Moedor de carne

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"Mãe, sei que estás preocupada comigo, ansiosa com meu retorno para que finalmente possa almoçar convosco desde o dia em que parti de minha amada terra para lutar contra as forças paraguaias. Mais ansioso estou pois cada dia em que passo neste sufocante matagal que com doenças e fome matam o ímpeto me atiçava de largar meu rifle e retornar, mas agora pode é tarde.

Anteriormente batalhas eram corriqueiras em algumas linhas, enquanto por aqui mais se pensava sobre a construção e manutenção de vias de abastecimento, até que suspeitamos de algo por conta da crescente chegada de novas brigadas que logo lotaram as tendas nos acampamentos. A comida antes escaça, agora é inexistente.
A cada dia mais soldados vinham e com eles doenças e infecções. Tosse, fraqueza, gangrena, pús, alguns chegavam tão debilitados que nossos companheiros se perguntavam se foram forçados a marchar para cá no intuito que morrerem no caminho.
Tal era o estado das coisas que muitos dos meus companheiros, tentando melhorar o humor, diziam que os novos defuntos eram os mais sortudos pois não mais passariam fome e ainda poderiam ter seus nomes guardados e túmulos novinhos. A fome era tanta que ontem um capitão perguntou para alguns soldados se haveria farinha para comer.

Mãe, anteriormente o máximo que chegávamos perto de uma batalha eram as escaramuças que naturalmente ocorriam entre tropas de reconhecimento nos limites dos territórios ocupados pela Tríplice Aliança. Era comum um companheiro ou outro morrer por infecções causadas pelos ferimentos de bala logo após descansar por um tempo em macas improvisadas.

O superior gritou: "Infantaria!"
Este foi o som que ecoou no acampamento e que, pelo tom, me estremeceu de uma forma inimaginável pois nunca antes o superior se fez tão apreensivo diante dos soldados.
"A norma emitida pelo marechal Osório é de avançar! Que Deus nos abençoe!", concluiu o superior.

Fomos mandados a marchar sobre terreno pantonoso, cobrindo nossas fardas já surradas de lama e parasitas; os sapos pulavam em nossos corpos e o fedor azedo se espalhava pelo ar como se prenunciasse nossa futura morada. Era comum que um ou outro soldado tropeçasse numa cobra, alguns em crododilos camuflados no solo lamacento.

Chegada a hora, começaram os primeiros tiros de canhão que anunciavam nossa presença em Tuiuti como uma orquestra macabra cujas notas eram escritas no papel com sangue de inúmeras vítimas!
O grito dos homens era uma mescla de entusiasmo e sofrimento! Pude assistir muitos dos meus companheiros tombarem sem vida ainda nos primeiros minutos da batalha. Seus corpos eram engolidos pela lama enquanto a orquestra ensurdecedora tocava sem piedade!
A artilharia explodia, os rifles estalavam, os sabres rasgavam, os cavalos trotilhavam, os soldados gritavam e a morte se deleitava ao devorar corpos e beber o sangue daqueles defuntos ainda quentes.
Como se nada fosse o bastante, entramos em luta corporal com os paraguaios e... eu... levado pela fúria e ressentimento, completamente cego querendo a vingança pelos meus companheiros que no chão jaziam, Deus... Lópes havia enviado crianças para a linha de frente, algumas nem ao menos tinham altura para portar um rifle!
Quando me dei por conta o sangue corria em minhas mãos, e o choro do pobre garoto que eu havia golpeado na barriga era a única coisa que conseguia ouvir!
Estava eu com a arma calada com a baioneta suja com o sangue daquele garotinho que em minha alma olhava antes de morrer de forma tão hedoinda.
Estava eu, em cima de um garotinho com a barriga aberta e as entranhas espalhadas pelo solo imundo e cujo sangue inocente cobria minhas malditas mãos.

"O que está esperando, soldado? Avance!"

Foi o que escutei antes de um projétil explosivo me acertar, ali, parado.
Depois só lembro de ter acordado aqui, numa maca improvisada num acampamento brazileiro onde todos estavam felizes pela vitória Aliada.

Deus, saí de casa para encontrar-me no inferno. Estas podem ser minhas últimas palavras. Faça com que esta carta chegue à minha família, que com tanta preocupação me aguarda".

- Tuiuti, maio de 1866.
Carta de um soldado desconhecido.

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