ato 1

42 14 93
                                        

O choque violento dos golpes metálicos dos robôs na arena do parque fez todos ali gritarem e vibrarem, inclusive eu, que sentia uma emoção que não encontrava em nenhum outro local simples da minha vida.

Eu almejava estar no lugar daqueles competidores sérios e determinados, sendo aplaudido por todos.

Mas logo minha admiração foi quebrada por passos atrás de mim e por uma voz que me fez lembrar do motivo da pressa ao sair da escola.

— Olha só o que temos aqui! — ouvi de uma voz grossa e irritante, antes de ser empurrado e cair em cima do gramado do parque.

Me virei no chão sem muita vontade. Estava acostumado com esse tipo de abordagem, principalmente daquele babaca e de seus dois amigos silenciosos, mas amedrontadores.

— Por que tá assim? — disse ele. — Acha que pode lutar assim? Não tem dinheiro nem pra comprar um robô aspirador.

Ele riu, seguido de risadas quase automáticas de seus amigos, como se fossem programados pra isso.

— Nem se tivesse dinheiro poderia lutar — disse um dos garotos ao seu lado. — Não deve ter cérebro suficiente pra manejar um robô. É só ver pelas notas.

Fiquei em silêncio. Não era a primeira vez que diziam isso. Estava de saco cheio da zombaria deles. Mas, naquele dia, quando olhei pra ele sem conseguir responder, tive vergonha de mim por não revidar.

Num instante, me levantei de um salto e falei pra eles mais rápido do que consegui processar as palavras que dizia:

— Aposta que eu não consigo?! Eu vou te enfrentar e vencer!

— Nossa, tô com muito medo — debochou o rapaz. — Vai me destroçar.

— E-eu vou! — não pensei direito onde me metia quando disse isso. É um mau hábito meu agir primeiro e me arrepender depois. Sorte minha que eles já haviam se distanciado, de costas pra mim, quando disse essa parte.

Eles nem levaram a sério o que eu disse, certamente. Mas eu levei. Sabia que tinha de fazer isso pra me deixarem em paz, mesmo não sabendo como.

Meu instinto provocante e corajoso desmoronou em instantes. Fiquei desesperado. O que eu iria fazer? Como derrotá-lo? Ou como conseguir o dinheiro pra comprar um robô?

Decidi fazer um trabalho como aprendiz de mecânico de robôs numa loja. Por um lado era bom, pois eu aprendia a mexer com robôs; por outro era ruim, pois toda semana via os moleques chatos que desafiei pedindo conserto dos robôs, que arrebentavam com tanta frequência, como se fossem tratados como lixo.

Passei dois meses na loja, admirando os robôs bonitos e caros, mesmo sabendo que só podia comprar um de linha base, que custava cerca de mil revis.

Depois de três meses, tinha a grana e fui comprar. Porém, tinha ficado quinhentos revis mais caro, provavelmente culpa da inflação. Agora sobravam apenas robôs velhos ou os básicos de criança. Fui dar uma olhada porque, afinal, não tinha o que perder.

De um lado, robôs velhos e com partes faltando. Do outro, robôs bonitinhos e fracos, feitos pra brincar.

Mas tinha um que era minimamente decente.

Um PR, ou robô parceiro, pra ser preciso. Feito pra ser um companheiro de crianças. Não era colorido a ponto de dar dor nos olhos, nem fofo a ponto de ser ridículo numa luta.

Tinha aparência básica: um humano arredondado de prata, com cerca de um metro de altura, um sorriso bobo e olhos brilhantes e vidrados. Não era nada empolgante ou que passasse uma vibe de luta.

Comprei ele só porque não queria sair de mãos vazias da loja.

Abri ele no parque, no caminho de casa. Quando o iniciei, ele saltou agitado, acenou pra mim e depois me abraçou. Fez tudo isso enquanto emitia bips animados, como uma criança hiperativa. Mesmo achando ele bobo, ainda gostei. Não era irado, mas pelo menos podia ser divertido. Não perderia meu tempo com ele. Senti que seríamos, pelo menos, amigos.

Decidi enfrentar meu primeiro adversário: um robô muito mais maneiro, com garras.

Meu robô o atacou com uma sequência de socos retos repetidos, como se nem pensasse ao executá-los. Já o adversário era ágil e rapidamente partiu o braço do meu robô ao meio, derrubando-o instantaneamente, deixando-o choramingando no chão.

A imagem do robô caído definitivamente não refletia um lutador.

Talvez não tenha sido uma boa ideia comprá-lo, mas não queria gastar dinheiro à toa. Queria ver até onde ele chegaria. Afinal, qualquer um, com treinamento, poderia virar um campeão.

Arena De Ferro Stories to obsess over. Discover now