Kimberly Wilson sempre preferiu ficar em segundo plano, longe dos holofotes, enquanto Steve Harrington era o garoto mais popular e barulhento da escola. Eles nunca tiveram nada em comum, além de uma antipatia mútua que deixavam bem clara nos corredo...
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PRÓLOGO
Às vezes Hawkins parecia suspensa no tempo. Como se a cidade pacata e simples estivesse em sua própria linha temporal, alheia ao mundo lá fora que continuava a girar. Hawkins continuava sendo Hawkins. E nada parecia mudar, pelo menos, é o que Kimberly pensava.
Kimberly Wilson, filha de Albert e Stela Wilson, tinha uma vida normal nos subúrbios de Hawkins. Sua mãe colecionava status como colecionava vinhos caros, e Albert, o pai de Kim, colecionava milhas aéreas. Ele amava viajar, especificamente para qualquer lugar que não fosse aquela casa silenciosa e fria, para longe de Hawkins, para longe delas. Kim nunca teve uma relação muito próxima com seus pais, sabia que estava longe de ser a filha perfeita que Stela queria, mas os amava mesmo assim.
Ela ajeitou a franja no reflexo do espelho, seus olhos analisando a garota que a encarava de volta como se fosse uma estranha num teste de elenco, seus cabelos castanhos estavam presos para trás com uma presilha delicada, e seu cardigã estava devidamente passado, sem nenhuma dobra ou imperfeição. Nenhuma linha fora do lugar, pensou, diferente de mim.
Não que se considerasse particularmente interessante ou destemida, Kim sabia que estava longe de ser uma protagonista forte como Ellen Ripley ou Laurie Strode, não havia nada na personalidade dela que a destacasse em um grupo de garotas. Mas é claro que, para sua mãe, isso não era verdade.
Stela nunca gostou de seu jeito, ela queria uma filha perfeita e delicada, uma cópia perfeita da mãe que se tornara rainha do baile aos 16 anos e esposa aos 19. Kimberly, no entanto, estava mais interessada em assistir filmes e ler livros do que interagir com pessoas, longe de ser a borboleta social que sua mãe desejava, suas únicas amigas eram Barbara Holland e Nancy Wheeler.
Barbara ou Barb, como gostava de ser chamada, parecia reservada e tímida, mas tinha um humor e esperteza que ela admirava, Nancy apresentou as duas na 8ª série e desde então, formaram um trio. Enquanto Nancy brilhava no centro, Kim e Barb orbitavam confortavelmente nas margens, conectadas por livros, silêncios cúmplices e a sensação compartilhada de não pertencerem totalmente a esse mundo.
Enquanto Barb e Kim se conectaram por meio dos livros, Nancy e Kim nunca precisaram de uma introdução. Stela Wilson e Karen Wheeler eram melhores amigas no ensino médio, engravidaram ao mesmo tempo e se casaram na mesma época, as duas meninas nunca conheceram uma vida sem a outra, e foram criadas como irmãs.
Kimberly tinha a casa dos Wheeler como sua segunda casa, Mike era quase como seu irmão e seus amigos, Dustin, Will e Lucas, ela os via como seus priminhos irritantes e, ocasionalmente, engraçados. Ela e Mike compartilhavam o mesmo gosto por histórias mirabolantes e filmes de ficção científica. Enquanto Will, o mais quieto do grupo, a ajudava a desenhar storyboards e criaturas fantasiosas, baseadas nas campanhas de D&D que eles jogavam no porão de Mike. Dustin e Lucas com suas personalidades vividas e curiosas estavam sempre oferecendo informações curiosas e piadas bobas que a faziam rir mesmo assim. Sendo filha única, estar com Nancy e Mike e sua pequena trupe, era como ter uma família grande e vibrante, distraindo ela da casa vazia e sem vida em que ela morava. Era perfeito.
Mas as coisas não ficam perfeitas por muito tempo. Conforme Kim crescia, a idade foi distanciando ela desse mundo colorido. Suas camisetas e calças largas foram trocadas por cardigãs e saias rodadas, seus cabelos bagunçados agora eram lisos e penteados e seus sonhos eram escondidos por trás da fachada de boa moça que ela se empenhava em manter. Enquanto Nancy começava a olhar para garotos como Steve Harrington, e o porão começava a parecer... pequeno.
Ela queria gritar, queria correr de volta para as aventuras imaginárias, mas a infância estava escapando por entre seus dedos como areia numa ampulheta, de forma ligeira e pontual. Ela queria que fosse diferente, mas ela não poderia ser uma criança para sempre.
Histórias eram para crianças, monstros não existem e agora Kimberly precisava crescer.
O que ela não sabia, ao olhar para aquele espelho perfeito numa manhã de novembro de 1983, era que os monstros estavam cansados de ficar apenas nas histórias. E eles estavam prestes a bater à sua porta.