Eles me odiavam porque sabiam que eram incapazes de vencer. Meu coração batia calmo, enquanto os deles disparavam três vezes mais rápido. Era isso que tornava o sangue em nossas veias diferente.
Naquele momento, eu me perguntava como alguém poderia ser tão tolo a ponto de pisar na minha cidade e achar que podia fazer o que bem entendesse.
— Veja só... mostrando as garrinhas? — andei pela sala imunda, observando a mesa de centro coberta de cerveja e as bitucas espalhadas pelo chão. — Chace com certeza te avisou, não é?
— Moleque, aqui é minha casa. Não me venha encher o saco.
— Sua casa? — ri, soprando a fumaça que queimava em meus pulmões. — Você está na minha cidade, sobre o que eu comando. — me aproximei, vendo o arrepio percorrer o braço dele. Medo. — Chace te encontrou, te avisou e você simplesmente não escutou?
Não esperei resposta. Me virei, observando ao redor: uma casa luxuosa, em um condomínio de luxo. Provavelmente havia um carro de alguns cavalos na garagem. Mas o que realmente chamava atenção era a mulher loira, caída, com os cinco dedos marcados no pescoço e um tiro na bochecha.
— Eu te pedi para não voltar à minha cidade — traguei meu cigarro e voltei o olhar para a janela. — Aqui não existe perdão. — Do lado de fora, as casas pareciam saídas de comerciais de TV. — E pensar que fui paciente desde o dia em que você apareceu em um dos meus bares...
Meu corpo virou no instante em que percebi a movimentação pelo reflexo da vidraça. O objeto de aço perto da TV, uma simples decoração que agora servia como arma. O rosto dele, antes determinado, se transformou em pânico, quando agarrei seu braço.
— Achou mesmo que eu seria tolo a ponto de não prever sua covardia? — arqueei a sobrancelha, sorrindo enquanto ele deixava o objeto cair e recuava, tropeçando nos próprios pés. — Aqui acaba sua graça, sua vidinha medíocre. Quando você pisou nesta cidade achando que era fodão, esqueceu que aqui quem manda sou eu.
Soltei o cigarro no chão e, com a arma já engatilhada na mão, encarei Sulan. O desespero em seus olhos era combustível; era isso que me fazia me sentir vivo, o poder de reduzir alguém como ele a nada.
— Sobrinho... — a voz dele tremeu, o corpo recuando como se estivesse diante do bicho-papão. — Vai derramar o meu sangue? Somos família.
— Te encontro no inferno, titio. — Apertei o gatilho. A bala atravessou sua perna, o fazendo ruir de joelhos. Era assim que eu queria: abaixo de mim. — Avise papai que mandei abraços.
Um segundo disparo explodiu seu rosto, respingando sangue no sofá bege. Contornei a cena evitando pisar no sangue fresco e me aproximei da mulher caída.
— Quando Nick souber, vai querer te buscar no inferno — murmurei, observando o horror congelado em seus olhos abertos. — Você só precisava ter o ouvido uma vez na vida.
Saindo pelos fundos, meu celular vibrou no bolso. Na tela, a foto de Chace ao lado de um de seus carros.
— Tô ouvindo, cachinhos.
— Cachinhos é meus ovos — Nick riu ao fundo.
— Mandem os meninos limparem a sujeira na casa do Sulan. — Entrei no carro, ligando o viva-voz e acendendo outro cigarro. — Chego em vinte minutos.
— E como foi com Sulan, menino fumante? — a voz de Chace carregava a mesma preocupação de sempre. — Seus pulmões estão um caos, Chris.
— Vá se ferrar, cachinhos. — Soltei a fumaça, girando a chave de ignição e ouvindo o motor ganhar vida. — Meus pulmões estão melhores que as bucetas que você enche de vez em quando.
— Puta merda, o Christopher tem razão! — Nick gargalhava alto do outro lado.
— Vão se foder vocês dois. — Desliguei a ligação e saí do condomínio.
O cansaço pesava meus olhos. Fazia dias que não dormia direito. Drogas eram meu alívio, mas nem elas estavam resolvendo, os negócios me mantinham desperto, mesmo contra minha vontade. Quando percebi, já estava passando pelo campus da faculdade da Alice.
Minha irmã amava a cafeteria dali. Lembrei-me dela pequena, com apenas dias de vida, colocada em meu colo, os olhos negros fixos nos meus. Eu tinha quatro anos e soube, naquele instante, que me tornaria o que fosse preciso para protegê-la.
Entrei na cafeteria e fui direto para a última mesa, encostado à parede. Só queria café e silêncio.
— Mia, você se parece com uma vagabunda com essa roupa de merda. — A voz veio de outra mesa. Abri os olhos devagar, forçado pelo barulho.
— Damien, não fale alto assim... — a voz dela era baixa, trêmula. — Eu gosto das minhas roupas. São só jeans e camiseta.
A batida na mesa me fez despertar por completo. Meu olhar encontrou Damien Sylan o bastardo, filho de um policial corrupto. Jogador de futebol, alto, olhos verdes, e agora de pé, levantando mão contra a garota loira à sua frente.
— Cala a boca! — gritou ele, acertando certeiramente o rosto da loira. — Vá para o quarto e troque essa roupa.
A garota se encolheu, levando a mão ao rosto. Quando ela recuou, acabou esbarrando em mim. Segurei sua cintura para que não caísse.
Damien sorriu ao me ver.
— Chris, quanto tempo. — Estendeu a mão, como se estivéssemos em uma reunião amigável.
— Damien namorando? Que surpresa. Escolheu uma só buceta pra brincar. — Ignorei sua mão, cada músculo do meu corpo pronto para esmagá-la. — Mas até que escolheu bem.
A garota se encolheu ainda mais. Olhos claros marejados, cabelos loiros que lembravam um anjo perdido em meio à sujeira.
— Ela é "perfeitinha" e tudo mais... mas se veste como uma puta — ele insistiu.
— Você lembra com quem está falando,
moleque? — minha voz saiu baixa, fria. — Vai se afastar dela agora. E não ouse olhar para ela de novo.
O rosto dele empalideceu. Procurava confirmação nos olhos da garota, desesperado.
— Mia, fala pra ele que você gosta disso...
— Se manda, pirralho. — Dei um passo à frente, e Damien recuou, tentando salvar a própria pele.
Quando saiu, olhei para ela.
— Qual o seu nome? — perguntei, levantando seu rosto com cuidado. O vermelho do tapa já marcava a pele pálida. — Vou pedir gelo pro seu rosto.
— Mia... — sussurrou. — O que você fez... vai acabar com tudo. Ele vai acabar comigo.
Ela saiu correndo, deixando-me com perguntas demais e nenhuma resposta.
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Entre Cinzas e Segredos
RomanceChristopher carrega nas mãos o peso do sangue, e nos olhos a frieza de quem já perdeu tudo. Mia, por trás do sorriso delicado, esconde cicatrizes que ninguém ousa imaginar. Dois mundos que jamais deveriam se tocar... até que o destino os coloca fren...
