Capítulo 1- A SIMBIOSE DAS AMÉLIAS

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      ALERTA: esse livro contém menção a pensamento suicida, violência doméstica, abuso, entre outros gatilhos.


                                                               2015


Indicação de música para esse cap: ''At The Beach, In Every Life'' de Gigi Perez


Todas as mulheres da minha família são Amélias, mulheres que se dedicam aos maridos, à família, ao trabalho doméstico e aos filhos. Nem sempre quiseram mudar, às vezes, é da natureza da pessoa ser daquele jeito, ou porque elas não se incomodam de serem mulheres comuns. A culpa talvez seja da cultura enraizada passada por tradições. Se tem algo a criticar é o patriarcado, no mínimo.

Foram muitos anos de resignações pessoais na minha família: minha irmã Carolina, mais velha que eu, sempre se envolvia em relacionamentos abusivos, com caras estranhos em bares a noite em São Paulo, desde quando eu era pequena. Ela prometia que o próximo homem na vida dela seria diferente, mas era uma compulsão doentia, porque, afinal, ela não queria acabar sozinha. Por outro lado, a minha mãe, Flávia, era obediente ao marido, em tarefas domésticas, fazer comida e cuidar dos filhos. Ela nunca terminou a faculdade, porque o meu pai, já falecido, que Deus o tenha, não queria que ela trabalhasse e se saísse melhor que ele.

Infelizmente, esse ciclo se repetiu quando ela conheceu apróxima figura masculina, o meu padrasto, que nada de bonzinho tinha, pois ele não deixava minha mãe sair com as amigas, ou sair sozinha, ou seja, a calava sempre quando o assunto era de volta aos estudos. Por fim, eu, que ficava nessa simbiose atrelada as influências femininas na casa, sem saber o que era ser uma mulher de verdade.

Não é fácil quebrar um ciclo e recomeçar de novo, leva-se anos e claro, muita terapia. Eu tinha certeza de que um dia eu seria diferente, pelo menos eu tinha esperança. E como Emily Dickinson disse: ''Esperança é a coisa com penas'', ela sempre voa longe se você permite.    

A grande mudança veio em 2015. Eu tinha 23 anos e cursava faculdade de Letras, na USP (Universidade de São Paulo). Naquele mesmo ano, conheci um cara nerd, divertido, detentor de muitas sabedorias: jogos, literatura e apreciador delínguas antigas. O piá estudava comigo e passávamos horas conversando sobre autores antigos e outras histórias diversificadas durante as aulas, e depois veio as "saideiras" nas casas de amigos que nem conhecia; as comidas que me forçava a comer; lugares que eu detestava ir. Depois que alguns meses passaram, ele começou a mostrar traços possesivos e exigentes, e dizia: "Onde você vai vestida toda elegante?"; "Por que não me chama para sair com você?"; ''Já limpou a casa?; "Eu quero que cozinhe isso e aquilo!"; "Só saia quando terminar o almoço!".           

Estava esgotada, resolvi ligar para minha irmã e minha mãe no dia que eu e Benjamim tivemos uma discussão. Sabia que seria o fim.                                                                                  

– Me encontrem no Café Martinelli – falei para elas.       

Entrei no edifício e pedi para um garçom um expresso. 

Na caixinha de som estava tocando "Crosses", de José González. Eu me permiti sentir aquela música e toda a vida que eu e Benjamim tínhamos passou como um filme na minha cabeça, desvanecendo aos poucos. Era como aquele clipe da música "We can't be friends (wait for your love)", da Ariana Grande. Eu não precisava de um procedimento cirúrgico futurista para remover todo o mal daquele relacionamento, eu precisava senti-lo.      

A QUEBRA DO CICLOWhere stories live. Discover now