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Já estava acordado, mas ainda deitado, fitando o teto. Sempre coloco o despertador do celular para tocar quinze minutos antes do horário de trabalho, justamente por ter certeza de que terei o meu momento para observar o teto do quarto. Pensar na vida, dilemas e crises existenciais. Sentindo o ar, me dando a oportunidade de pedir os famosos "mais cinco minutos" por preguiça mesmo.

Morar com a Dona Rose, minha avó, é ótimo e tem sido assim desde que nasci. Afirmo, com toda a certeza, que fui criado muito bem. Infelizmente, minha mãe faleceu no parto e meu pai só me procurou duas vezes na vida. Dona Rose puxa a minha orelha quando necessário, que é quase sempre, me apoia em todos os meus sonhos e objetivos e é minha amiga. Ela é o tipo de avó que quer mimar o neto, principalmente por eu ser o único. Só tem um porém, eu acho desrespeitoso deixar uma senhora de Setenta e cinco anos, aposentada de suas funções no Aeroporto, onde trabalhou por Vinte e sete anos como Aeromoça, arcar com todas as despesas sozinha.

Então, eu sempre trabalhei. Que fosse varrendo o chão de uma barbearia com Doze anos, Repositor em Supermercado com Quinze ou Jovem aprendiz no setor administrativo em uma Corretora de Imóveis com Dezenove, apenas tinha que ter o meu dinheiro e ajudá-la nas despesas de casa. Agora, com os meus Vinte e três, meu contrato na Corretora estava se aproximando de seu desfecho, mas eu tinha esperanças de uma efetiva contratação. Aliás, pensando tanto sobre esse assunto enquanto encarava o meu céu de concreto, percebi que já estava atrasado para pegar o metrô.

Corri. Banho de gato, uniforme, que nada mais era do que uma roupa social, sapato e mochila. Peguei minha carteira e chaves na mesa da sala. Dei uma mordiscada na torrada que a Dona Rose havia servido para o café da manhã e um gole no suco de manga. Um beijo na testa da senhora de peles firmes e saí.

Chegando quinze minutos atrasado no trabalho, fingi que nada estava acontecendo. Cumprimentei todo mundo, ajeitei a gravata, sentei à minha mesa. Tudo caminhando normalmente. É claro que todos perceberam, principalmente meu chefe, que eu havia chegado àquela hora, mas ninguém comentou nada e agradeci mentalmente por isso. Terminei os relatórios do dia anterior, do dia atual e o do dia seguinte. Isso porque, quando se trata de trabalho, sou excepcionalmente focado em cada detalhe. Basta me imaginar no comando. Se fossem meus funcionários, eu gostaria que tudo fosse feito com eficiência e rapidez, logo, faço o melhor que posso.

Trabalhava na sala do Departamento pessoal e à esta hora, já nos encontrávamos próximos do horário de almoço. Eu estava usando meus fones, com volume do som em noventa por cento, quando observei que Cooper, nosso Gestor, não havia comparecido ao trabalho hoje. Após esta observação, avistei

Anne da contabilidade adentrar o escritório duas vezes sem motivo algum. David do R.H. também se fez presente, me desejou um bom dia e saiu. Percebi que tinha algo estranho, orei à Deus, mas a ansiedade me dizia ser algo relacionado ao fato de eu ter chegado atrasado duas vezes, só neste mês.

— Nicolas. — Howard, Supervisor do Setor administrativo, abriu a porta — Antes de você descer para o almoço, compareça à Sala do Roberto. Queremos ter uma conversa com você, ok?

— Ok.

Logo voltei minha atenção para a tela do computador, mas as letras e imagens estavam embaçadas porque meu foco visual não estava lá. Isso tudo culpa da minha mente que embaralhou com tantos pensamentos. Respirei fundo. O foco visual retornou. O que tiver que ser, será. O medo soou no ar, mas não podia deixar isto me abalar. Inclusive, rimou.

Roberto, que era o Gerente geral da Companhia, não costumava estar na firma todos os dias, então com certeza ele teria algo importante a dizer. Finalizei as tarefas abertas no computador e levantei da cadeira. Arrumei minhas coisas, para não perder tempo quando me dessem a notícia e peguei o elevador para comparecer onde fui designado. Bati levemente na porta e escutei a voz de Roberto, permitindo a minha entrada. Estavam lá, Howard e Roberto, sentados nas cadeiras prateadas de acentos cor marrom e servidos com seus drinks. Me aproximei com postura e passos firmes.

A Maria da minha vidaDove le storie prendono vita. Scoprilo ora