Lia

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Descobri que queria ser atriz quando tinha 8 anos e assisti ao meu primeiro musical no teatro. O palco era imenso, luzes de todas as cores iluminavam os atores, e tudo parecia mágico. Lembro de me sentir viva pela primeira vez naquele dia.

Hoje, 12 anos depois, estou deitada na cama com uma xícara de café ao lado e o computador no colo. Espero ansiosamente a resposta de uma audição que fiz há um mês, para uma peça de época, autoral, em um dos teatros mais populares de São Paulo. Meu sonho estava prestes a se realizar... ou a ir por água abaixo.

Já fiz dezenas de testes antes, mas esse era especial. Eu estava mais confiante do que nunca, tinha ido bem em todas as etapas e, no meu íntimo, acreditava que poderia ser escolhida para o papel principal. A direção era de Regina de Alencar, que eu admirava desde criança. Era um romance: uma jovem prometida a casar com um homem rico, mas que se apaixona por um músico humilde e foge com ele na noite do casamento. Um clássico, não? Eu nunca fui fã de romance, mas passar nessa audição significava muito.

Atualizei a página do meu e-mail mais uma vez. Nada. Suspirei fundo e cliquei de novo. Então, vi:

"Lista do Elenco Oficial – Flor de Inverno"

Pisquei. Li outra vez.
E só então soltei um grito.

Se eles tinham me enviado a lista, significava que eu havia passado. Abri o e-mail e desci devagar a tela. Meus olhos quase se encheram de lágrimas quando encontrei:

"Protagonistas:
Elisa – Lia Morretti"

Meu coração disparou. Eu sabia que era boa, mas ver meu nome ali parecia um sonho. Depois de alguns minutos de gritos abafados no travesseiro e pés batendo no colchão, voltei ao e-mail. Descendo mais a lista, encontrei outro nome conhecido: Bianca, minha melhor amiga, aprovada como a dama de companhia da protagonista. Quase liguei para ela, mas sabia que estava no trabalho. Melhor contar pessoalmente.

O dia passou como um borrão. Só pensava no encontro com o elenco, marcado para sexta-feira.

Dois dias depois, acordei mais cedo do que nunca. Tomei banho, arrumei o cabelo com perfeição e vesti meu top laranja favorito com uma camisa clara por cima, meu jeans cheio de desenhos que fiz à mão, tênis brancos impecáveis e meus acessórios dourados de sempre. Peguei a bolsa, o roteiro impresso e saí.

Cheguei à companhia Estrelas e encontrei Bianca na entrada. Ela correu me abraçar.

— Ai! Eu não consigo nem acreditar! Eu disse que você ia conseguir, Lia! — ela exclamou, o cabelo cacheado fazendo cócegas no meu rosto.

— Ainda vamos ser melhores amigas na peça também. Não é perfeito? — completei, sorrindo.

Demos os braços e seguimos até a sala indicada no e-mail. Quando abri a porta, porém, meu sorriso morreu.

Ele estava lá.

Sentado no chão, regata preta, script aberto, aquele sorriso torto e irritante. Rafael Castro.

— Você só pode estar de brincadeira... — escapou da minha boca.

Ele ergueu os olhos para mim, castanhos claros, serenos e provocativos.

— Oi, Lia.

Senti meu estômago revirar. Corri os olhos pelo e-mail outra vez. E lá estava:

"César – Rafael Castro"

Puta merda.

Ele sorriu como quem diz: Você realmente não leu a lista inteira? Que amadora. Bianca tentou conter o riso ao meu lado, e só aumentou quando Regina de Alencar, a diretora em pessoa, nos chamou para entrar.

As apresentações começaram. Conheci Pietro, nervoso e fofo, que faria o irmão da protagonista; Cecília, com seu sorriso simpático e brincos de morango, uma dama de companhia; Leonardo, charmoso, escalado como o noivo rico; e, claro, Rafael, que não perdeu a chance de me encarar ao dizer que seria "o homem por quem Elisa se apaixona".

Eu quis socá-lo.

A roda seguiu, e quando chegou minha vez, anunciei meu nome como Elisa. Aplausos. Todos, menos ele.

Depois das instruções de Regina, fomos liberados. Eu já estava pegando minha bolsa quando ouvi sua voz atrás de mim:

— Feliz em me ver de novo?

Revirei os olhos. — Claro. Mais feliz impossível.

— Vejo que continua a mesma Lia esquentadinha. Espero que deixe essa birra de lado para conseguirmos trabalhar juntos.

Quase engasguei.

— Birra? Você começou tudo isso!

Ele ergueu as sobrancelhas. — Eu? O que eu fiz pra você, mulher?

Antes que eu respondesse, Bianca se aproximou.

— Lia, você vai querer carona? — perguntou, olhando de relance para ele, quase divertida.

Assenti, segurei minha bolsa e fui com ela. Mas, enquanto saía, a voz irritante dele ecoava na minha mente.

Rafael Castro. O último nome que eu queria ouvir.
E agora, o meu par romântico no palco.

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⏰ Last updated: Sep 23, 2025 ⏰

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