1 - Henrique Eliel.

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Eliel era um garoto reservado, sempre morou na favela com seu irmão, que sempre foi envolvido. O garoto sempre teve um certo interesse pelo crime, mas nunca chegou a se aprofundar demais.
Com 16 anos, Henrique foi embora da favela pra morar com seus pais fora da cidade. Aos 20, agora voltava pra favela, de cabeça erguida e com mais maturidade.

Só avisei à minha tia — que tinha se mudado pra favela quando eu saí — que eu ia voltar. Quis fazer uma surpresa pro meu irmão.
No aeroporto, reconheci a mulher de longe: um pouco diferente, mas nada demais. Cabelos mais longos, pretos, a aparência sempre jovem, mesmo com 40 anos. Parecia que ninguém envelhecia nessa família, puta que me pariu.

Assim que ela me viu, veio correndo na minha direção gritando “Henrique!!”, atraindo a atenção de todo mundo que tava ali. Eu queria me enfiar num buraco. Sempre odiei chamar atenção — agora, com essa coroa gritando meu nome, subia uma vergonha do cacete.
Quando ela chegou perto, me abraçou forte, me apertando pra cacete; por pouco não morri sem ar.

— Porra, coroa. Parece até que morri e nasci de novo — falei em tom de brincadeira, ainda abraçando ela de volta.

— Me respeita, moleque. Coroa é tua avó — ela falou, se separando do abraço e colocando as mãos no meu rosto como se eu fosse uma obra de arte.

— Tá mudado, hein? Nem parece aquele moleque de antigamente.

Na hora bateu uma nostalgia. Saudades desse tempo, saudades de quando eu era criança. Se eu pudesse voltar no tempo, teria aproveitado mais.

— Todo mundo, né, velha.

Peguei minhas malas e fomos em direção à favela. O caminho até lá parecia o mesmo, mas ao mesmo tempo não era. As ruas tinham mudado, algumas casas mais arrumadas, outras pioradas, e aquele clima de favela que eu conhecia bem — som alto de longe, gente na calçada, criança correndo descalça, moto passando rápido demais. Era como se tudo tivesse parado no tempo, mas eu tivesse avançado vinte anos.

Quando virei a esquina principal, senti aquele cheiro de comida na brasa misturado com poeira. Deu uma travada no peito. Eu tinha deixado aquilo tudo pra trás, mas, no fundo, sempre foi minha casa. Minha tia me olhou e deu um sorriso de canto, como quem sabe exatamente o que eu tô sentindo.

— Tá com saudade, né? — ela disse, empurrando meu ombro de leve.

— Caralho… tô pra porra  — respondi baixo, olhando ao redor.

Passamos por uns caras que eu já não reconhecia. Uns me olharam, outros só seguiram a vida. A favela tem disso: se você some, você vira lembrança rápida. Mas eu não liguei. Eu tava mais preocupado em ver meu irmão, em sentir que eu tava de volta.

Quando chegamos na rua de casa, vi que a fachada tinha mudado um pouco. Pintaram de azul claro, colocaram umas plantas na janela… coisa da minha tia, certeza. Antes que eu batesse na porta, ela gritou lá de baixo:

— FILHO DA MÃE, ABRE A PORTA QUE TEM SURPRESA!

Eu quis me esconder de novo. Sempre espalhafatosa essa mulher.

O barulho de correria veio de dentro, e quando a porta abriu, lá estava ele: meu irmão. Mesma cara fechada de sempre, tatuagem nova no pescoço, mas o olhar… o olhar era o mesmo do moleque que dormia comigo no mesmo colchão furado.

Ele ficou parado uns segundos, como se o cérebro tivesse travado.

— Não é possível… — ele murmurou.

Eu abri um sorriso.

— Fala, porra. Não vai me abraçar, não?

Ele veio pra cima de mim tão rápido que quase derrubou minha mala. Me puxou num abraço forte, daqueles que travam a respiração, mas que você não quer soltar nunca. O cheiro dele ainda era o mesmo: perfume barato misturado com suor e rua. Meio estranho, mas familiar.

— Caralho, Henrique… tu voltou, mano… tu voltou mesmo… — ele disse, com a voz falhando.

Eu senti o peito dele tremer um pouco. Ele tentou esconder, mas eu percebi. Meu irmão nunca foi de demonstrar nada, sempre durão, sempre blindado. Ver ele daquele jeito mexeu comigo.

— Voltei, pô — falei, batendo de leve nas costas dele. — Tu achou que eu ia sumir pra sempre?

Ele se afastou só o suficiente pra me olhar no rosto. A cara fechada, mas os olhos… os olhos estavam brilhando.

— Eu achei que tu tinha ido ser “gente grande”, né — ele riu de canto, meio debochado. — Esquecer dessa porra aqui. Esquecer de mim.

— Nunca, porra. Tu é meu irmão. — falei firme.

Ele encarou minhas roupas, meu jeito, meu corpo mais forte, meu cabelo cortado alinhado. Passou a mão na minha nuca como se estivesse conferindo se era eu mesmo.

— Tá diferente, hein. Ficou bonito, viado — ele soltou rindo.

— Vai se foder — falei de volta, rindo também.

Ele me puxou pelo braço, como fazia quando éramos menores, me guiando até dentro de casa. Mas antes de entrar, ele parou um segundo e respirou fundo, como se quisesse aproveitar aquele momento.

— Mano… — ele falou baixo, quase sussurrando. — Tu não sabe o quanto eu precisava te ver. Essa porra aqui mudou, tá? Eu mudei. Mas tu… tu sempre foi minha base. Quando tu foi embora… eu fiquei perdido pra caralho.

Eu senti um peso na garganta, mas mantive a postura.

— Então é bom que eu tô de volta pra te botar no eixo, né? — falei, dando um tapa leve no peito dele.

Ele deu um sorriso pequeno, sincero, daqueles que ele dava só quando ninguém tava vendo.

— Vem, porra. Entra logo antes que eu fique emocionado e a rua inteira descubra.

Entramos juntos, lado a lado, como sempre foi.

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Primeira fanfic galerinha, me dêem ideias. 🥺🥺

De Volta pro Morro. Where stories live. Discover now