Prólogo

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TW: breve menção à vômito.


A primeira vez que vejo Lorena Ferette, estou bêbada, de coração partido e tenho um vaso tailandês do século XIX erguido na direção dela.

Em minha defesa, não faço ideia de quem ela seja – o que significa que só tomarei conhecimento da sua pequena coleção de sucessos nas paradas musicais vinte e quatro horas depois desse momento. Então, quando ela ergue uma frigideira na minha direção, em uma tentativa fracassada de retaliação ao meu gesto, tenho certeza que minha melhor amiga, Maggye, acaba de ter seu apartamento invadido por uma estranha.

Uma estranha que decidiu dar uma passadinha pela geladeira, antes de começar a esvaziar a sala de estar.

– Paradinha aí, gracinha. – Ela não parece que vai se mover, mas digo mesmo assim, porque quero mostrar que tenho controle da situação, mesmo que eu tenha nas mãos a coisa menos ameaçadora do mundo. – Quem é você?

– Engraçado, eu ia te fazer essa mesma pergunta.

Não consigo ver mais do que a silhueta de um rosto na penumbra da cozinha americana, mas posso identificar pelo tom de voz que ela está sorrindo. Isso me faz concluir que, além de folgada, a intrusa é atrevida.

Dou um passo à frente, com o braço ainda estendido e tempo de sobra para entrar em uma briga.

– Polícia – digo, pensando no que o meu chefe diria se me ouvisse dizer as próximas palavras. – Agora solta a frigideira devagar e coloca as mãos onde eu posso ver.

Para a minha irritação, a garota não move um único fio de cabelo.

– Acho que você entrou no apartamento errado, policial.

– Na verdade, eu tenho certeza de que tô no lugar certo. – A foto de Kasper Damatta e João Rubens abraçados à Maggye, pendurada do outro lado da sala, é a única prova de que, se há alguém com razão, essa pessoa não é ela. – Então, é melhor você começar a fazer o que eu pedi, ou vamos ter problemas. – A engraçadinha não parece tão convencida disso, no entanto, porque começa a rir. – O que é, hein? Eu não fui clara o bastante pra você?

– Transparente. Mas qual é o seu plano? Me algemar com os cadarços da sua bota?

O som que sai da minha garganta reverbera pelo ambiente como um grunhido de perplexidade. Então, no instante seguinte, fico muito tentada a dar à ela voz de prisão para provar um ponto, mas sou uma simples estagiária que acabou de flagrar a namorada com a boca na virilha da ex, e, portanto, não tenho um distintivo.

– Até que não é uma má ideia – digo, insultada o suficiente por um dia para me deixar vencer tão fácil. – Mas, como você sabe que eu não tenho um par de algemas prontas para serem usadas?

Sinto seus olhos me escanearem na escuridão.

– Você tem?

– Isso não vem ao caso. – Ouço ela tentar conter com uma risadinha e preciso fazer um esforço sobrenatural para não arremessar o vaso em sua cabeça. – Sabe de uma coisa? Vamos fazer o seguinte: eu vou colocar esse vaso aqui embaixo – aponto para o chão – e você vai fazer o mesmo aí.

A garota parece ponderar os riscos. Por fim, sem escolha, decide aceitar.

– Tudo bem – ela diz. – No três.

– Beleza. Eu começo. Um...

– ...dois... – Vejo ela começar a baixar o braço lentamente, conforme meu corpo se inclina para frente.

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