Eu me chamo Olívia Brown, e tenho 16 anos. Às vezes, quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir a voz do meu pai ecoando no quarto vazio da nossa antiga casa. "Olívia, minha pequena pensadora, o mundo é um livro infinito, e você é a leitora mais atenta que eu conheço." Ele dizia isso enquanto folheava um dos seus velhos tomos de filosofia, com aqueles óculos tortos no nariz e um sorriso que iluminava até os dias mais cinzentos. Mas agora, duas semanas depois que o câncer o levou embora, tudo o que resta é o silêncio - um silêncio pesado, como uma névoa que se infiltra em cada canto da minha mente.
Minha mãe e eu nos mudamos para Nockfell logo após o funeral. Foi uma decisão rápida, quase impulsiva, como se fugir da cidade velha pudesse apagar as memórias que nos sufocavam. Ela disse que precisava de um recomeço, de um lugar onde as paredes não sussurrassem o nome dele a cada respiração. Eu não discuti. Nunca discuto. Sou quieta, introvertida, séria e distante - é assim que as pessoas me descrevem, e talvez elas tenham razão. Prefiro observar o mundo de longe, como se eu fosse uma sombra deslizando pelas margens, sem me envolver demais. Envolver-se dói, e eu já doí o suficiente.
O prédio onde moramos agora se chama Addison Apartments. É um lugar antigo, com fachadas de tijolos desbotados pelo tempo, janelas que rangem ao vento e um cheiro persistente de umidade misturado com algo mais... estranho, como mofo antigo e segredos esquecidos. Nosso quarto é o 403, no quarto andar. Subir as escadas é uma tortura diária - o elevador está sempre quebrado, com uma placa amarelada que diz "Em Manutenção" desde que chegamos. Cada degrau ecoa como um lembrete de quão longe estamos da nossa vida anterior. Minha mãe arrumou um emprego na cafeteria local, servindo cafés amargos para estranhos apressados, enquanto eu me matriculei na escola secundária de Nockfell, um prédio cinzento e sem graça que parece mais uma prisão do que um lugar de aprendizado.
Meu quarto no 403 é pequeno, com paredes pintadas de um bege desbotado que me faz pensar em ossos velhos. Há uma cama estreita contra a parede, uma escrivaninha velha que range quando abro as gavetas, e uma janela que dá para o estacionamento vazio lá embaixo. À noite, as luzes dos postes piscam intermitentemente, lançando sombras dançantes no teto. Eu passo horas ali, deitada de costas, encarando as rachaduras no gesso como se fossem mapas de um mundo alternativo. Meu pai me ensinou a encontrar padrões em tudo - nas nuvens, nas folhas caídas, nas veias das mãos. "Tudo tem uma história, Olívia", ele dizia. Agora, as rachaduras me contam histórias de abandono, de vidas que se desfizeram como poeira ao vento.
O câncer veio devagar, como um ladrão na noite. No começo, eram só tosses secas, fadiga que ele atribuía ao trabalho estressante como professor de literatura na universidade. "Estou bem, filha. Só preciso de um chá quente e um bom livro." Mas os exames revelaram o pior: um tumor no pulmão, agressivo e implacável. Ele lutou por meses, com quimioterapia que o deixava fraco e careca, mas ainda assim tentava manter o humor. Lembro de uma noite, há três meses, quando ele me chamou para o quarto do hospital. Seus olhos estavam fundos, mas brilhantes. "Olívia, prometa que vai continuar lendo o mundo. Não se feche para ele." Eu prometi, com a voz embargada, segurando sua mão ossuda. Duas semanas atrás, ele se foi. O funeral foi simples, chuvoso, com poucas pessoas - parentes distantes e colegas que murmuravam condolências vazias. Minha mãe chorou o tempo todo; eu, não. As lágrimas ficam presas dentro de mim, como um lago congelado que se recusa a derreter.
Chegando a Nockfell, tudo pareceu ainda mais surreal. A cidade é pequena, aninhada entre colinas arborizadas e um rio preguiçoso que serpenteia pela periferia. As ruas são estreitas, ladeadas por lojas antigas com vitrines empoeiradas: uma livraria que vende edições raras (já passei horas ali, folheando páginas amareladas sem comprar nada), uma padaria que cheira a pão fresco e canela, e um parque central onde idosos jogam xadrez sob árvores centenárias. Mas há algo de estranho em Nockfell - rumores que ouvi na escola, sussurrados nos corredores. Dizem que o Addison Apartments tem uma história sombria, com desaparecimentos antigos e vozes que ecoam nos canos à noite. Eu ignoro, ou pelo menos tento. Sou séria demais para acreditar em fantasmas, mas às vezes, quando o vento uiva pelo corredor, sinto um arrepio que não é só do frio.
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Enemies to lovers - Sal Fisher
RomanceOlívia Brown era uma garota quieta, introvertida, séria e distante que se mudou com a mãe para Nockfell após a morte de seu pai, William Brown. Mas o que Olívia não esperava era se apaixonar por um garoto com cabelos azuis e que usava uma máscara. T...
