O apartamento era, como tudo em sua vida, uma curação impecável. Objetos de arte minimalistas repousavam sobre superfícies de mármore polido, e os únicos sons que ousavam desafiar a quietude eram o sussurro distante do ar condicionado e o ocasional rangido do assoalho de pinho de lei sob seus saltos de Christian Louboutin. Mas naquela noite, um novo som habitava o espaço, um som que deveria ser uma intrusão, mas que Miranda Priestly permitia, contra todas as suas regras, que se tornasse parte da sinfonia particular de seu santuário: a respiração suave e regular de Andrea Sachs.
Andy dormia no sofá de couro branco, um emaranhado de limbs desengonçadas e paz profunda. Um volume sobre jornalismo investigativo escorregara de seus dedos relaxados e repousava, aberto, no tapete persa. Miranda parou na entrada da sala de estar, o copo de vinho tinto pairando a meio caminho de seus lábios. Ela observava.
Era um voyeurismo tranquilo. Uma necessidade que a consumia nas últimas semanas, desde que aquela garota - não mais uma garota, uma mulher, ela era forçada a admitir - se reinstalara em sua órbita, não como assistente, mas como algo indefinido. Algo que doía e acalmava ao mesmo tempo.
Andy usava um moletom surrado e jeans. Era um crime de moda que, vindo de qualquer outra pessoa, teria eliciado um comentário ácido capaz de congelar o sangue. Vindo dela, no entanto, Miranda só conseguia pensar na palavra conforto. Uma palavra perigosa. Uma palavra que não pertencia ao seu vocabulário.
Ela se aproximou, seus passos silenciosos no carpete espesso. A luz do skyline de Nova York entrando pela janela panorâmica pintava Andy de prata e sombra, destacando a curva de sua bochecha, a franja desarrumada sobre sua testa. Havia uma vulnerabilidade ali que fazia algo dentro de Miranda se contrair. Era a mesma vulnerabilidade que Andy enterrava sob uma capa de teimosia e princípios inabaláveis durante o dia, mas que na exaustão do sono, se revelava plena e cruelmente bela.
Miranda sentiu o impulso familiar, quase patológico, de categorizar. De encontrar a palavra exata, o termo de design que encapsulasse o que sentia ao observar Andy dormir. Era... o quê?
Não era desejo, pelo menos não no sentido comum da palavra. Era mais do que a atração por uma forma física, embora ela não fosse cega à beleza simples e saudável de Andy. Era um desejo de proximidade. De absorver um pouco daquela calma, daquela certeza interior que Andy carregava como uma segunda pele.
Não era amor. Essa palavra soava fraca, infantil. Amor era o que as revistas de celebridades vendiam. O que ela sentia era mais profundo, mais obscuro. Era uma necessidade reconhecida, como a necessidade de ar ou de água. Andy havia se tornado, inexplicavelmente, um elemento vital em seu ecossistema pessoal, anteriormente estéril.
Era admiração? Em parte. Ela admirava a coragem teimosa de Andy, sua recusa em ser moldada, mesmo por ela, Miranda Priestly, a arquiteta-chefe de egos. Mas era também uma frustração profunda. Porque Andy possuía algo que Miranda vendera há décadas em troca de um império: uma alma incólume.
Um suspiro escapou dos lábios de Andy, um som pequeno e sonhador. Miranda congelou, temendo tê-la acordado. Mas Andy apenas se aninhou mais profundamente no sofá, um leve sorriso brincando em seus lábios.
E foi então que a palavra, ou a falta dela, atingiu Miranda com uma força quase física. Ela, que comandava o dicionário da moda global, que ditava o que era "in" e "out" para milhões, não possuía o termo para descrever a conexão que a prendia àquela mulher adormecida.
Era um vazio lexical que a aterrorizava e, paradoxalmente, a fascinava. Era como olhar para uma cor totalmente nova, para a qual não existia nome. Como poderia ela dominar, controlar ou mesmo entender um sentimento que não podia ser nomeado?
Sua mão, fina e adornada apenas com sua aliança de platina, tremeu levemente. O impulso de estender os dedos e tocar aquele cabelo sedoso, de sentir o calor daquela pele, foi quase irresistível. Era um impulso primitivo, anterior à linguagem, anterior à lógica.
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Maldito desejo
Fanfiction⚠️ ESTÁ FIC ACONTECER COM BASE NA DESCRIÇÃO ABAIXO.⚠️ Em um apartamento de Manhattan, envolta na penumbra que precede o amanhecer, Miranda Priestly observa Andy Sachs dormir. É um ritual secreto, um momento de posse silenciosa onde a imperatória de...
