PROLOGO

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"Predador é a história de como um acaso pode se transformar em um pesadelo cuidadosamente calculado."

"A infância difícil é capaz de criar adultos incríveis."

Amélia leu essa frase certa vez, e adoraria conversar com o autor dela.

Passou toda a vida vendo a mãe criar ela e a irmã mais velha com todo o esforço possível, era o que restava após o abandono do pai. Infelizmente, algo comum até demais.

Amélia nunca se lamentou. Não tinha tempo para isso.

Se sua mãe era forte, ela também precisava ser, para ajudar a irmã.

Quando finalmente chegou sua vez de se formar no ensino médio e seguir uma carreira, não pensou duas vezes. Fez o que passou anos ouvindo a mãe repetir: "Entre na faculdade. Pode não garantir nada, mas me fará dormir em paz."

Era tudo o que aquela mulher queria. Que as filhas pudessem estudar em paz, construir um futuro estável e, claro, manter-se o mais distante possível de rapazes.

Esse era o plano.

Mas para Amélia, era complicado. Seu curso tinha quase 70% de homens, e a competitividade logo começou a afetar sua mente.

Segundo sua mentora na faculdade, o melhor a se fazer era encontrar um meio de escape do estresse.

E foi assim que Amélia passou a ajudar alunos com dificuldades, de outros cursos, de outras áreas.

Passar as tardes conversando, estudando e conhecendo pessoas diferentes acalmava sua mente.

Fez com que se sentisse um pouco mais... capaz.

Até aquele dia.

Nunca precisou entrar no prédio das Artes, na verdade, o dela ficava bem distante. Mas, naquela tarde, precisava muito.

Estava coordenando um projeto científico e precisava da colaboração deles.

Nada além do comum. Apenas cursos se misturando em prol de uma ideia, mostrando como a universidade era cheia de talentos e pesquisa.

Aqueles olhos pousaram sobre ela pela primeira vez no laboratório.

Ele a olhou de relance e Amélia teve certeza de uma coisa: no fim do dia, ele nem se lembraria do seu rosto.

Esse pensamento trivial a acompanhou durante todo o caminho de volta.

E estava absolutamente errada.

O mais irônico é pensar nisso agora.

Desde aquele instante em que os olhos azuis cristalinos, elétricos e vivos como o clarão de um raio, com as pupilas dilatadas apenas porque ela estava de frente para ele, seus olhos encontraram os dela, a vida de Joseph nunca mais foi a mesma.

Ele nunca foi o tipo galanteador, nem aquele que chega em qualquer garota dizendo "gostei de você".

Pelo contrário.

Sua criação foi rígida demais, e o ambiente em que vivia julgaria essa atitude.

Joseph era o tipo quieto, retraído, inseguro. Diferente dos homens da família, que na sua idade já tinham conquistado algo, feito algo.

E ele... parecia apenas aquele garoto silencioso, sensível, que preferia não dizer o que sente - porque sentir, na casa dos Burrow's, não era coisa de homem.

Amar não era coisa de homem.

Ser homem era ser bruto, ignorante, um galinha.

Quando criança, se caísse e cortasse o joelho, devia engolir a dor - ou os irmãos ririam, chamando-o de fraco.

Era assim naquela casa:
se você sente, é fraco;
se alguém mexe com você e não revida, é fraco;
se alguém discorda de você, essa pessoa é fraca.

Lembrava-se bem da primeira vez que se apaixonou. Tinha 12 anos.

Os olhos não se desgrudavam dela, o coração batia descompassado, o estômago revirava, e a mente só queria uma coisa: ela.

Sua primeira paixão.

Sentia que o mundo acabaria se não ganhasse um abraço.

À noite, sonhava com promessas, com um "eu te amo" sussurrado.

Por ingenuidade, contou ao irmão. E bastou isso para receber o pior conselho da vida.

"Pegue o pulso dela, leve para um lugar mais calmo e diga que quer ficar com ela. Ou melhor... roube um beijo antes de qualquer resposta. Ela pode fazer charme, dizer que não gostou, mas mulheres são assim.
Se te bater, puxe a blusa. Descubra o que fica por baixo. Você não vai se arrepender."

Joseph tinha 12 anos e um sentimento puro.

Mas ao ouvir aquilo, sentiu-se sujo.
Monstruoso.
E nunca mais ousou olhar para a garota outra vez.

Pior, nunca mais permitiu que o coração balançasse por alguém.

Se amar significasse agir como um animal, era melhor ficar sozinho.

Mas o peso da solidão, quando não se quer estar sozinho, é devastador.

Aquele garoto risonho, alegre e sonhador desapareceu pouco depois disso.

Em seu lugar ficou um homem que se comunica mais com gestos do que com palavras, que sorri pouco e ri menos ainda.
Um homem analítico, que vê a felicidade como algo superficial, momentâneo, quase ilusório.

Nunca teve bons exemplos do que é "certo", especialmente com mulheres.

O modo como o pai e os irmãos agiam sempre lhe pareceu lamentável. Mas dizem que o pássaro nunca cai longe do ninho.

Talvez Joseph fosse muito pior do que eles.
Talvez todos aqueles anos de silêncio, reclusão e sensibilidade fossem, na verdade, o que lhe deu coragem para fazer tudo o que viria depois.

Porque talvez...quando você é a presa por tanto tempo, cercado por predadores sem misericórdia, a única escapatória que resta...seja tornar-se um predador.

PREDADORWhere stories live. Discover now