da alma.
Caminhou pelas ruas sujas, ouvindo o batuque distante e o murmúrio da cidade que nunca dorme. Pensou na mãe, nos irmãos, nos sonhos adiados. Pensou em quantas vezes teve de se curvar à necessidade, quantas vezes o mundo o empurrou para o lado errado. E entendeu: sobreviver é o verbo mais cruel da língua humana.
Quando chegou a casa, encontrou a mãe adormecida com as mãos cobertas de calos e o rosto cansado. Colocou o envelope sobre a mesa e ficou a observá-la em silêncio. Uma lágrima caiu, não de tristeza, mas de gratidão por ainda sentir algo. Porque, no fim, o que o mantinha vivo não era a esperança de ser grande, mas o esforço diário de não perder a alma.
Kiluanje sabia que no dia seguinte tudo recomeçaria; a luta, o medo, a fome, a mentira. Mas também sabia que enquanto conseguisse ver beleza mesmo na dor, ainda não estaria morto por dentro. E talvez, pensou, esse fosse o verdadeiro milagre de viver em Angola: continuar humano quando tudo à volta tenta fazer-te esquecer o que é ser gente.
Então saiu para caminhar de forma introspectiva como ensinará William Wundt e naquele instante, percebeu que vender a alma nem sempre é um acto consciente. Às vezes, acontece aos poucos, na mentira pequena que se repete, na humilhação engolida para não perder o emprego, no sorriso forçado diante de quem te despreza, na aceitação do inaceitável.
E assim, Kiluanje seguiu, não como herói, nem como vítima, mas como um dos muitos que caminham nas margens invisíveis de Luanda, tentando, entre o pó e o desespero, responder à pergunta que a vida lhe sussurra todos os dias:
“Quanto vale não perder uma alma?”
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Quanto vale não perder uma alma?
Short StoryQualquer preço para venderes a tua dignidade é baixo.
