Íris estava dormindo.
Não profundamente — daquele jeito meio leve, onde o corpo descansa mas a mente fica aberta, vulnerável, esperando qualquer coisa entrar.
A casa estava quieta, mas não aquele silêncio tranquilo. Era um silêncio pesado, meio abafado, como quando alguém segura a respiração atrás da porta.
No sonho, ela estava deitada do mesmo jeito que estava na vida real. Mesma posição. Mesma coberta. Mesmo escuro.
Só que havia algo no quarto.
Ela não via.
Ela sentia.
Primeiro, foi um toque leve, quase um fio de cabelo encostando na sua orelha. Nada demais. Só um arrepio. Mas depois…
Veio o peso de algo fino, alongado, rastejando devagar, como quem não tem pressa nenhuma.
Uma perna.
Depois outra.
Depois muitas.
Não dava pra ver.
Mas dava pra sentir cada movimento.
Subindo pelo travesseiro.
Chegando perto da orelha.
E então entrou.
Não arranhou.
Não mordeu.
Só entrou.
Como se já conhecesse o caminho.
Íris tentou se mexer no sonho, mas o corpo não obedecia. Era como se ela estivesse observando o próprio medo de fora, vendo ele acontecer sem poder impedir.
Quanto mais o bicho se ajustava dentro da orelha, mais ela sentia um calor estranho se espalhando, como um pulsar suave.
Foi aí que ela acordou.
Acordou como se tivesse sido puxada de volta, com o peito subindo rápido, a respiração curta.
O quarto estava igual.
Escuro, quieto, parado.
Mas a orelha doía.
Como se algo ainda estivesse lá dentro.
Como se o sonho não tivesse terminado de verdade.
Ela respirou fundo, tentando convencer o corpo de que era só um sonho.
Mas a sensação na orelha ainda estava lá, fraca, teimosa.
E, mesmo sabendo que não tinha nada, mesmo sabendo que era coisa da cabeça, Íris ficou inquieta.
Parecia que, se ela desse bobeira, o bicho ia voltar.
Então ela puxou o cobertor até cobrir a cabeça inteira, deixando só o nariz pra fora.
Fechou a orelha com a mão, como quem protege uma porta.
Não porque acreditava no sonho.
Mas porque o susto tinha sido real demais.
E ficou assim, encolhida, respirando quente dentro do cobertor, esperando o corpo entender que estava segura.
A casa continuou quieta.
Mas naquela quietude que faz a gente ouvir o próprio medo.
